0209/2026 - Muito sangue tem sido derramado: análise discursiva sobre doação de sangue na Ação Direta de Inconstitucionalidade 5543 Much blood has been shed: a discursive analysis of blood donation in Direct Action of Unconstitutionality 5543
O artigo analisa os discursos mobilizados na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 5543, com foco na interseção entre normativas sanitárias e direitos fundamentais. A pesquisa investiga como a segurança transfusional foi utilizada como argumento para restringir a doação de sangue por homens que fazem sexo com homens (HSH) e como essa restrição se insere em dinâmicas de estigmatização e exclusão social. A análise discursiva dos documentos judiciais revela tensões entre ciência, direito e políticas públicas, evidenciando o embate entre o princípio da precaução sanitária e a garantia da igualdade e não discriminação. A decisão do Supremo Tribunal Federal, ao declarar inconstitucionais as normas restritivas, representa um avanço na proteção dos direitos humanos, mas suscita debates sobre os impactos e desafios para sua implementação.
Palavras-chave:
Judicialização da Saúde. Minorias Sexuais e de Gênero. Doadores de Sangue. Política Pública.
Abstract:
This article analyzes the discourses mobilized in Direct Action of Unconstitutionality No.
5,543, focusing on the intersection between health regulations and fundamental rights. The
research investigates how transfusion safety was used as an argument to restrict blood
donation by men who have sex with men (MSM) and how this restriction fits into dynamics
of stigmatization and social exclusion. The discursive analysis of the legal documents reveals
tensions between science, law, and public policies, highlighting the clash between the
principle of health precaution and the guarantee of equality and non-discrimination. The
ruling by the Supreme Federal Court, which declared the restrictive norms unconstitutional,
represents an advancement in the protection of human rights but raises debates about the
impacts and challenges of its implementation.
Keywords:
Judicialization of Health. Sexual and Gender Minorities. Blood Donors. Public Policy.
Conteúdo:
INTRODUÇÃO
A Política Nacional de Sangue e Hemoderivados do Brasil (PNSH) constitui um
marco na organização e gestão de serviços de saúde, refletindo a busca por equidade,
universalidade e integralidade preconizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Seu atual
modelo de segurança transfusional é baseado em triagem clínica, testagem laboratorial e
hemovigilância. Em sistemas que incorporam testes sorológicos e tecnologia de amplificação
de ácidos nucleicos (NAT), o risco residual de infecções clássicas transmitidas por transfusão
(HIV, HCV, HBV) atinge patamares inferiores a 1 por 1.000.000 de unidades, refletindo o
encurtamento da janela imunológica e o monitoramento contínuo de eventos 1,2 .
No entanto, seu contexto histórico remonta a um período em que a doação remunerada
predominava, com baixa qualidade e segurança transfusional. Até meados da década de 1980,
o sangue era frequentemente tratado como mercadoria, resultando em práticas que
negligenciavam critérios de segurança. Esse cenário foi agravado pela ausência de
regulamentação uniforme e pela falta de incentivos para doações voluntárias, levando à
disseminação de infecções como hepatites e HIV 1 .
A emergência da epidemia de HIV/AIDS na década de 1980 foi um divisor de águas
para a implementação de medidas mais rigorosas no sistema transfusional, pressionando o
governo a adotar políticas públicas voltadas à segurança sanitária. Esse movimento culminou,
em 1988, com a promulgação da Constituição Federal, que estabeleceu a saúde como um
direito de todos e dever do Estado, e a criação do SUS, que incorporou as ações de
hemoterapia como parte integrante dos cuidados de saúde 1 .
Entre os desafios enfrentados pela PNSH, destaca-se a histórica proibição de doação
por homens que fazem sexo com outros homens (HSH). Essa restrição, embasada
inicialmente em critérios de segurança sanitária, surgiu em um contexto marcado pela
epidemia de HIV/AIDS, período em que a população HSH foi desproporcionalmente
associada à disseminação do vírus. Durante anos, essa proibição foi alvo de críticas por parte
de organizações da sociedade civil, movimentos de pessoas lésbicas, gays, bissexuais,
travestis, queer, intersexuais, assexuais, entre outras identidades (LGBTQIA+) e especialistas
em saúde pública, que apontaram seu caráter discriminatório e sua desconexão com os
avanços científicos e tecnológicos na triagem e testagem de sangue 2,3 .
O critério de exclusão estabelecia inaptidão temporária de 12 meses para HSH,
independentemente de práticas seguras, enquanto heterossexuais com comportamentos de
risco similares não enfrentavam a mesma restrição 4,5 . Em 2020, o STF julgou a ADI nº 5543 e
decidiu pela inconstitucionalidade da norma, reconhecendo a violação dos princípios da
igualdade e dignidade humana.
Dada a importância de abordar a proteção à saúde e à vida de grupos em situação de
vulnerabilidade, como a comunidade LGBTQIA+, frequentemente afetada por discriminações
socialmente arraigadas e por contextos históricos e econômicos excludentes, este artigo
propõe-se a examinar os discursos relacionados à saúde que permeiam a ADI 5543. Tal
análise busca compreender as práticas sociais e discursivas que influenciam essa temática,
especialmente no que tange às implicações de políticas públicas e decisões judiciais para a
garantia de direitos fundamentais e a promoção da equidade. Tal problemática evidencia
ineditismo à medida que realiza uma análise discursiva interdisciplinar da ADI 5543, além da
atualidade do tema, uma vez que, apesar de o julgamento da ação ter ocorrido em 2020, a
publicação do inteiro teor do acórdão só se deu em agosto de 2024, o que faz deste artigo um
dos primeiros a analisar criticamente os argumentos e os votos dos ministros em sua
totalidade. Além disso, o estudo explora como a pandemia de COVID-19 foi mobilizada
como argumento para acelerar o julgamento, destacando a escassez de estoques de sangue e a
urgência de revogar normas excludentes.
BASES CONCEITUAIS
Nesse artigo, mobilizam-se outras perspectivas para compreender os discursos que são
contrários à garantia de direitos fundamentais a sujeitos vulnerabilizados, indo além da
homofobia e ativando o heteroativismo. Esse termo descreve movimentos que articulam
resistências à igualdade sexual e de gênero. Esses movimentos não se limitam a expressões de
preconceito ou aversão, mas incluem estratégias políticas e culturais bem elaboradas que
buscam reafirmar a superioridade da heteronormatividade como modelo social ideal. Assim, o
heteroativismo é marcado pela sua racionalidade estratégica, diferenciando-se de abordagens
que utilizam o sufixo ‘-fobia’, o qual pode implicar irracionalidades 6 .
No Brasil, as manifestações heteroativistas assumem formas específicas devido às
particularidades históricas e culturais do país. Por exemplo, a retórica contra a ‘ideologia de
gênero’ tornou-se um eixo central para grupos conservadores, especialmente a partir da
década de 2010. Essas práticas discursivas são fundamentadas em alegados valores morais,
religiosos e familiares, os quais são apresentados como ameaçados pela pluralidade de
gêneros e sexualidades 8-10 .
Outro elemento-chave para compreender o heteroativismo é a interseccionalidade,
pois suas manifestações estão frequentemente entrelaçadas a outras formas de opressão, como
racismo, classismo e xenofobia. De acordo com Puar 11 , o homonacionalismo é uma dessas
dinâmicas, em que direitos LGBTQIA+ são cooptados por regimes nacionalistas para
justificar políticas de exclusão e discriminação. No contexto brasileiro, essa tendência se
manifesta com o uso do discurso religioso e da soberania nacional como justificativa para
limitar os direitos de pessoas que escapam da matriz cis-heteronormativa 8,9 . No entanto, um
contradiscurso emerge para a construção da cidadania sexual no Brasil, avançando
principalmente por meio de ações judiciais, uma vez que o Legislativo tem se mostrado
hesitante em adotar medidas favoráveis à população LGBTQIA+ 13-15 .
Especialmente sobre a doação de sangue, enquanto ato complexo, que envolve
diferentes esferas da vida em sociedade, o heteroativismo pode auxiliar na compreensão de
práticas e ideologias organizadas que reafirmam a heteronormatividade como padrão moral e
social preferível, mobilizando linguagem de ‘proteção da família’, ‘liberdade religiosa’ ou
‘direitos parentais’, e buscando evitar o rótulo de ‘-fobia’ por meio de táticas institucionais e
jurídicas. Aliado ao heteroativismo, o homonacionalismo é igualmente útil para visualizar
melhor as disputas discursivas em torno e por meio da doação de sangue, pois se trata de
cooptação de direitos sexuais por projetos nacionais que legitimam hierarquias raciais,
religiosas e geopolíticas. Como ferramenta analítica, o conceito ajuda a observar quando e
como direitos sexuais são invocados para reforçar agendas de segurança e ordem, inclusive
aliciando pautas diversas, como a da saúde. Em síntese, esse é um repertório político
propositivo (e não apenas reativo/aversivo) que sustenta a superioridade da ordem
cis?heteronormativa sob o discurso do interesse público 8,16 .
Propomos esses conceitos por três razões: (i) eles permitem ir além de leituras
centradas em preconceitos individualizados, evidenciando estratégias institucionais de
normatização da sexualidade em políticas públicas; (ii) ajudam a explicar a persistência de
critérios categorias?baseados quando a evidência científica e as boas práticas internacionais
convergem para avaliações individualizadas de risco, que considerem mais as situações e as
práticas de risco do que o ‘grupo de risco’; e (iii) contribuem para integrar a crítica decolonial
brasileira sobre ‘ideologia de gênero’ e resistências legislativas em direitos LGBTQIA+ com
a gramática sanitária do ‘risco populacional’, pertinente ao debate da ADI 5543.
METODOLOGIA
Trata-se de pesquisa qualitativa, apoiada nos Estudos Críticos do Discurso (ECD),
voltados para a análise de problemáticas sociais com ênfase nas relações de poder e injustiças
sociais. Nos ECD, a linguagem é interpretada como constitutiva e interdependente da
sociedade, permitindo identificar como o poder é exercido e contestado. Nesse contexto, a
linguagem é entendida como uma rede estruturada de significados, em que sistemas
interrelacionados regulam os sentidos atribuídos aos discursos. Esses sistemas, embora
constranjam as ações sociais, também as possibilitam, já que é por meio da linguagem que os
sujeitos interagem e constroem suas experiências sociais 17 .
O corpus da pesquisa foi composto por documentos relacionados à ADI 5543, obtidos
por meio do portal do STF. Os dados coletados - código do documento, status, tipo de peça
processual, data, autoria, assunto, resumo, vozes envolvidas e observações gerais - foram
sistematizados em planilhas no Microsoft Excel. Inicialmente, esses documentos foram
designados por um código formado pelo número da ação e a ordem em que aparece no
processo, ou seja, 5543_XX. Posteriormente, foram classificados em duas categorias:
primários, que incluem petições, manifestações e despachos; e de apoio, compostos por leis,
resoluções e artigos científicos utilizados como embasamento aos documentos primários.
Dentro os primários, realizou-se uma subdivisão entre documentos argumentativos, que
expressam as posições dos atores do processo; e procedimentais, que asseguram o andamento
processual. A análise aprofundada priorizou os documentos argumentativos, por sua
relevância para o objetivo do estudo.
A análise textual foi conduzida com o auxílio do software AntConc (versão 4.3.1), que
permite explorar padrões discursivos em textos, analisando frequência e associação de
palavras. Além disso, a Análise do Discurso Crítica Latino-americana (ADC-LA), que integra
uma dimensão decolonial na interpretação dos discursos, foi utilizada como referencial
analítico do corpus. Essa abordagem foi essencial para compreender as desigualdades sociais
e relações de poder subjacentes aos processos judiciais, evidenciando barreiras estruturais e
discursivas que dificultam o acesso da população marginalizada aos direitos à saúde. Além
disso, apontou possíveis caminhos para a transformação social 18,19 . Ademais, ferramentas de
inteligência artificial generativa auxiliaram na revisão linguística e adequação às normas
editoriais da versão final do texto.
RESULTADOS
A ADI 5543, movida pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) em junho de 2016, teve
como objetivo suspender dispositivos normativos que tratavam da restrição à doação de
sangue por HSH, contidos em portaria do Ministério da Saúde (MS) e em resolução da
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa):
Art. 64. Considerar-se-á inapto temporário por 12 (doze) meses
o candidato que tenha sido exposto a qualquer uma das
situações abaixo:
(...)
IV – homens que tiveram relações sexuais com outros homens
e/ou as parceiras sexuais destes” (Ministério da Saúde, 2016)
Art. 25. O serviço de hemoterapia deve cumprir os parâmetros
para seleção de doadores estabelecidos pelo Ministério da
Saúde, em legislação vigente, visando tanto à proteção do
doador quanto a do receptor, bem como para a qualidade dos
produtos, baseados nos seguintes requisitos:
(…)
XXX - os contatos sexuais que envolvam riscos de contrair
infecções transmissíveis pelo sangue devem ser avaliados e os
candidatos nestas condições devem ser considerados inaptos
temporariamente por um período de 12 (doze) meses após a
prática sexual de risco, incluindo-se:
(…)
d) indivíduos do sexo masculino que tiveram relações sexuais
com outros indivíduos do mesmo sexo e/ou as parceiras sexuais
destes. 4
Após o recebimento da ADI, várias instituições solicitaram ingresso como amicus
curiae e enviaram suas manifestações em relação ao caso em análise, tanto contrário quanto
favoravelmente. Já em 2017, o Ministro Relator Edson Facchin incluiu a ação em pauta e o
julgamento começou em outubro, em três reuniões. Na última, realizada em 26 de outubro do
mesmo ano, o Ministro Gilmar Mendes pediu vista antecipada, suspendendo o julgamento.
Apenas em abril de 2020, em virtude da pandemia de COVID-19, PSB e Defensoria Pública
da União (DPU) enviam requerimento para que a ADI fosse encaminhada à pauta com
urgência. Tal pedido foi aceito pelo Relator e, em maio de 2020, o Plenário do STF julgou
procedente a inconstitucionalidade das normas do MS e da Anvisa que estabeleciam critérios
específicos para doação de sangue por parte de HSH. Pela agilidade exigida pelo contexto
sanitário, em setembro do mesmo ano, foi emitida a certidão de transitada em julgado, o que
encerrou oficialmente a ADI. Apesar disso, a publicação do inteiro teor do acórdão só
aconteceu em agosto de 2024.
Nesse processo, o termo ‘saúde’ apareceu 681 vezes, sendo a peça que mais empregou
o termo foi o inteiro teor do acórdão (n=309). Tal frequência pode ser explicada pelas
instituições cujos regramentos estavam sendo questionados, denominadas no processo de
interpeladas: Ministério da Saúde e Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Assim, grande
parte dos usos do termo ‘saúde’ está ligada a órgão, departamento ou norma governamental,
tais como ‘da portaria nº do ministério da saúde’, ‘ministro de estado da saúde’ e ‘de doadores
estabelecidos pelo ministério da saúde’. A nuvem de palavras geradas a partir da ADI
demonstra, visualmente, como o discurso da saúde é predominantemente jurídico e
institucional, centrado em discussões normativas (Figura 1).
Ao adentrar nos discursos mobilizados pelos atores na ADI 5543, é perceptível o
acionamento de outras perspectivas de saúde como estratégias argumentativas de
convencimento. A petição inicial apresentada pelo PSB trouxe umas dessas perspectivas, ao
criticar a proibição de doar sangue: “Essa situação escancara absurdo tratamento
discriminatório por parte do Poder Público em função da orientação sexual, o que ofende a
dignidade dos envolvidos e retira-lhes a possibilidade de exercer a solidariedade humana
com a doação sanguínea.” (5543_1)
Fica evidente que doar sangue, para o PSB, adquire o sentido de instrumento de
solidariedade, como materialização da benevolência humana e o Poder Público é o sujeito que
materialmente (retirar) impede sua realização. Isso converge para uma vertente científica que
trata a doação de sangue como ato que produz e reproduz laços de cidadania e confiança
institucional — não apenas como transação clínica. Richard Titmuss demonstrou, em
comparação histórica, que regimes baseados em doação voluntária e altruísta têm melhor
desempenho distributivo e de segurança do que arranjos mercantilizados, influenciando a
política global de doação voluntária 20 . Estudos sociológicos posteriores evidenciam que a
organização da coleta molda perfis de doadores e taxas de doação, reforçando a ideia de
altruísmo incorporado nas instituições 21,22 . Em consonância, OMS/OPAS defendem a doação
voluntária não remunerada como pilar normativo e operativo de segurança/suficiência 23 .
Ao continuar sua argumentação, o PSB atribui ao mesmo sujeito, porém nomeado por
outros termos, a estigmatização do grupo impedido:
Sob o pretexto de privilegiar a segurança no controle de saúde do
sangue, o Estado brasileiro admite que determinado grupo de
pessoas, por mera questão ontológica – e não em razão de
comportamentos adotados –, seja barrado dos hemocentros e taxado
de “impuro”, de “aidético”, frente às pessoas supostamente
“normais” e possuidoras de sangue hipoteticamente “saudável”
(5543_1).
Esses termos aspeados são figurados e remetem às discriminações no auge da
epidemia de HIV/AIDS. Além disso, destacam a inadequação das características associadas a
grupos binarizados – aquelas pessoas que podem doar e aquelas que não podem. (Rafael;
Simião, 2019; Santos, 2002). O ator busca, portanto, evidenciar o caráter anacrônico das
normas impugnadas, empregando os mesmos termos da época e denunciando o quão
preconceituosos eles são na contemporaneidade. Isso é bem acolhido pelo Ministro Relator,
Edson Facchin, que utiliza uma metáfora interessante para se referir ao caso: “Muito sangue
tem sido derramado em nosso país em nome de preconceitos” (5543_37).
Derramar sangue é uma expressão idiomática que pode significar, de modo literal,
perda de sangue físico, em virtude de violências ou acidentes, ou, de modo figurado,
sacrifícios, lutas e dificuldades enfrentadas ao longo de um processo histórico, social ou
pessoal. No contexto da ADI 5543, a expressão parece adquirir uma acepção ambígua, afinal
tanto pessoas têm sido violentadas, derramando o sangue físico, quanto a luta por
reconhecimento de direitos, que, no caso em tela, resulta no desperdício potencial de
hemocomponentes. Ambas as situações, segundo Facchin, existem por conta de preconceitos
ligados a orientações sexuais e identidades de gênero.
No decorrer do processo, a Anvisa, o MS e a AGU apresentam suas defesas
(respectivamente, documentos 5543_71, 5543_131 e 5543_132), todas orientadas para o
condão da ciência da saúde:
Seria demasiado precipitado e não respaldado por conhecimentos
científicos seguros, no estado da arte atual, uma mudança no
critério de inaptidão adotado no Brasil, que está baseado nos
dados epidemiológicos do grupo/coletivo, para uma adoção de
avaliação individual de risco independente dos dados epidemiológicos
populacionais (5543_71).
Assim, constata-se que não se enquadra na situação de inaptidão
temporária em questão as mulheres lésbicas, bissexuais, travestis,
transgênero, etc. A inaptidão se dá, tão somente, aos homens que
fazem sexo com homens (HSH), e, ainda assim, apenas pelo período
de 12 meses. Nesse contexto, os dispositivos questionados prescrevem
a inaptidão temporária de homens que fazem sexo com outros
homens (HSH), não em virtude da orientação sexual destes
candidatos em si, mas em virtude dos riscos associados à qualidade
do sangue doado, conforme devidamente demonstrado na Nota
Técnica acostada aos autos (5543_131).
Entretanto, as informações apresentadas pela ANVISA demonstram
que os motivos que fundamentam a restrição apoiam-se em
estudos empíricos que atrelam as relações sexuais entre homens a um
maior risco de infecção do HIV (5543_132).
A Anvisa foi a primeira a apresentar uma contra-argumentação, elencando diversos
estudos para associar a uma possível mudança de critérios (processo relacional conjugado no
subjuntivo, seria) o uso de um modalizador de intensidade (demasiado) combinado com o
adjetivo precipitado, além de modalizador de negação (não) associados ao adjetivo
respaldado. Os conhecimentos científicos seguros aparecem logo após, como a base para a
definição de tais critérios, pois foram construídos com base em dados epidemiológicos
populacionais. A questão dos dados epidemiológicos do grupo/coletivo é abordada também
pelo MS, atribuindo a eles a conclusão do risco maior em relação ao sangue desse grupo e não
à orientação sexual. Tal posicionamento é reiterado pela AGU, que resume a tônica da defesa
na ADI 5543: estudos empíricos que atrelam as relações sexuais entre homens a um maior
risco de infecção do HIV.
Percebe-se que a saúde aqui é mobilizada como ciência que, materializada na
epidemiologia, trazem evidências para embasar as práticas. As pesquisas realizadas nessa
perspectiva, segundo os atores inquiridos, não teriam relação com qualquer caráter
discriminatório ou preconceituoso, visariam o interesse coletivo e refletiriam o
comportamento de risco que existiria nas relações sexuais entre homens. Uma citação do MS
operada pela Anvisa em seu discurso denota esse afastamento produzido entre o critério para
doação e a discriminação contra pessoas LGBTQIA+:
Segundo o Ministério da Saúde, a orientação sexual não é usada
como critério para seleção de doadores de sangue por não constituir
risco em si, mas estão fundamentadas em evidências
epidemiológicas e técnico-científicas visando o interesse coletivo na
garantia máxima da qualidade e segurança transfusional o receptor de
sangue. Tal embasamento demonstra que estas diretrizes não
possuem caráter discriminatório preconceituoso (5543_77).
Nesses discursos, são operados dois binarismos: coletivo-individual e ciência-
orientação sexual. Coletivo é o nível de agregação dos dados produzidos pela epidemiologia,
cuja conclusão é um risco acentuado de infecção de um grupo específico (nomeados HSH),
quando comparado com outros grupos (homens que fazem sexo com mulheres, mulheres que
fazem sexo com outras mulheres, mulheres que fazem sexo com homens etc.). Individual é o
comportamento de risco que não é capturado pela epidemiologia, por falta de meios para
avaliação individual de práticas sexuais seguras. Assim, de acordo com o posicionamento do
MS, o coletivo deve ser preconizado em detrimento do individual.
Da mesma forma, os mesmos atores operam ciência como discurso imparcial,
objetivo, fático, seguro, empírico e, portanto, desprovido de preconceitos ou discriminação. O
próprio termo HSH é incluso aqui, pois “a inaptidão temporária à doação por homens que
fazem sexo com outros homens faz parte de um extenso rol de situações - que, em sua
esmagadora maioria, não possuem qualquer relação com a orientação sexual dos
candidatos - com vistas à proteção do receptor” (5543_131). Desse modo, orientação sexual é
mobilizada como o oposto disso – orientação é da ordem da vontade, da intimidade, da vida
privada, da autonomia, da liberdade, da subjetividade. Ao mobilizar tais binarismos, as partes
inquiridas deslocam o foco argumentativo para aquilo palpável, concreto, chamado ciência, e
para algo abrangente, totalitário, chamado de coletivo.
Essa estratégia discursiva é também utilizada pelos amici curiae favoráveis ao
inquirente, como o Instituto Brasileiro de Direito Civil (IBDCivil), invertendo a importância
dentro do esquema binário. Os excertos destacam uma ênfase no indivíduo e na orientação
sexual, em contraste à noção de coletivo, à ciência biomédica tradicional e à centralidade da
epidemiologia:
Ou seja, por mais que o argumento de uma maior porcentagem de
contágio supostamente tenha comprovação científica, a simples
transposição de dados matemáticos e epidemiológicos para o
plano subjetivo do doador, individualmente considerado, gera
presunções que nem sempre correspondem à realidade. Em
estatística, existe uma diferença entre correlação (mera ligação entre
dois eventos) e causalidade (qualidade daquilo que é causal, que
fundamenta ou produz algum efeito). O fato de haver um maior índice
de AIDS entre homens que fazem sexo com outros homens (HSH) não
significa que a mera condição de serem homossexuais ou bissexuais,
por si só, enseja esse maior índice (5543_140).
Quando se fala em exercício de direitos fundamentais da mais alta
importância, a questão não pode ser decidida apenas com base em
estatísticas gerais, em que os indivíduos viram números de um
coletivo ou passam a ser traduzidos por médias. É necessário que
os titulares dos direitos sejam considerados em suas
individualidades, sob pena de se utilizar a estatística para justificar as
mais nefastas discriminações (5543_140).
O IBDCivil foca nas fragilidades do coletivo-ciência e ataca o caráter indutivo das
conclusões apresentadas pela Anvisa e pelo Ministério da Saúde, chamando-as de
transposição, modalizado pelo adjetivo simples, e presunções, modalizado pela locução
adverbial nem sempre. Isso denota deslegitimação daquele binarismo destacado nas outras
peças e denúncia em relação ao trato com seres humanos, pois é necessário que sejam
considerados em suas individualidades, afinal são os titulares dos direitos (5543_140).
Nesse ínterim, o único amicus curiae contrário ao requerido foi a Associação
Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), que reforçou os
argumentos das partes inquiridas:
Ressalte-se que o caráter da Norma posta em questão não é
discriminar as relações homoafetivas, mas sim estabelecer
CRITÉRIOS visam PROTEGER tanto a saúde do DOADOR,
como do RECEPTOR de eventual HEMOCOMPONENTE. (...)
No entanto, temos que o aspecto mais importante a considerar na
inaptidão temporária de doadores HSHs não é o seu suposto direito de
doar sangue (ou de impor a sua doação de sangue, o que, em última
análise, significa impor o transplante de tecido seu - o sangue - em
outro indivíduo), mas sim o direito do receptor de receber sangue o
mais seguro possível. (5543_221)
Destaca-se o uso da conjunção concessiva mas para indicar o que importa –
estabelecer critérios e o direito do receptor, relegando a segundo plano discriminar as
relações homoafetivas e o suposto direito de doar sangue. Novamente, a lógica binária
construída pelas partes que compõem o Poder Público é acionada aqui, modificada para
ciência-coletivo de receptores. Além disso, a utilização de caixa alta denota maior ênfase no
que importa para a ABHH: critérios, proteger, doador, receptor, hemocomponente. Tal
estruturação discursiva não apenas privilegia a ciência da saúde como pilar para o
estabelecimento de critérios, como também eleva o sujeito que recebe o sangue como
potencial vítima do doador.
Mesmo com os debates mais acalorados até 2018, o processo parou até 2020, com a
ocorrência da pandemia de COVID-19. Os amici curiae Grupo de Advogados pela
Diversidade Sexual e de Gênero (GADvS), PDPU e Frente Parlamentar Mista, além do
requerente PSB, enviaram documentos que solicitavam a urgência no julgamento em virtude
da necessidade de reforço nos bancos de sangue:
Assim, a persistência da regra que proíbe os homens que fazem sexo
(seguro e monogâmico) com outros homens de doarem sangue por 12
(doze) meses apenas lesa o interesse público, ao limitar os potenciais
doadores de sangue enquanto o país sofre, diuturnamente, com a falta
de sangue em volumes seguros para a melhor prestação dos serviços
de saúde. Falta que está ainda mais agravada nesse momento de
pandemia da COVID-19 (5543_286).
Os argumentos favoráveis à inconstitucionalidade foram reforçados e a saúde toma
contornos de prestação de serviços em situação emergencial. A primeira intervenção com base
na pandemia ocorreu em 9 de março de 2020 e o julgamento aconteceu em maio do mesmo
ano, demonstrando a importância dada ao contexto sanitário. Um dos ministros que votou
favoravelmente ao pedido do requerente, Gilmar Mendes, demonstrou tal importância em sua
fala:
Finalmente, registre-se que essa discussão se faz bastante atual no
contexto de excepcionalismo decorrente da crise sanitária do
Covid-19. Isso porque a anulação de impedimentos inconstitucionais
tem o potencial de salvar vidas, sobretudo numa época em que as
doações de sangue caíram e os hospitais enfrentam escassez crítica, à
medida que as pessoas ficam em casa e as pulsações são canceladas
por causa da pandemia de coronavírus (5543_294).
Nos votos proferidos e registrado nesse documento, cada ministro e cada ministra
articulam a saúde como elemento central em um jogo de tensões entre direitos fundamentais,
saúde pública e liberdade individual. Dentre eles, o voto do Relator é o que mais explorou a
saúde - Edson Fachin constrói sua fala a partir de um entendimento humanista da saúde, que
transcende o conceito biomédico para incorporar dimensões éticas e ontológicas. Ao destacar
que a orientação sexual não contamina ninguém, condutas de risco sim, Fachin desloca o
foco da saúde pública para práticas específicas e rejeita a associação automática entre
homossexualidade e risco sanitário. Sua argumentação fundamenta-se na interseção entre
dignidade, liberdade sexual e solidariedade, sinalizando que políticas públicas baseadas em
estigmas violam direitos constitucionais, como visto no trecho do seu voto a seguir:
Vale dizer, só haverá livre igualdade para essas pessoas (homens que
fazem sexo com outros homens e/ou as parceiras sexuais destes) se as
políticas públicas de doação de sangue deixarem de lado restrições
baseadas na orientação sexual e no gênero dos candidatos a
doadores e passarem a estabelecer limitações e condicionantes gerais
que digam respeito às condutas, práticas, comportamentos, daqueles
que querem doar (5543_294).
Outro ministro que balizou a saúde foi Luís Roberto Barroso, ao reconhecer a
existência de discriminação na prática analisada, mas introduz uma perspectiva utilitarista ao
destacar o interesse público legítimo de proteger a saúde pública. Para ele, saúde é um valor
dual que deve equilibrar direitos individuais e coletivos. Embora admita a intenção legítima
das normas questionadas, Barroso não ignora o efeito discriminatório dessas políticas,
utilizando-se da metáfora da balança para expressar tal dualidade:
Na verdade, os dois pratos dessa balança. De um lado, eu penso,
que não há qualquer dúvida de que a portaria do Ministério da Saúde
e a resolução da Anvisa claramente criam uma situação de
desequiparação em relação aos homossexuais masculinos. (...). No
outro prato da balança, eu penso que também está o interesse
público legítimo de se proteger a saúde pública, em geral, e de se
proteger a saúde dos receptores de sangue doado, e, portanto, de
transfusão de sangue, do outro lado (5543_294).
Um dos ministros que foi contrário ao requerente, Marco Aurélio Mello, adota uma
postura conservadora ao justificar as restrições com base na alta incidência de contaminação
observada entre HSH. Para ele, saúde pública é um princípio maior que justifica medidas
preventivas, mesmo que severas. Essa visão instrumentaliza dados epidemiológicos como
justificativa para políticas excludentes, ignorando as críticas de Fachin sobre estigmatização.
Sua fala ecoa uma perspectiva positivista, que privilegia a segurança em detrimento da
inclusão:
Embora o risco na coleta de sangue de homens homossexuais não
decorra da orientação sexual, a alta incidência de contaminação
observada, quando comparada com a população em geral,
fundamenta a cautela implementada pelas autoridades de saúde, com
o fim de potencializar a proteção da saúde pública. Ainda que se possa
ter a medida como severa, no que declarado inapto, por doze meses, o
candidato enquadrado nas situações previstas nas normas impugnadas,
tem-se providência condizente com o bem jurídico maior que se
pretende resguardar – a saúde pública (5543_294).
DISCUSSÃO
A história das políticas públicas de saúde para pessoas que divergem da norma cis-
heteronormativa é bastante recente, especialmente quando comparado com políticas voltadas
para mulheres ou pessoas com doenças crônicas não transmissíveis. No Brasil, foi apenas na
década de 1980 que começaram a surgir iniciativas estatais positivas voltadas para a
comunidade LGBTQIA+.
Esse período coincidiu com a emergência global da epidemia de HIV/AIDS que afetou
profundamente a comunidade não cis-heterossexual. A visibilidade daquelas pessoas
acometidas pela AIDS e a pressão do Movimento Homossexual Brasileiro forçaram o Estado
a agir, embora de forma lenta e displicente, já que a doença era vista como algo que afetava
principalmente ‘corpos abjetos’ 24 . A resposta governamental foi impulsionada pelo aumento
da incidência do HIV em outros grupos, como homens e mulheres cis-heterossexuais, o que
levou ao desenvolvimento de protocolos de cuidado e ao aprimoramento de tecnologias que
tornaram o Brasil uma referência mundial no tratamento da AIDS. No entanto, as políticas de
saúde da época eram centradas na doença e não no sujeito, reforçando estigmas e
comportamentos de risco 25 .
Ainda que a década de 1990 tenha trazido avanços tecnológicos no tratamento da
AIDS, além da criação do SUS e da maior abertura social para discutir questões relacionadas
à sexualidade, foi apenas a partir dos anos 2000 que as demandas da comunidade LGBTQIA+
foram incluídas na agenda governamental de forma mais integral. Iniciativas como o
Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-2), em 2002, o Programa Brasil sem
Homofobia (BSH), em 2004, e a Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays,
Bissexuais, Travestis e Transexuais, implementada em 2011, são alguns exemplos de
promoção da cidadania e da saúde para a comunidade em questão 26 .
No entanto, alguns anacronismos permaneceram nas políticas públicas de saúde ao
longo dos anos, como a proibição de doação de sangue por HSH, critério questionado na ADI
5543. A sigla SHS nasceu de um esforço para “incluir nas políticas públicas uma gama de
masculinidades, sem necessariamente conotar em uma categoria identitária ou implicar
motivações à prática do ato sexual” 23 (p. 59), alcançando sujeitos homossexuais,
heterossexuais que ocasionalmente fazem sexo com homens por dinheiro ou desejo, entre
outros. A sigla também carrega um alvo, indicando um grupo de risco, cujo comportamento
seria “perigoso, baseado na irresponsabilidade e delinquência da sexualidade divergente” 23 (p.
60).
Justamente por meio desse viés que o argumento institucional sustentou que a maior
prevalência/incidência de HIV entre HSHs justificaria a inelegibilidade temporal enquanto
não fosse viável uma triagem individual segura. Contudo, a mesma epidemiologia que
identifica maior risco relativo em subpopulações também demonstra que triagem clínica
padronizada, testes sorológicos e de biologia molecular e hemovigilância encurtaram a janela
imunológica para poucos dias, reduzindo o risco residual a patamares muito baixos, o que
abriu espaço para políticas comportamentais mais refinadas 20,21,23 .
Porém, a categorização da vida, promovida pelo movimento da epidemiologia de
risco, afastou a identificação das subjetividades e promoveu a culpabilização daqueles
indivíduos enquadrados em HSH 27 . Então, o inimigo público a ser combatido nessa guerra
contra a AIDS se tornou aqueles homens cujas práticas destoam da matriz cis-
heteronormativa hegemônica, reproduzindo, no século XXI, um anacronismo oriundo do final
do século anterior. Em nome da segurança sanitária, o Estado, por meio de suas instituições
legitimadas discursivamente pela ciência, perpetua preconceitos baseados em conceitos já
ultrapassados – a virada é que não são mais discriminações diretas contra pessoas não cis-
heteronormativas, mas sim ação em nome da garantia de segurança de materiais
hemoterápicos a toda a população, como defendido pelo MS e a ABHH.
Tal estratégia é muito similar àquelas descritas por diversas pessoas pesquisadoras de
diferentes países e nomeadas como heteroativismo 8,28-30 . O critério questionado na ADI 5543
pode ser entendido como prática discursiva contrária à dignidade da vida de pessoas
LGBTQIA+, situado no campo semântico da saúde, do qual o léxico discriminador inclui
verbetes e expressões supostamente imparciais, utilizadas para perpetuar a exclusão desses
corpos e seus tecidos ‘profanos’: “evidências epidemiológicas e técnico-científicas”
(5543_77), “maior risco de infecção” (5543_132) e “riscos associados à qualidade do sangue
doado” (5543_131) aparecem como instrumentos discursivos de persuasão e de distração. Em
vez de continuarem atacando a existência e as vivências de pessoas fora da matriz cis-
heteronormativa, os heteroativistas, ou cis-heteroativistas, positivam seu discurso em nome de
algo ‘maior’ e ‘melhor para a sociedade’. Assim, fogem do rótulo de homofóbicos e
sustentam uma posição heroica no processo judicial.
Em outras palavras, o léxico de segurança transfusional foi central ao debate
jurídico?sanitário, em que a justificativa técnica (dados de prevalência agregada, janela
imunológica) foi mobilizada para sustentar restrições por categoria - “homens que fazem sexo
com homens” - e não por avaliações individualizadas de risco, operando um deslocamento do
estigma sexual para o campo sanitário?institucional (“proteção do receptor”, “interesse
coletivo”). Isso é analiticamente compatível com a descrição de repertórios cis-heteroativistas,
que positivam o discurso de exclusão em nome da ordem e da segurança; ao mesmo tempo,
dialoga com o alerta do homonacionalismo sobre cooptações que tornam alguns sujeitos
assimiláveis e outros descartáveis, segundo critérios de respeitabilidade e ‘risco’ aceitável.
Diante disso, é possível compreender que a adoção de critérios de segurança na
doação e recepção de sangue e hemoderivados faz sentido, em um sistema de saúde com
pretensão de ser universal e equitativo, quando protege todas as pessoas do território em que
atua. Aceitar, porém, um critério estabelecido em outro contexto sanitário e social e não se
colocar disposto a rever seu embasamento, nem o comparar com as melhores práticas
possíveis, parece ser algo que contradiz a própria esfera científica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo analisou os discursos sobre segurança sanitária e direitos humanos no
contexto da ADI 5543, com o objetivo principal de compreender como as argumentações
judiciais refletiram tensões entre normativas de saúde e os princípios constitucionais de
igualdade e não discriminação. A análise demonstrou que os discursos do Estado e dos demais
atores envolvidos apresentam interpretações distintas sobre a relação entre políticas públicas
de saúde e direitos fundamentais.
A evolução histórica da PNSH evidencia o empenho do poder público em assegurar
um sistema seguro e eficiente. No entanto, as restrições impostas a grupos específicos,
fundamentadas em categorias epidemiológicas em vez de práticas individuais de risco,
revelam um dilema crucial: o conflito entre a precaução sanitária e a estigmatização de
populações historicamente marginalizadas. A decisão do STF que declarou a
inconstitucionalidade das normas que restringiam a doação de sangue por HSH representa um
avanço significativo na proteção de direitos fundamentais. Contudo, essa vitória jurídica
também suscita questionamentos sobre os desafios práticos para a efetiva implementação de
mudanças nos protocolos dos serviços de saúde.
Os resultados da análise discursiva indicam que a segurança transfusional permanece
como eixo central do debate, porém sua concepção é influenciada por diferentes
interpretações, conforme os valores e interesses dos atores. De um lado, as instituições
sanitárias defenderam a primazia dos critérios epidemiológicos para minimizar riscos. De
outro, organizações da sociedade civil e grupos favoráveis à inclusão argumentaram pela
adoção de uma abordagem baseada em evidências científicas atualizadas e em princípios de
justiça social.
Outro ponto relevante identificado foi o uso estratégico da ciência para justificar
posicionamentos opostos. Os atores contrários à flexibilização das normas basearam-se em
estudos epidemiológicos que apontam maior prevalência de infecções transmissíveis por
sangue em certos grupos. Em oposição, os favoráveis à mudança enfatizaram os avanços nas
tecnologias de testagem e a necessidade de se avaliar comportamentos de risco individuais, e
não meros pertencimentos identitários.
Diante dessas considerações, torna-se clara a importância de pesquisas futuras que
aprofundem a interface entre normativas sanitárias e direitos humanos. É essencial investigar
os impactos concretos da decisão do STF na operação dos bancos de sangue e na percepção
pública sobre a segurança das doações. Ademais, estudos comparativos sobre a abordagem de
questões similares em outros países podem oferecer contribuições valiosas para o
aprimoramento das políticas brasileiras.
Por fim, esta pesquisa reforça a necessidade de um diálogo interdisciplinar
permanente, envolvendo a saúde pública, o direito e as ciências sociais, para a construção de
políticas que garantam simultaneamente a segurança sanitária e a promoção da igualdade e da
dignidade humana. O caso da ADI 5543 configura um exemplo paradigmático de como
questões científicas e jurídicas estão intrinsecamente interligadas a contextos históricos e
sociopolíticos. Seu estudo é fundamental para compreender os desafios e as possibilidades de
se gerirem políticas públicas verdadeiramente inclusivas no Brasil.
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Outros idiomas:
Much blood has been shed: a discursive analysis of blood donation in Direct Action of Unconstitutionality 5543
Resumo (abstract):
This article analyzes the discourses mobilized in Direct Action of Unconstitutionality No.
5,543, focusing on the intersection between health regulations and fundamental rights. The
research investigates how transfusion safety was used as an argument to restrict blood
donation by men who have sex with men (MSM) and how this restriction fits into dynamics
of stigmatization and social exclusion. The discursive analysis of the legal documents reveals
tensions between science, law, and public policies, highlighting the clash between the
principle of health precaution and the guarantee of equality and non-discrimination. The
ruling by the Supreme Federal Court, which declared the restrictive norms unconstitutional,
represents an advancement in the protection of human rights but raises debates about the
impacts and challenges of its implementation.
Palavras-chave (keywords):
Judicialization of Health. Sexual and Gender Minorities. Blood Donors. Public Policy.
Muito sangue tem sido derramado: análise discursiva sobre doação de sangue na Ação Direta de Inconstitucionalidade 5543
Much blood has been shed: a discursive analysis of blood donation in Direct Action of Unconstitutionality number 5543
Se ha derramado mucha sangre: análisis discursivo sobre la donación de sangre en la Acción Directa de Inconstitucionalidad 5543
Mateus Aparecido de Faria
Fundação Oswaldo Cruz, Instituto René Rachou, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
mateusfaria18@gmail.com
https://orcid.org/0000-0001-6622-9949
Lívia Pereira de Souza
Fundação Oswaldo Cruz, Instituto René Rachou, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
liviapsz@gmail.com
https://orcid.org/0000-0002-4822-288X
Paula Dias Bevilacqua
Fundação Oswaldo Cruz, Instituto René Rachou, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
paula.bevilacqua@fiocruz.br
https://orcid.org/0000-0003-0015-2154
RESUMO
O artigo analisa os discursos mobilizados na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 5543, com foco na interseção entre normativas sanitárias e direitos fundamentais. A pesquisa investiga como a segurança transfusional foi utilizada como argumento para restringir a doação de sangue por homens que fazem sexo com homens (HSH) e como essa restrição se insere em dinâmicas de estigmatização e exclusão social. A análise discursiva dos documentos judiciais revela tensões entre ciência, direito e políticas públicas, evidenciando o embate entre o princípio da precaução sanitária e a garantia da igualdade e não discriminação. A decisão do Supremo Tribunal Federal, ao declarar inconstitucionais as normas restritivas, representa um avanço na proteção dos direitos humanos, mas suscita debates sobre os impactos e desafios para sua implementação.
PALAVRAS-CHAVE
Judicialização da Saúde. Minorias Sexuais e de Gênero. Doadores de Sangue. Política Pública.
ABSTRACT
This article analyzes the discourses mobilized by the Direct Action of Unconstitutionality Number 5,543, focusing on the intersection between health regulations and fundamental rights. The research investigates how transfusion safety was used as an argument to restrict blood donation by men who have sex with men (MSM) and how this restriction fits into the dynamics of stigmatization and social exclusion. The discursive analysis of the legal documents reveals tensions between science, law, and public policies, highlighting the clash between the cautionary principle applied to health and the guarantee of equality and non-discrimination. The ruling by the Supreme Federal Court, which declared the restrictive norms unconstitutional, represents an advancement in the protection of human rights but raises debates about the impacts and challenges of its implementation.
KEYWORDS
Judicialization of Health. Sexual and Gender Minorities. Blood Donors. Public Policy.
RESUMEN
Este artículo analiza los discursos movilizados en la Acción Directa de Inconstitucionalidad Nº 5543, centrándose en la intersección entre las normativas sanitarias y los derechos fundamentales. La investigación examina cómo la seguridad transfusional se utilizó como argumento para restringir la donación de sangre por parte de hombres que tienen sexo con hombres (HSH) y cómo esta restricción se inserta en dinámicas de estigmatización y exclusión social. El análisis discursivo de los documentos judiciales revela tensiones entre la ciencia, el derecho y las políticas públicas, poniendo de manifiesto el enfrentamiento entre el principio de precaución sanitaria y la garantía de igualdad y no discriminación. La decisión del Supremo Tribunal Federal, al declarar inconstitucionales las normas restrictivas, representa un avance en la protección de los derechos humanos, pero suscita debates sobre los impactos y los desafíos para su implementación.
PALABRAS CLAVE
Judicialización de la Salud. Minorías Sexuales y de Género. Donantes de Sangre. Política Pública.
INTRODUCTION
Brazil’s National Policy on Blood and Blood Products (Política Nacional de Sangue e Hemoderivados- PNSH in the Portuguese acronym) represents a milestone in the organization and management of health services, reflecting the pursuit of equity, universality, and compre-hensiveness advocated by the Unified Health System (SUS). Its current model for transfusion safety is based on clinical screening, laboratory testing, and hemovigilance. The use of systems that incorporate serological tests and nucleic acid amplification technology (NAT) lowers the residual risk of classic transfusion-transmitted infections (HIV, HCV, HBV) to levels below 1 per 1,000,000 units, reflecting the compression of the immunological window and continuous monitoring of events1,2.
However, its historical context dates back to a period when paid donation was prevalent, with low transfusion quality and safety. Until the mid-1980s, blood was often treated as a com-modity, resulting in practices that neglected safety criteria. This situation was exacerbated by the absence of uniform regulations and a lack of incentives for voluntary donations, leading to the spread of infections such as hepatitis and HIV1.
The emergence of the HIV/AIDS epidemic in the 1980s was a turning point for the im-plementation of stricter measures in the blood transfusion system, pressuring the government to adopt public policies focused on public health safety. This movement culminated in 1988 with the enactment of the Federal Constitution, which established health as a right of all and a duty of the State, and the creation of the SUS, which incorporated blood therapy services as an integral part of health care1.
Among the challenges faced by the PNSH, the long-standing ban on blood donations by men who have sex with men (MSM) stands out. This restriction, initially based on public health safety criteria, emerged in a context marked by the HIV/AIDS epidemic, a period during which the MSM population was disproportionately associated with the spread of the virus. For years, this ban has been the target of criticism from civil society organizations, movements of lesbi-ans, gay men, bisexuals, trans women, queer, intersex, asexual, among other identities (LGBTQIA+), and public health experts, who pointed out its discriminatory nature and its dis-connect from scientific and technological advances in blood screening and testing2,3.
The exclusion criterion established a 12-month temporary ineligibility for MSM, regard-less of safe sex practices, while heterosexuals engaging in similar risky behaviors did not face the same restriction4,5. In 2020, the Federal Supreme Court (Supremo Tribunal Federal - STF in the Portuguese acronym) ruled on the Direct Action of Unconstitutionality 5543 (ADI 5543 in the Portuguese acronym) and declared the rule unconstitutional, recognizing a violation of the principles of equality and human dignity.
Given the importance of addressing the protection of the health and lives of vulnerable groups, such as the LGBTQIA+ community—which is frequently affected by socially en-trenched discrimination and by exclusionary historical and economic contexts—this article aims to examine the health-related discourses that permeate ADI 5543. This analysis seeks to under-stand the social and discursive practices that influence this issue, particularly regarding the im-plications of public policies and judicial decisions for guaranteeing fundamental rights and pro-moting equity. This research is novel in that it conducts an interdisciplinary discursive analysis of ADI 5543, and the topic is timely, since, although the case was decided in 2020, the full text of the ruling was not published until August 2024, making this article one of the first to critically analyze the justices’ arguments and opinions in their entirety. Furthermore, the study explores how the COVID-19 pandemic was invoked as an argument to expedite the ruling, highlighting the scarcity of blood supplies and the urgency of repealing exclusionary regulations.
CONCEPTUAL FOUNDATIONS
In this article, other perspectives are drawn upon to understand discourses that oppose the guarantee of fundamental rights for marginalized individuals, going beyond homophobia and addressing heteroactivism. This term describes movements that articulate resistance to sexu-al and gender equality. These movements are not limited to expressions of prejudice or aversion but include purposely-crafted political and cultural strategies that seek to reaffirm the superiority of heteronormativity as the ideal social model. Thus, heteroactivism is characterized by its stra-tegic rationality, distinguishing it from approaches that use the suffix “-phobia,” which can im-ply irrationality6.
In Brazil, manifestations of heteroactivism take on specific forms due to the country’s historical and cultural particularities. For example, rhetoric against “gender ideology” has be-come a central theme for conservative groups, especially since the 2010s. These discursive prac-tices are grounded in alleged moral, religious, and family values, which are presented as being threatened by the plurality of genders and sexualities8–10.
Another key element for understanding heteroactivism is intersectionality, as its manifes-tations are often intertwined with other forms of oppression, such as racism, classism, and xeno-phobia. According to Puar11, homonationalism is one such dynamic, in which LGBTQIA+ rights are co-opted by nationalist regimes to justify policies of exclusion and discrimination. In the Brazilian context, this trend manifests itself through the use of religious discourse and na-tional sovereignty as justifications for limiting the rights of people who fall outside the cis-heteronormative framework8,9. However, a counter-discourse is emerging to construct sexual citizenship in Brazil, advancing primarily through legal actions, since the legislature has been hesitant to adopt measures favorable to the LGBTQIA+ population13-15.
Especially regarding blood donation—a complex act that involves different spheres of social life— heteroactivism can help us understand organized practices and ideologies that reaf-firm heteronormativity as the preferred moral and social standard, mobilizing language such as “protection of the family,” “religious freedom,” or “parental rights,” and seeking to avoid the “-phobia” label through institutional and legal tactics. Alongside heteroactivism, homonationalism is equally useful for better visualizing the discursive disputes surrounding and mediated by blood donation, as it involves the co-optation of sexual rights by national projects that legitimize racial, religious, and geopolitical hierarchies. As an analytical tool, the concept helps us observe when and how sexual rights are invoked to reinforce security and order agendas, including by co-opting diverse issues, such as health. In summary, this is a proactive (rather than merely reac-tive or aversive) political repertoire that upholds the superiority of the cis-heteronormative order under the guise of the public interest8,16.
We propose these concepts for three reasons: (i) they allow us to move beyond interpre-tations centered on individualized prejudices, highlighting institutional strategies for regulating sexuality in public policy; (ii) they help explain the persistence of category-based criteria when scientific evidence and international best practices converge toward individualized risk assess-ments, which take greater account of risky situations and practices than of the “risk group”; and (iii) they contribute to integrating the Brazilian decolonial critique of “gender ideology” and legislative resistance to LGBTQIA+ rights with the public health framework of “population risk,” which is relevant to the debate surrounding ADI 5543.
METHODOLOGY
This is a qualitative study grounded in Critical Discourse Analysis (CDA), which focus-es on the analysis of social issues with an emphasis on power relations and social injustices. In CDA, language is interpreted as constitutive of and interdependent with society, allowing us to identify how power is exercised and challenged. In this context, language is understood as a structured network of meanings, in which interrelated systems regulate the meanings attributed to discourses. These systems, while constraining social actions, also enable them, since it is through language that individuals interact and construct their social experiences17.
The research corpus consisted of documents related to ADI 5543, obtained through the STF website. The collected data—document code, status, type of procedural document, date, author, subject, summary, parties involved, and general observations—were organized into Mi-crosoft Excel spreadsheets. Initially, these documents were assigned a code consisting of the case number and the order in which it appears in the proceedings, i.e., 5543_XX. Subsequently, they were classified into two categories: primary documents, which include petitions, state-ments, and orders; and supporting documents, comprising laws, resolutions, and scientific arti-cles used to support the primary documents. Within the primary documents, a further subdivi-sion was made between argumentative documents, which express the positions of the parties to the case; and procedural documents, which ensure the progress of the proceedings. The in-depth analysis prioritized the argumentative documents due to their relevance to the study’s objective.
The textual analysis was conducted using the AntConc software (version 4.3.1), which allows for the exploration of discursive patterns in texts by analyzing word frequency and asso-ciations. In addition, Latin American Critical Discourse Analysis (CDA-LA), which incorpo-rates a decolonial dimension into the interpretation of discourses, was used as an analytical framework for the corpus. This approach was essential for understanding the social inequalities and power relations underlying judicial processes, highlighting structural and discursive barriers that hinder marginalized populations’ access to health rights. Furthermore, it pointed to possible paths for social transformation18,19. Additionally, generative artificial intelligence tools assisted with the linguistic review and adaptation of the final version of the text to editorial standards.
RESULTS
Direct Action of Unconstitutionality - ADI No. 5543, filed by the Brazilian Socialist Party (PSB in the Portuguese acronym) in June 2016, sought to suspend regulatory provisions restricting blood donation by men who have sex with men (MSM), contained in an ordinance issued by the Ministry of Health (MS) and in a resolution by the National Health Surveillance Agency (Anvisa):
Art. 64. A candidate who has been exposed to any of the situations listed below shall be considered temporarily ineligible for 12 (twelve) months:
(...)
IV – men who have had sexual relations with other men and/or the sexual partners of such men” (Ministry of Health, 2016)
Art. 25. Blood services must comply with the donor selection criteria established by the Ministry of Health in current legislation, aimed at protecting both the donor and the recipient, as well as ensuring prod-uct quality, based on the following requirements:
(…)
XXX – sexual contacts involving risks of contracting blood-borne infections must be assessed, and candidates in these circumstances must be considered temporarily ineligible for a period of 12 (twelve) months following the high-risk sexual activity, including:
(…)
d) males who have had sexual relations with other males and/or their female sexual partners.4
After the ADI was filed, several institutions requested to join the case as amicus curi-ae and submitted their briefs regarding the case under review, both in opposition and in support. In 2017, Reporting Justice Edson Fachin placed the case on the docket, and the trial began in October, spanning three sessions. At the last session, held on October 26 of that same year, Jus-tice Gilmar Mendes requested an early review of the case, thereby suspending the proceedings. It was not until April 2020, due to the COVID-19 pandemic, that the PSB and the Federal Pub-lic Defender’s Office (DPU) filed a motion requesting that the ADI be placed on the docket as a matter of urgency. This request was accepted by the Reporting Justice, and in May 2020, the Full Court of the STF ruled that the regulations issued by the Ministry of Health (MS) and An-visa—which established specific criteria for blood donation by MSM—were unconstitutional. Due to the urgency required by the public health context, in September of that same year, a cer-tificate of final judgment was issued, officially concluding the ADI. Despite this, the full text of the ruling was not published until August 2024.
In this case, the term “health” appeared 681 times, with the document that used the term most frequently being the full text of the ruling (n=309). This frequency can be explained by the institutions whose regulations were being challenged—referred to in the case as the “respond-ents”: the Ministry of Health and the National Health Surveillance Agency. Thus, a large por-tion of the uses of the term “health” is linked to government agencies, departments, or regula-tions, such as “Ministry of Health Ordinance No.,” “Minister of Health,” and “donors estab-lished by the Ministry of Health”. The word cloud generated from the ADI visually demon-strates how health discourse is predominantly legal and institutional, centered on regulatory dis-cussions (Figure 1).
Upon examining the discourses employed by the parties in ADI 5543, it is evident that other perspectives on health are invoked as argumentative strategies. The initial petition filed by the PSB presented one such perspective when criticizing the ban on blood donation: “This sit-uation lays bare the absurd and discriminatory treatment by the government based on sexual orientation, which offends the dignity of those involved and deprives them of the opportunity to exercise human solidarity through blood donation.” (5543_1)
It is evident that, for the PSB, donating blood embodies the meaning of an instrument of solidarity, as a manifestation of human benevolence, and the government is the entity that mate-rially deprives its realization. This aligns with a scientific perspective that views blood donation as an act that produces and reproduces bonds of citizenship and institutional trust—not merely as a clinical transaction. Richard Titmuss demonstrated, through historical comparison, that re-gimes based on voluntary and altruistic donation perform better in terms of distribution and safe-ty than commercialized arrangements, thereby influencing global policy on voluntary dona-tion20. Subsequent sociological studies show that the organization of blood collection shapes donor profiles and donation rates, reinforcing the idea of altruism embedded in institutions21,22. In line with this, the WHO and PAHO advocate for voluntary, unpaid donation as a normative and operational pillar of safety and sufficiency23.
Continuing its argument, the PSB attributes to the same individual—though referred to by different terms—the stigmatization of the excluded group:
Under the pretext of prioritizing safety in blood screening, the Brazil-ian government admits that a certain group of people, for a mere on-tological reason—and not because of any behavior they have exhibit-ed—is barred from blood centers and labeled as “impure” or “HIV-positive,” in contrast to people who are supposedly “nor-mal” and possess hypothetically “healthy” blood (5543_1).
These italicized terms are figurative and refer to the discrimination prevalent at the height of the HIV/AIDS epidemic. Furthermore, they highlight the inadequacy of the characteristics associated with binary groups—those who can donate and those who cannot (Rafael; Simião, 2019; Santos, 2002). The plaintiff thus seeks therefore, to highlight the anachronistic nature of the contested norms, using the same terms from that era and denouncing just how prejudiced they are in the present day. This is well received by the Reporting Justice, Edson Facchin, who uses an interesting metaphor to refer to the case: “Much blood has been shed in our country in the name of prejudice” (5543_37).
To shed blood is an idiomatic expression that can mean, literally, the loss of physical blood due to violence or accidents, or, figuratively, the sacrifices, struggles, and hardships faced throughout a historical, social, or personal process. In the context of ADI 5543, the expression seems to take on an ambiguous meaning; after all, not only have people been subjected to vio-lence, resulting in the shedding of physical blood, but the struggle for the recognition of rights—which, in the case at hand, results in the potential waste of blood components—has also oc-curred. According to Facchin, both situations exist because of prejudices linked to sexual orien-tations and gender identities.
During the proceedings, Anvisa, the Ministry of Health, and the Attorney General’s Office (AGU) presented their defenses (documents 5543_71, 5543_131, and 5543_132, respec-tively), all grounded in the principles of health science:
It would be overly hasty and unsupported by reliable scientific knowledge, given the current state of the art, to change the criteria for medical unfitness adopted in Brazil—which is based on epi-demiological data from the group or population—to an individual risk assessment independent of population-based epidemiological da-ta (5543_71).
Thus, it is clear that lesbian, bisexual, transvestite, transgender wom-en, etc., do not fall under the category of temporary unfitness in question. Unfitness applies solely to men who have sex with men (MSM), and even then, only for a period of 12 months. In this con-text, the provisions in question stipulate the temporary ineligibility of men who have sex with men (MSM), not because of these can-didates’ sexual orientation per se, but because of the risks associat-ed with the quality of the donated blood, as duly demonstrated in the Technical Note attached to the case file (5543_131).
However, the information presented by ANVISA shows that the reasons underlying the restriction are based on empirical stud-ies linking sexual relations between men to a higher risk of HIV in-fection (5543_132).
Anvisa was the first to present a counterargument, citing several studies to suggest a possible change in criteria (a relational clause in the subjunctive, would be) using an intensity modifier (excessive) combined with the adjective hasty, as well as a negation modifier (not) as-sociated with the adjective supported. Reliable scientific knowledge appears immediately after-ward as the basis for defining such criteria, as it was developed based on population-based epi-demiological data. The issue of epidemiological data on the group/collective is also addressed by the Ministry of Health (MS), attributing to them the conclusion of a higher risk related to the blood of that group rather than to sexual orientation. This position is reiterated by the Attorney General’s Office (AGU), which summarizes the main thrust of the defense in ADI 5543: empirical studies that link sexual relations between men to a higher risk of HIV infection.
It is evident that health is invoked here as a science which, as embodied in epidemiolo-gy, provides evidence to support these practices. According to the stakeholders interviewed, research conducted from this perspective is not related to any discriminatory or prejudiced in-tent; rather, it serves the collective interest and reflects the risky behavior that exists in sexual relations between men. A quote from the Ministry of Health, cited by Anvisa in its statement, highlights this distinction drawn between the criteria for donation and discrimination against LGBTQIA+ individuals:
According to the Ministry of Health, sexual orientation is not used as a criterion for selecting blood donors because it does not consti-tute a risk in and of itself; rather, the criteria are grounded in epidemiological and technical-scientific evidence aimed at the col-lective interest in ensuring the highest possible quality and safety of blood transfusions for the recipient. This rationale demonstrates that these guidelines are not discriminatory or prejudiced in na-ture (5543_77).
In these discourses, two binarisms are at play: collective versus individual, and science versus sexual orientation. “Collective” refers to the level of aggregation of data produced by epidemiology, whose conclusion is a heightened risk of infection for a specific group (referred to as MSM) when compared to other groups (men who have sex with women, women who have sex with other women, women who have sex with men, etc.). The individual level refers to risky behavior that is not captured by epidemiology, due to the lack of means for individually assessing safe sexual practices. Thus, according to the Ministry of Health’s position, the collec-tive level should be prioritized over the individual level.
Similarly, these same actors present science as an impartial, objective, factual, reliable, and empirical discourse—and therefore free from prejudice or discrimination. The term “MSM” itself is included here, since “the temporary ineligibility of men who have sex with men to donate blood is part of an extensive list of situations—the overwhelming majority of which have no connection whatsoever to the candidates’ sexual orientation—aimed at protecting the recipient” (5543_131) . Thus, sexual orientation is framed as the opposite of this—orientation pertains to the realm of will, intimacy, private life, autonomy, freedom, and subjec-tivity. By invoking such binarisms, the respondents shift the focus of their argument to that which is tangible and concrete—called science—and to something all-encompassing and totali-tarian—called the collective.
This discursive strategy is also employed by the amici curiae supporting the petitioner, such as the Brazilian Institute of Civil Law (IBDCivil), which reverses the emphasis within the binary framework. The excerpts highlight an emphasis on the individual and on sexual orienta-tion, in contrast to the notion of the collective, traditional biomedical science, and the centrality of epidemiology:
In other words, no matter how much the argument regarding a higher rate of transmission is supposedly backed by scientific evidence, the mere transposition of mathematical and epidemiological data onto the subjective plane of the donor—considered individual-ly—generates assumptions that do not always correspond to re-ality. In statistics, there is a difference between correlation (a mere link between two events) and causation (the quality of what is caus-al, which underlies or produces an effect). The fact that there is a higher rate of AIDS among men who have sex with men (MSM) does not mean that the mere fact of being homosexual or bisexual, in and of itself, accounts for this higher rate (5543_140).
When discussing the exercise of fundamental rights of the utmost importance, the issue cannot be decided solely on the basis of general statistics, in which individuals become mere numbers within a group or are reduced to averages. It is necessary that the holders of these rights be considered in their individuali-ty, lest statistics be used to justify the most pernicious forms of dis-crimination (5543_140).
IBDCivil focuses on the weaknesses of the scientific community and challenges the in-ductive nature of the conclusions presented by Anvisa and the Ministry of Health, referring to them as transposition, qualified by the simple adjective, and presumptions, qualified by the ad-verbial phrase not always. This undermines the legitimacy of the binary framework highlighted in the other briefs and condemns the treatment of human beings, since they must be considered as individuals, after all, they are the rights holders (5543_140).
Meanwhile, the only amicus curiae opposing the defendant was the Brazilian Associa-tion of Hematology, Hemotherapy, and Cell Therapy (ABHH), which reinforced the arguments of the respondents:
It should be emphasized that the purpose of the regulation in ques-tion is not to discriminate against same-sex relationships, but ra-ther to establish CRITERIA aimed at PROTECTING both the health of the DONOR and that of the RECIPIENT of any BLOOD COMPONENT. (...) However, we believe that the most important aspect to consider regarding the temporary ineligibility of MSM donors is not their supposed right to donate blood (or to im-pose their blood donation—which, in the final analysis, means im-posing the transplantation of their tissue—blood—into another in-dividual), but rather the recipient’s right to receive blood that is as safe as possible. (5543_221)
Noteworthy is the use of the concessive conjunction but to indicate what matters—establishing criteria and the recipient’s right, while relegating to the background discrimination against same-sex relationships and the alleged right to donate blood. Once again, the binary logic constructed by the branches of government is invoked here, modified to refer to the collec-tive body of recipients. Furthermore, the use of uppercase letters denotes greater emphasis on what matters to the ABHH: criteria, protect, donor, recipient, blood component. This discur-sive structure not only prioritizes health science as the foundation for establishing criteria but also elevates the blood recipient to the status of a potential victim of the donor.
Despite the most heated debates up until 2018, the process came to a standstill until 2020, with the onset of the COVID-19 pandemic. The amici curiae—the Lawyers’ Group for Sexual and Gender Diversity (GADvS), PDPU, and the Joint Parliamentary Front, in addition to the petitioner PSB—submitted documents requesting an expedited ruling due to the need to bolster blood banks:
Thus, the continued enforcement of the rule prohibiting men who have (safe and monogamous) sex with other men from donating blood for 12 (twelve) months only harms the public interest by limit-ing the pool of potential blood donors while the country suffers, on a daily basis, from a shortage of blood in safe volumes necessary for the optimal provision of health care services. A shortage that is even more acute during this COVID-19 pandemic (5543_286).
The arguments in favor of declaring the rule unconstitutional were reinforced, and healthcare has taken on the characteristics of emergency service provision. The first intervention based on the pandemic took place on March 9, 2020, and the ruling was issued in May of the same year, demonstrating the importance attached to the public health context. One of the jus-tices who voted in favor of the petitioner’s request, Gilmar Mendes, highlighted this importance in his statement:
Finally, it should be noted that this discussion is particularly rele-vant in the context of the exceptional circumstances arising from the COVID-19 health crisis. This is because the annulment of un-constitutional restrictions has the potential to save lives, especially at a time when blood donations have fallen and hospitals face critical shortages, as people stay home and blood drives are canceled due to the coronavirus pandemic (5543_294).
In their opinions, delivered and recorded in this document, each justice articulates health as a central element in a complex interplay of tensions between fundamental rights, public health, and individual liberty. Among them, the opinion of the Reporting Justice is the one that most thoroughly explored the issue of health - Edson Fachin bases his argument on a humanistic understanding of health that transcends the biomedical concept to incorporate ethical and onto-logical dimensions. By emphasizing that sexual orientation does not infect anyone, whereas risky behaviors do, Fachin shifts the focus from public health to specific practices and rejects the automatic association between homosexuality and health risks. His argument is grounded in the intersection of dignity, sexual freedom, and solidarity, indicating that public policies based on stigma violate constitutional rights, as seen in the following excerpts from his opinion:
In other words, there will only be free equality for these people (men who have sex with other men and/or their female sexual part-ners) if public blood donation policies set aside restrictions based on the sexual orientation and gender of prospective donors and instead establish general limitations and conditions pertaining to the conduct, practices, and behaviors of those who wish to donate (5543_294).
Another justice who addressed health issues was Luís Roberto Barroso, who acknowl-edged the existence of discrimination in the practice under review but introduced a utilitarian perspective by highlighting the legitimate public interest in protecting public health. For him, health is a dual value that must balance individual and collective rights. Although he acknowl-edges the legitimate intent behind the challenged regulations, Barroso does not ignore the dis-criminatory effect of these policies, using the metaphor of a scale to express this duality:
In fact, the two pans of this scale. On one side, I believe there is no doubt that the ordinance issued by the Ministry of Health and the resolution issued by Anvisa clearly create a situation of inequali-ty with regard to gay men. (...). On the other pan of the scale, I be-lieve there is also the legitimate public interest in protecting pub-lic health in general, and in protecting the health of recipients of do-nated blood—and, therefore, of blood transfusions—on the other side (5543_294).
One of the justices who ruled against the petitioner, Marco Aurélio Mello, takes a con-servative stance by justifying the restrictions based on the high incidence of infection ob-served among MSM. For him, public health is a higher principle that justifies preventive measures, even if they are severe. This view instrumentalizes epidemiological data as a justifica-tion for exclusionary policies, ignoring Fachin’s criticisms regarding stigmatization. His remarks echo a positivist perspective that prioritizes safety over inclusion:
Although the risk associated with collecting blood from gay men does not stem from sexual orientation, the high incidence of infec-tion observed, when compared to the general population, justifies the caution used by health authorities, with the aim of maximizing the protection of public health. Although the measure may be con-sidered severe—in that candidates falling under the circumstances outlined in the challenged regulations are deemed ineligible for twelve months—it is a measure consistent with the greater legal in-terest it seeks to safeguard—public health (5543_294).
DISCUSSION
The history of public health policies for people who diverge from the cis-heteronormative norm is quite recent, especially when compared to policies aimed at women or people with chronic noncommunicable diseases. In Brazil, it was not until the 1980s that posi-tive government initiatives targeting the LGBTQIA+ community began to emerge.
This period coincided with the global emergence of the HIV/AIDS epidemic, which profoundly affected the non-cis-heterosexual community. The visibility of those affected by AIDS and pressure from the Brazilian Homosexual Movement forced the government to act, albeit slowly and half-heartedly, since the disease was viewed as something that primarily af-fected “abject bodies”24. The government’s response was driven by the rising incidence of HIV in other groups, such as cis-heterosexual men and women, which led to the development of care protocols and the improvement of technologies that made Brazil a global leader in AIDS treat-ment. However, health policies at the time were centered on the disease rather than the individ-ual, reinforcing stigmas and risky behaviors25.
Although the 1990s brought technological advances in the treatment of AIDS, along with the creation of the SUS and greater social openness to discuss issues related to sexuality, it was only in the 2000s that the demands of the LGBTQIA+ community were more fully incor-porated into the government’s agenda. Initiatives such as the National Human Rights Program (PNDH-2) in 2002, the Brazil Without Homophobia Program (Brasil sem Homofobia - BSH) in 2004, and the National Policy on Comprehensive Health Care for Lesbians, Gays, Bisexuals, Transvestites, and Transsexuals, implemented in 2011, are some examples of efforts to promote citizenship and health for this community26.
However, some anachronisms have persisted in public health policies over the years, such as the ban on blood donation by MSM, a criterion challenged in ADI 5543. The acronym MSM arose from an effort to “include a range of masculinities in public policies, without neces-sarily connoting an identity category or implying motivations for sexual activity”23 (p. 59), en-compassing homosexual individuals, heterosexuals who occasionally have sex with men for money or out of desire, among others. The acronym also carries a specific target, indicating a risk group whose behavior is deemed “dangerous, based on irresponsibility and delinquency stemming from divergent sexuality”23 (p. 60).
It was precisely through this bias that the institutional argument maintained that the high-er prevalence/incidence of HIV among MSM would justify temporary ineligibility as long as safe individual screening was not feasible. However, the same epidemiology that identifies a higher relative risk in subpopulations also demonstrates that standardized clinical screening, serological and molecular biology tests, and hemovigilance have shortened the immunological window to just a few days, reducing residual risk to very low levels—a development that paved the way for more refined behavioral policies20,21,23.
However, the categorization of life, promoted by the risk epidemiology movement, has obscured the identification of subjectivities and fostered the stigmatization of individuals classi-fied as MSM27. Thus, the public enemy to be fought in this war against AIDS became those men whose practices deviate from the hegemonic cis-heteronormative matrix, reproducing, in the 21st century, an anachronism dating back to the end of the previous century. In the name of public health, the State, through its institutions discursively legitimized by science, perpetuates prejudices based on outdated concepts—the twist is that these are no longer direct acts of dis-crimination against non-cis-heteronormative people, but rather actions taken in the name of en-suring the safety of blood products for the entire population, as advocated by the Ministry of Health (MS) and the Brazilian Association of Blood Health (ABHH).
This strategy is very similar to those described by various researchers from different countries and termed “heteroactivism”8,28–30. The criterion challenged in ADI 5543 can be un-derstood as a discursive practice contrary to the dignity of LGBTQIA+ lives, situated within the semantic field of health, where the discriminatory lexicon includes supposedly impartial terms and expressions used to perpetuate the exclusion of these bodies and their “unholy” tissues: “ep-idemiological and technical-scientific evidence” (5543_77), “increased risk of infection” (5543_132), and “risks associated with the quality of donated blood” (5543_131) appear as discursive tools of persuasion and distraction. Instead of continuing to attack the existence and lived experiences of people outside the cis-heteronormative framework, heteroactivists—or cis-heteroactivists—frame their discourse in the name of something “greater” and “better for socie-ty.” In this way, they avoid being labeled as homophobic and maintain a heroic stance in the legal proceedings.
In other words, the lexicon of transfusion safety was central to the legal-public health debate, in which technical justifications (aggregate prevalence data, the immune window) were mobilized to support restrictions based on category—“men who have sex with men”—rather than on individualized risk assessments, thereby shifting sexual stigma into the public health-institutional sphere (“ “recipient protection,” “collective interest”). This is analytically consistent with the description of cis-heteronormative repertoires, which legitimize exclusionary discourse in the name of order and safety; at the same time, it resonates with homonationalism’s warning about co-optations that render some subjects assimilable and others disposable, according to criteria of respectability and acceptable “risk.”
Given this, it is understandable that the adoption of safety criteria in the donation and re-ceipt of blood and blood products makes sense in a health system that aspires to be universal and equitable, when it protects all people within the territory it serves. However, accepting a criterion established in a different health and social context without being willing to review its basis or compare it with best practices appears to contradict the very nature of science.
FINAL CONSIDERATIONS
This study analyzed discourses on public health security and human rights in the context of ADI 5543, with the primary objective of understanding how judicial arguments reflected tensions between health regulations and the constitutional principles of equality and non-discrimination. The analysis demonstrated that the discourses of the State and other involved actors present distinct interpretations of the relationship between public health policies and fun-damental rights.
The historical evolution of the PNSH highlights the government’s commitment to ensur-ing a safe and efficient system. However, the restrictions imposed on specific groups—based on epidemiological categories rather than individual risk behaviors—reveal a crucial dilemma: the conflict between public health precautions and the stigmatization of historically marginalized populations. The Supreme Federal Court’s decision declaring unconstitutional the regulations that restricted blood donation by MSM represents a significant step forward in the protection of fundamental rights. However, this legal victory also raises questions about the practical chal-lenges involved in effectively implementing changes to health service protocols.
The results of the discourse analysis indicate that transfusion safety remains the central focus of the debate, but its conception is influenced by different interpretations, depending on the values and interests of the stakeholders. On the one hand, health institutions defended the primacy of epidemiological criteria to minimize risks. On the other hand, civil society organiza-tions and groups in favor of inclusion argued for the adoption of an approach based on up-to-date scientific evidence and principles of social justice.
Another relevant point identified was the strategic use of science to justify opposing po-sitions. Stakeholders opposed to relaxing the regulations relied on epidemiological studies indi-cating a higher prevalence of blood-borne infections in certain groups. In contrast, those in favor of the change emphasized advances in testing technologies and the need to assess individual risk behaviors, rather than mere identity-based affiliations.
In light of these considerations, the importance of future research that delves deeper into the intersection between public health regulations and human rights becomes clear. It is essential to investigate the concrete impacts of the STF’s decision on the operation of blood banks and on public perceptions regarding the safety of donations. Furthermore, comparative studies on how similar issues are addressed in other countries can offer valuable contributions toward improving Brazilian policies.
Concluding, this research reinforces the need for an ongoing interdisciplinary dia-logue—involving public health, law, and the social sciences—to develop policies that simulta-neously ensure public health safety and promote equality and human dignity. The case of ADI 5543 serves as a paradigmatic example of how scientific and legal issues are intrinsically linked to historical and sociopolitical contexts. Its study is essential for understanding the challenges and possibilities of managing truly inclusive public policies in Brazil.
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Como
Citar
Faria, MA, Souza, LP, Bevilacqua, PD. Muito sangue tem sido derramado: análise discursiva sobre doação de sangue na Ação Direta de Inconstitucionalidade 5543. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/ago). [Citado em 24/09/2026].
Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/muito-sangue-tem-sido-derramado-analise-discursiva-sobre-doacao-de-sangue-na-acao-direta-de-inconstitucionalidade-5543/20107