0229/2026 - Análise espacial da sífilis gestacional e congênita no Distrito Federal de 2018 a 2023
Spatial analysis of gestational and congenital syphilis in the Federal District from 2018 to 2023
Autor:
• Dayane Silveira de Santana - Santana, DS - <dayaneuftm@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0009-0005-6382-3906
Coautor(es):
• Daniela Mendes dos Santos Magalhães - Magalhães, DMS - <danymmagalhaes81@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0236-9496
• João Marcos Bernardes - Bernardes, JM - <joao.m.bernardes@unesp.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4494-9421
• Cassiano Victoria - Victoria, C - <cassiano.victoria@unesp.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1957-0324
• Thiago Araújo dos Santos - Santos, TA - <santos@unesp.br>
ORCID: https://orcid.org/0009-0006-1678-5262
• Mauro Niskier Sanchez - Sanchez, MN - <mauro.sanchez4@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0472-1804
• Gerson Oliveira Penna - Penna, GO - <gerson.penna@fiocruz.br>
ORCID: http://orcid.org/0000-0001-8967-536X
Resumo:
No Distrito Federal, as elevadas taxas de sífilis congênita são um desafio. A capital do país ocupa a 19ª posição entre as unidades federativas com maiores incidências em crianças menores de um ano, apresentando uma taxa de 7,7 casos por mil nascidos vivos. Esta pesquisa analisa a distribuição espacial da sífilis gestacional e congênita entre os anos 2018 e 2023, no Distrito Federal, relacionando a distribuição espacial da doença à cobertura da Estratégia Saúde da Família e ao índice de vulnerabilidade social. Trata-se de estudo ecológico e exploratório, utilizando mapas temáticos de incidência e cobertura, o qual permitiu visualizar a evolução das variáveis. A análise espaço-temporal seguiu o modelo de probabilidade discreto de Poisson, identificando clusters de altas taxas. As regiões administrativas com maior cobertura da Estratégia Saúde da Família apresentaram maiores incidências de sífilis gestacional e congênita. Os clusters espaço-temporais estiveram associados a áreas de maior vulnerabilidade social. O estudo identificou fragilidades na assistência ao pré-natal e evidenciou a complexidade da doença, que exige intervenções intersetoriais.Palavras-chave:
Sífilis Congênita; Transmissão Vertical de Doenças Infecciosas; Análise espacial.Abstract:
In the Federal District, high rates of congenital syphilis pose a challenge. The country's capital ranks 19th among the states with the highest incidence in children under one year of age, presenting a rate of 7.7 cases per thousand live births. This study analyzes the spatial distribution of gestational and congenital syphilis between 2018 and 2023 in the Federal District, relating the spatial distribution of the disease to the coverage of the Family Health Strategy and the social vulnerability index. This is an ecological and exploratory study, using thematic maps of incidence and coverage, which allowed visualization of the evolution of variables. The spatiotemporal analysis followed the discrete Poisson probability model, identifying clusters of high rates. Administrative regions with greater Family Health Strategy coverage had higher incidences of gestational and congenital syphilis. The spatiotemporal clusters were associated with areas of greater social vulnerability. The study identified weaknesses in prenatal care and highlighted the complexity of the disease, which requires intersectoral interventions.Keywords:
Syphilis, Congenital; Infectious Disease Vertical Transmission; Spatial Analysis.Conteúdo:
A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível, causada pelo Treponema pallidum, caracterizada por evolução lenta e curso crônico. Apesar da existência de métodos diagnósticos simples e de tratamento eficaz, a doença permanece como desafio para os serviços de saúde, sobretudo pela persistência de casos e pela necessidade de estratégias contínuas de controle 1.
A ocorrência da sífilis congênita (SC) está associada mais diretamente a populações socialmente vulneráveis e ao acesso restrito à assistência em saúde, ao saneamento básico e à alimentação2. O continente africano concentra cerca de 61% dos casos mundiais 3. Diante de tais circunstâncias, nas últimas décadas, houve crescimento do interesse em pesquisas capazes de avaliar não só fatores individuais, mas também determinantes sociais que exerçam influência na ocorrência da SC e na saúde das populações 2.
A SC pode ser prevenida quando a sífilis gestacional (SG) é adequadamente tratada. O feto pode adquirir a infecção em qualquer fase da gestação, sendo o risco de transmissão vertical mais elevado nas fases primária e secundária. Tal possibilidade também varia conforme o tempo de exposição ao Treponema pallidum. A principal via de transmissão é a transplacentária, especialmente quando a gestante não recebe tratamento adequado 4.
No segundo e no terceiro trimestres da gestação, a transmissão vertical da sífilis pode ter como consequências: natimorto, óbito neonatal, prematuridade ou bebê com baixo peso ao nascer 5. Mundialmente, a SC representa a segunda principal causa infecciosa de óbito fetal, ficando atrás apenas da malária 6.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu critérios e processos de análise para que os países pudessem ser certificados quanto à eliminação da transmissão vertical do HIV e da sífilis. Em 2014, foi publicado o primeiro guia global para certificação dos países que atingissem a meta estabelecida, o “Guia global sobre critérios e processos de validação: eliminação da transmissão vertical do HIV e monitoramento da sífilis”. Cuba tornou-se, em 2015, o primeiro país certificado 7. Em janeiro de 2023, a certificação já havia sido concedida a 16 países 8. Entre os critérios de validação está a ocorrência de no máximo 0,5 caso por 1.000 nascidos vivos (NV) 7. No Brasil, até o final de 2023, o Ministério da Saúde certificou 73 municípios por alcançarem a eliminação da transmissão vertical do HIV e/ou da sífilis 9.
No Distrito Federal (DF), a taxa de detecção de sífilis em gestantes foi de 34,7 casos por 1.000 NV em 2024, ligeiramente inferior à média nacional de 35,4/1.000 NV. No mesmo período, a incidência de SC foi de 7,7/1.000 NV, abaixo da taxa nacional de 9,6/1.000 NV. Entre 2023 e 2024, o DF passou da 14ª para a 19ª posição entre as unidades federativas com maiores taxas de SC em menores de um ano, indicando melhora relativa no cenário comparativo nacional 10.
Observa-se tendência de redução da SC, com decréscimo de 13,5% em relação a 2023 (8,9/1000 NV) e de 30,6% comparado a 2022 (11,1/1.000 NV) 10. Contudo, o coeficiente permanece elevado e distante dos parâmetros de eliminação da transmissão vertical, indicando a necessidade de manutenção e qualificação das ações de vigilância e assistência pré-natal.
O DF é composto por 35 regiões administrativas (RAs) 11, com população estimada em 2.817.381 habitantes 12. A Secretaria de Estado de Saúde organiza a Rede de Atenção em sete regiões de saúde, definidas pelo Plano Diretor de Regionalização, o qual considera não apenas limites territoriais, mas também aspectos da malha urbana e dos dispositivos sociais existentes 13. Atualmente, as regiões de saúde são: Central, Centro-Sul, Oeste, Sudoeste, Norte, Leste e Sul 14.
A cobertura da Estratégia Saúde da Família (ESF) no DF é estimada em 75,5% 15. No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a ESF é a principal porta de entrada dos usuários, bem como o elo entre gestantes e o pré-natal. Como eixo organizador da Atenção Primária à Saúde (APS), ela desempenha papel estratégico no planejamento do cuidado e na garantia da integralidade da atenção, atuando em territórios definidos que concentram diferentes determinantes do processo saúde-doença 16.
Uma das formas de identificar esses determinantes é por meio de uma análise espacial, a qual permite mapear a distribuição de doenças e identificar condições e fatores de risco relacionados ao ambiente. Desconsiderar esse contexto pode levar a conclusões equivocadas, já que a ocorrência de doenças é influenciada por fatores sociais, econômicos e culturais, associados ao território 17.
Nesse sentido, compreender como os casos de SG e SC distribuem-se no território do DF, bem como sua relação com a cobertura da ESF e com áreas de maior vulnerabilidade social é fundamental para subsidiar uma análise estrutural e contextualizada da situação em saúde. Tal abordagem pode apoiar o gerenciamento de recursos públicos com base na realidade local e fomentar reflexões sobre a qualidade da assistência ao pré-natal.
Portanto, esta pesquisa tem como objetivo analisar, utilizando-se da análise espacial, os coeficientes de detecção e de incidência de SG e SC no DF entre 2018 e 2023, relacionando-os à cobertura da ESF e ao Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) em cada região de saúde. Essa abordagem permite identificar padrões de distribuição ainda não explorados nesses locais e fornece subsídios estratégicos para o aprimoramento das políticas públicas, contribuindo para o fortalecimento das ações de vigilância em saúde materno-infantil e para a melhoria da qualidade da atenção ao pré-natal no DF.
MÉTODO
Trata-se de um estudo ecológico e exploratório com uso de análise espacial. Foram considerados o percentual de cobertura da ESF, IVS e as taxas de incidência de SG e SC notificadas no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) entre 2018 e 2023 no DF. A cobertura da ESF foi utilizada como indicador indireto do acesso da gestante ao pré-natal, enquanto o IVS serviu para avaliar a ocorrência de SG e SC no contexto da vulnerabilidade social.
A escolha do DF como cenário do estudo deve-se às elevadas taxas de SG e SC, bem como às desigualdades sociais e à heterogeneidade da cobertura da ESF entre as RAs. Esses fatores podem influenciar tanto o acesso ao pré-natal quanto os desfechos materno-infantis.
Para os cálculos de taxas e a elaboração dos mapas foram consideradas 33 RAs. Duas RA foram excluídas porque foram criadas apenas no final de 2022 (Arapoanga, RA XXXVIV, e Água Quente, RA XXXV) 11.
Foram inclusos todos os casos de SG e SC no período de 2018 a 2023, desde que os sujeitos atendessem à definição de caso e fossem residentes no DF. Foram excluídos os casos de SC em maiores de um ano, os de residentes fora do DF e os descartados.
Os dados de SG e SC foram obtidos no SINAN, enquanto o número de NV foi obtido no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC). A taxa de detecção de SG foi calculada pela razão entre o número de casos em gestantes residentes no DF e o número de NV de mães residentes no DF, multiplicada por 1.000:
TDSG =N_SG/NV× 1.000
onde:
• TDSG = taxa de detecção de sífilis em gestantes (por 1.000 NV);
• NSG = número de casos de sífilis em gestantes residentes no DF, no ano avaliado;
• NV = número total de NV de mães residentes no DF, no mesmo ano.
A taxa de incidência de SC foi calculada considerando o número de casos confirmados em menores de um ano, residentes no DF, dividido pelo total de NV de mães residentes no DF, multiplicado por 1.000:
TISC =N_(SC<1)/NV× 1.000
onde:
• TISC = taxa de incidência de SC em menores de 1 ano (por 1.000 NV);
• NSC<1 = número de casos confirmados de SC em menores de 1 ano, residentes no DF, no ano avaliado;
• NV = número total de NV de mães residentes no DF, no mesmo ano.
O geoprocessamento dos dados provenientes do SINAN e do SINASC e as análises espaço-temporais foram realizadas no software QGIS © 3.34.11 “Prizren”. Obtiveram-se os polígonos correspondentes a cada RA do DF no GeoPortal da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (SEDUH-DF), que foram posteriormente vinculados aos dados dos anos de 2018 a 2023. O datum utilizado foi SIRGAS 2000/UTM zona 23S e a projeção EPSG:31983.
Foram elaborados mapas temáticos de incidência de SC e de detecção de SG para cada ano analisado, possibilitando a visualização da evolução temporal e espacial dessas condições no DF. Também foram elaborados mapas temáticos de cobertura da ESF e do IVS por RA do DF.
Não existe consenso na literatura sobre a categorização da SG. Assim, foi adotada a classificação utilizada por Soares et al. 18, que divide as taxas em faixas iguais: baixa incidência (0 a 7,50 casos/1.000 NV), intermediária (7,51 a 15,00/1.000 NV), alta (15,01 a 22,50/1.000 NV) e altíssima (?22,51/1.000 NV).
Para a SC, adotou-se o critério da Organização Mundial da Saúde (OMS), que estabelece como baixa incidência valores iguais ou inferiores a 0,50 caso/1.000 NV. Os demais valores foram categorizados segundo o método de divisão igual, conforme Soares et al. 18: incidência intermediária (0,51 a 4,00/1.000 NV), alta (4,01 a 8,00/1.000 NV) e altíssima (>8,00 casos/1.000 NV).
A porcentagem de cobertura da ESF foi calculada multiplicando-se o número de equipes por RA por 3.500 (parâmetro populacional definido pela Política Nacional de Atenção Básica - PNAB 16) e dividindo-se o resultado pela população da RA no ano de referência. O quociente final foi multiplicado por 100:
PCESF =((N_(Eq×3.500) ))/P_RA × 100
onde:
• PCESF = porcentagem de cobertura da ESF;
• NEq = número de equipes de ESF na RA, no ano avaliado;
• 3.500 = parâmetro populacional estimado por equipe (PNAB);
• PRA = população total da RA, no mesmo ano.
Os dados de vulnerabilidade social foram obtidos no site do Instituto de Pesquisa e Estatística do DF (IPEDF). Utilizou-se o IVS calculado a partir da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) de 2021. O índice mensura condições de vida e necessidades básicas sob uma perspectiva multifatorial e varia de 0 a 1, sendo maior quanto mais elevada a vulnerabilidade social. Os valores são classificados em: muito baixa (0 a 0,2), baixa (>0,2 a 0,3), média (>0,3 a 0,4), alta (>0,4 a 0,5) e muito alta (>0,5 a 1) 19.
As análises espaço-temporais foram conduzidas no software SaTScan™ v10.2.5. Foi realizada uma análise retrospectiva espaço-temporal seguindo o modelo de probabilidade discreto de Poisson, com o objetivo de identificar, ano a ano, clusters de altas taxas de SG e SC. Para essa etapa, foram obtidas as coordenadas centroides de cada RA no QGIS, bem como estimativas populacionais e ocorrência de casos de SG e SC provenientes do SINASC e do SINAN, respectivamente. Adotou-se nível de significância de 5%.
O projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Escola Fiocruz de Governo (Fiocruz-Brasília) e pelo CEP da Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde (FEPECS/SES-DF), sob os CAAE nº 70118823.3.0000.8027 e 70118823.3.3001.5553, respectivamente.
RESULTADOS
COBERTURA DA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA NO DISTRITO FEDERAL
Em relação à cobertura da ESF (Figura 1), observaram-se poucas mudanças nos percentuais ao longo dos anos analisados. O valor de cobertura superior a 100% pode ter sido influenciado por um viés de cálculo, uma vez que foi baseado em projeções populacionais do censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Fig.1
As duas regiões que concentram mais RAs com o menor percentual de cobertura (0 a 20%) são Centro-Sul (Park Way e SIA) e Sudoeste (Águas Claras e Arniqueira). As RAs com menor cobertura do DF são Sol Nascente/Pôr do Sol (Oeste), com 18,47%, e Lago Sul (Leste), Sudoeste/Octogonal (Central) e SIA (Centro-Sul), que não possuem equipes da ESF em seus territórios. No DF, quando um território não dispõe de equipes da ESF, ou quando estas são insuficientes, a população é atendida por equipes de outras RAs, designadas como referência.
As RAs Sol Nascente/Pôr do Sol, não aparecem nos mapas de 2018 a 2019, pois foram criadas apenas em 2019. Esse território fazia parte da RA Ceilândia. De forma semelhante, a RA Arniqueira foi instituída a partir do desmembramento de Águas Claras.
INCIDÊNCIA DA SÍFILIS GESTACIONAL NO DISTRITO FEDERAL
Na análise do mapa (Figura 2), nota-se um aumento da incidência de SG ao longo dos anos, especialmente a partir de 2020. Nesse ano, a taxa de detecção no DF era de 23,9 casos/1.000 NV, passando para 35,3 casos/1.000 NV em 2023 - um incremento de aproximadamente 47% 10. Esse aumento levou algumas RAs, antes classificadas como de baixa ou intermediária incidência, a migrarem para as categorias de alta ou altíssima incidência.
Fig2
De modo geral, as RAs com maior incidência de SG localizam-se nas porções leste e oeste do DF, formando uma “faixa” de menores taxas no sentido norte-sul, na área central do território.
INCIDÊNCIA DA SÍFILIS CONGÊNITA NO DISTRITO FEDERAL
No mapa de incidência de SC (Figura 3), observa-se tendência semelhante à da SG, com aumento das taxas ao longo do período. Entre 2018 (8,8/1.000 NV) e 2022 (11,1/1.000 NV), houve incremento relativo de 26,1% 10, e grande parte das RAs passou a apresentar taxas muito elevadas da doença.
Fig.3
CLUSTERS DE INCIDÊNCIA ESPAÇO-TEMPORAL DA SÍFILIS GESTACIONAL E SUA RELAÇÃO COM O ÍNDICE DE VULNERABILIDADE SOCIAL DO DISTRITO FEDERAL
A sobreposição dos clusters de SG com o mapa do IVS (Figura 4) mostrou que todas as RAs classificadas como de muito alta vulnerabilidade social estavam incluídas nos clusters: SCIA/Estrutural, Sol Nascente/Pôr do Sol, Fercal, São Sebastião e Paranoá. Situação semelhante ocorreu entre as RAs de alta vulnerabilidade. Das quatro identificadas nessa categoria (Itapoã, Planaltina, Recanto das Emas e Brazlândia), três apresentaram maior risco, exceto Brazlândia. Nenhuma RA classificada como de muito baixa vulnerabilidade social fez parte dos clusters de SG.
Fig.4
CLUSTERS DE INCIDÊNCIA ESPAÇO-TEMPORAL DA SÍFILIS CONGÊNITA E SUA RELAÇÃO COM O ÍNDICE DE VULNERABILIDADE SOCIAL DO DISTRITO FEDERAL
A distribuição dos clusters de SC também esteve associada às áreas de maior vulnerabilidade social (Figura 5). Entre as cinco RAs de muito alta vulnerabilidade, quatro foram classificadas como de risco: SCIA/Estrutural, Sol Nascente/Pôr do Sol, Fercal e Paranoá. Apenas São Sebastião não fez parte de nenhum cluster. Cabe destacar que, embora SCIA/Estrutural e Fercal tenham integrado os clusters quatro e cinco, respectivamente, esses agrupamentos não alcançaram significância estatística.
Fig.5
Assim como na SG, das quatro RAs de alta vulnerabilidade (Itapoã, Planaltina, Recanto das Emas e Brazlândia), apenas Brazlândia não apresentou maior risco para SC. Além disso, nenhuma RA classificada como de vulnerabilidade muito baixa esteve presente nos clusters da doença.
DISCUSSÃO
COBERTURA DA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA
No período analisado, observou-se que, em geral, os territórios com maior vulnerabilidade social apresentaram maiores coberturas da ESF, enquanto as RAs com vulnerabilidade muito baixa tiveram as menores coberturas. Nas regiões de alta a muito alta vulnerabilidade, a cobertura variou entre 60% e mais de 100%. Já nas de vulnerabilidade muito baixa, variou de 0% a 60%. As exceções foram Cruzeiro, com vulnerabilidade muito baixa e cobertura superior a 100%, e Sol Nascente/Pôr do Sol, com vulnerabilidade muito alta, mas cobertura de apenas 0% a 20%.
Embora os dados sugiram que os cuidados estejam sendo direcionados de acordo com as necessidades da população, outros fatores precisam ser considerados. Um exemplo é o número de pessoas sob responsabilidade de cada equipe, que muitas vezes ultrapassa sua capacidade de assistência, mesmo em áreas com cobertura considerada adequada.
Segundo a PNAB 16, cada equipe deve ser responsável por 2.000 a 3.500 pessoas para garantir acesso, capacidade de resolução e coordenação do cuidado. Entretanto, relatório do Tribunal de Contas do DF (TCDF) 20 apontou que, entre as nove RAs classificadas como de alta ou muito alta vulnerabilidade, seis possuíam mais de 3.500 pessoas por equipe: Sol Nascente/Pôr do Sol, São Sebastião, Itapoã, Planaltina, Recanto das Emas e Brazlândia.
Assim, para analisar a assistência às doenças transmissíveis de forma abrangente, é indispensável incluir a discussão sobre a distribuição da força de trabalho em saúde. Sem profissionais suficientes nos locais que mais necessitam, há risco de ofertar cuidados deficientes, resultantes de fragilidades estruturais que também penalizam os trabalhadores.
Outro aspecto a considerar é que, no DF, populações de algumas RAs são atendidas em serviços de saúde localizados em outras regiões. Essa particularidade compromete parcialmente os dados de cobertura e, sobretudo, dificulta o acesso, já que a distância a ser percorrida representa um obstáculo adicional para grupos em situação de vulnerabilidade.
SÍFILIS GESTACIONAL
A análise conjunta dos mapas de cobertura da ESF e incidência de SG (Figuras 1 e 2) mostrou que, em geral, as RAs com maior cobertura da ESF também apresentaram maiores taxas de incidência de SG. Outros estudos já haviam identificado correlação positiva entre cobertura da ESF e taxa de detecção de SG 21-24.
Esse achado pode estar relacionado à maior oferta de diagnósticos pela ESF, que no DF tem como principal estratégia a realização de testes rápidos. No estudo de Figueiredo et al. 25, municípios com maior disponibilidade desses testes diagnosticaram 1,63 vez mais SG em relação aos que ofereciam menos, sugerindo maior eficiência na detecção. No entanto, a melhoria da capacidade diagnóstica não foi acompanhada por um tratamento adequado e oportuno, visto que a incidência de SC foi 1,14 vez maior nos mesmos locais, indicando falhas na condução do cuidado.
No mesmo estudo, os municípios que conseguiram reduzir a transmissão vertical da sífilis foram aqueles que, além de ofertar testes rápidos, também disponibilizavam penicilina benzatina na APS. Esses achados confirmam que o aumento do acesso à atenção básica é estratégico para o enfrentamento da epidemia de sífilis no país 25.
A sobreposição dos clusters de incidência espaço-temporal de SG ao mapa do IVS evidenciou uma provável ligação entre vulnerabilidade social e ocorrência da doença. Relatório técnico do Centro de Integração de Dados e Conhecimento para Saúde 26 apontou que a SG está associada principalmente a mulheres jovens, socialmente vulneráveis, pretas, pardas e indígenas. Ademais, entre beneficiárias do Programa Bolsa Família (PBF), houve aumento de aproximadamente 30% na incidência da doença.
Paixão et al. 27, ao analisarem mais de 144.000 casos de SG, verificaram que mulheres brancas, mais velhas, com maior escolaridade e casadas compareciam a mais consultas de pré-natal. Já mulheres pretas e pardas apresentaram menor chance de diagnóstico oportuno de SG, de tratamento adequado e até mesmo de terem seus parceiros tratados.
Esses achados evidenciam que a compreensão da SG requer a superação da lógica estritamente biomédica, inserindo-a no âmbito da determinação social da saúde. Nesse contexto, desigualdades de gênero e raça atuam de maneira interseccional, restringindo o acesso de mulheres pretas, pardas e indígenas a um cuidado oportuno e integral. Tal restrição decorre de barreiras simbólicas e institucionais associadas ao racismo estrutural e ao sexismo, somadas às condições socioeconômicas adversas que essas mulheres enfrentam.
O padrão de baixas taxas de incidência observado em RAs no sentido norte-sul, na área central dos mapas (Figura 2), também foi identificado por Soares et al. 18 em análise espacial dos casos de SG e SC realizada no Espírito Santo (2011-2018). O estudo levantou a hipótese de falhas na assistência, resultando em ausência de diagnóstico e/ou notificação.
Outra hipótese é a subnotificação por parte de serviços da rede suplementar. Muitas RAs com baixa incidência de SG estão em áreas de baixo IVS, onde a população utiliza com frequência a rede de saúde suplementar, como Park Way, Plano Piloto, Jardim Botânico, Águas Claras e Lago Sul.
No Brasil, estima-se que 13% dos casos de sífilis materna não foram registrados no SINAN entre 2007 e 2018. Essa subnotificação variou entre regiões, sendo mais frequente no Norte e Nordeste, enquanto São Paulo apresentou maior percentual de notificação 28.
A subnotificação da SG compromete o reconhecimento real da situação de saúde em relação à doença, dificultando o direcionamento de ações e a alocação de recursos. É, portanto, fundamental considerar indicadores de notificação de doenças infecciosas como ferramenta para avaliar o acesso da população à assistência à saúde, sobretudo em áreas periféricas, permitindo identificar regiões que demandam ações específicas para ampliar o acesso aos serviços de saúde 29.
SÍFILIS CONGÊNITA
A comparação entre os mapas de cobertura da ESF e de incidência de SC entre 2018 e 2023 (Figuras 1 e 3) mostrou que, de maneira geral, as maiores taxas de SC estavam associadas a regiões com maior cobertura, tal como observado para a SG. Isso sugere que algumas mulheres com SG não tiveram acesso ao tratamento adequado, seja por acesso tardio ou falta de oferta de diagnóstico oportuno.
Achados semelhantes foram relatados em estudo realizado no sul e extremo sul da Bahia, de 2009 a 2019, que identificou correlação positiva entre SC e cobertura da ESF 22. No Rio Grande do Norte, entre 2008 e 2018, Raimundo et al. 24 também verificaram associação estatisticamente significativa entre aumento da SC e cobertura de 100% pela APS. De forma semelhante, Nunes et al. 23, em Goiás, observaram não só uma correlação positiva entre a cobertura da ESF e a incidência de SC na maioria dos anos analisados, mas também que, mesmo nos municípios com maior cobertura, não houve redução significativa da transmissão vertical da sífilis, reforçando a necessidade de qualificar o pré-natal e investigar fatores relacionados à persistência da transmissão.
Assim como na SG, os clusters de incidência da SC no DF estiveram relacionados a áreas de maior vulnerabilidade social (Figuras 4 e 5). No Mato Grosso, regiões de alto risco concentraram-se em municípios com condições sanitárias precárias, mães não brancas e com menos de 8 anos de estudo 30. Esses achados reforçam o caráter socioeconômico envolvido na transmissão vertical da sífilis, tornando mais complexa a análise da situação em saúde da doença e exigindo intervenções que vão além do setor saúde.
Outras pesquisas em escala nacional corroboram esse entendimento. Dantas et al. 31, ao analisar a tendência temporal da SC no Brasil no período de 2008 a 2018, associaram sua incidência à precariedade no acesso à água e saneamento. Já Paixão et al. (2023) 27 demonstraram que mais de um terço dos casos poderiam ser evitados caso todas as mulheres tivessem o mesmo risco das brancas, enquanto Rebouças et al. (2022) 32 confirmaram maior mortalidade infantil relacionada a desigualdades étnico-raciais.
Esses resultados corroboram a interpretação da SC como expressão de condições estruturais e históricas, incluindo pobreza, racismo institucional e acesso desigual ao cuidado 26, que se traduzem em maior concentração da doença em territórios vulneráveis, mesmo onde há elevada cobertura da ESF.
É importante destacar que, por se tratar de um estudo observacional baseado em dados agregados, não é possível estabelecer relações de causalidade entre as variáveis analisadas. Recomenda-se a realização de estudos futuros com dados em nível individual, capazes de aprofundar a compreensão das associações observadas.
CONCLUSÃO
Esta pesquisa permitiu identificar fragilidades importantes na assistência ao pré-natal no DF. A qualidade desse cuidado deve ser questionada, especialmente porque regiões com maior cobertura da ESF apresentaram as maiores taxas de incidência de SC. No entanto, não seria adequado atribuir a responsabilidade apenas aos serviços e profissionais de saúde, considerando a complexidade do problema, que envolve condições socioeconômicas e desafios no planejamento da saúde pública. Muitas dessas regiões vulneráveis são atendidas por equipes da ESF, frequentemente sobrecarregadas, responsáveis por uma população muito superior à sua capacidade de atendimento.
Este estudo oferece evidências úteis para gestores, ao indicar regiões prioritárias e orientar o direcionamento de recursos. Os resultados destacam que, além da ampliação da cobertura da ESF, é necessário qualificar a atenção pré-natal e articular ações voltadas à redução das desigualdades sociais, para enfrentar a sífilis materno-infantil de forma efetiva.
Diante do atual cenário enfrentado pelo DF, a eliminação da transmissão vertical da sífilis parece uma realidade distante. No entanto, o planejamento de ações fundamentadas na realidade local pode representar um passo crucial nesse processo. Espera-se que esta pesquisa sirva como um instrumento de apoio às estratégias voltadas para a concretização desse objetivo.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os bancos de dados utilizados no artigo, incluindo os códigos de extração, análises e
resultados estão disponíveis em repositório: (https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.HL1FE).
REFERÊNCIAS
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