0091/2026 - Rural women’s access to Health: rethinking the meanings of care from Mato Grosso do Sul
Acesso de mulheres rurais à Saúde: pensando os sentidos de cuidado à partir de Mato Grosso do Sul
Author:
• Lorena Lima de Moraes - Moraes, LL - <lorena.moraes@ufrpe.br>ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8656-2412
Co-author(s):
• Esmael Alves de Oliveira - Oliveira, EA - <esmael_oliveira@live.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9235-5938
• Isabelly Janczeski - Janczeski, I - <isabelly.psic@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0005-6470-7499
• Gabriel Luis Pereira Nolasco - Nolasco, GLP - <nolasco.gabriel@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3828-7014
• Marcos Antonio Ferreira do Nascimento - Nascimento, MAF - <m2nascimento@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3363-4232
Abstract:
The article analyzes access to healthcare for rural populations in Mato Grosso do Sul, with an emphasis on the municipalities of Dourados and Rio Brilhante. Based on a qualitative approach, we articulate field observations and interviews with managers, professionals, users, and companions of SUS patients to understand how meanings of care are produced in territories marked by socio-territorial and gender inequalities. The collected narratives reveal challenges such as precarious services, scarcity of infrastructure, and the centralization of public policies and public facilities in large urban centers. The research draws on references from the Social Sciences in Health to reflect on the concrete conditions of care in inland contexts. By bringing to light experiences from the so-called “deep Brazil,” the study seeks to destabilize the epistemological hegemony of large centers and to strengthen more humane, territorialized care practices committed to equity.Keywords:
rural health; gender; inequalities; SUS.Content:
No Brasil, o acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS) acontece em diferentes “portas”, pela oferta de serviços públicos de saúde, ainda que não ocorram de forma equânime, integral e de modo universal, como pretendido. A concentração de serviços especializados, sobretudo aqueles voltados ao tratamento de doenças de alta complexidade, nas regiões urbanas e nos grandes centros, revela um cenário marcado por desigualdades históricas e estruturais1. Essas desigualdades são ainda mais abissais quando atingem as populações rurais, os povos do campo e as comunidades tradicionais, periféricas e negras que habitam o que se convencionou chamar de “Brasil profundo”2. Pessoa, Almeida e Carneiro3 afirmam que “reconhecer esse Brasil rural é fundamental para intervir no processo saúde-doença, pois o universo rural tem singularidades e especificidades que condicionam a organização dos serviços e das práticas sanitárias”.
Buscamos refletir sobre o acesso da população rural à saúde, o que implica também reconhecer os desafios enfrentados por essas populações, em especial pelas mulheres que frequentemente assumem o papel de acompanhantes mesmo diante do adoecimento da ausência ou da precariedade dos serviços públicos. Nesse contexto, consideramos nossas experiências e vivências acadêmicas de pesquisa, na graduação e pós-graduação, bem como nossas respectivas inserções no campo da saúde como saberes que se cruzam com nossas interlocutoras de pesquisa, cuidado e itinerário nas/com as políticas públicas.
Este artigo integra o projeto de pesquisa “Acesso da população rural à saúde: uma análise das desigualdades socioterritoriais, étnico-raciais e de gênero”, coordenado pela primeira autora, que tem como objetivo geral analisar a mobilidade e o acesso da população rural - moradora de pequenas e médias cidades brasileiras - ao SUS, considerando os atravessamentos das desigualdades socioterritoriais, étnico-raciais e de gênero, com vistas à identificação de Determinantes Sociais da Saúde (DSS), definidos, de acordo com Buss e Alberto Filho4, como “fatores sociais, econômicos, culturais, étnicos/raciais, psicológicos e comportamentais que influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco na população.”
Ao situarmos esta pesquisa, torna-se fundamental destacar que o acesso a saúde pelas mulheres da zona rural em Mato Grosso do Sul não se restringe a disponibilidade de serviços. Ele se entrelaça com suas condições concretas de vida: deslocamentos longos até os centros urbanos próximo ou capitais, precariedade de transporte, ausência ou insuficiência de suporte institucional e programático, sobrecarga de funções domésticas e familiares. Essas mulheres, em sua maioria pobres, pardas ou negras, vivenciam de forma interseccional distintas modos de opressão e vulnerabilidade, tais como: gênero, classe e território, perpassando seus itinerários terapêuticos e conforma barreiras estruturais ao exercício do direito à saúde. Inserir essa dimensão é essencial para compreendermos o cuidado não apenas como um serviço disponível, gratuito e acessível, mas o consideramos uma experiência situada, atravessada por desigualdades históricas e sociais.
Neste artigo, nós nos voltamos ao estado de Mato Grosso do Sul, mais especificamente aos municípios de Dourados e Rio Brilhante, onde realizamos trabalho de campo com gestoras(es), usuárias(os) e acompanhantes. O intuito é compreender como as noções de acesso e cuidado são construídas e experienciadas em contextos interioranos e rurais. Como destaca Merhy5, o cuidado é um processo que se dá na interface entre o técnico, o afetivo e o político; ele é produzido no encontro entre sujeitos, atravessado por seus valores, saberes, limites e potências. Ao escutar as narrativas de quem vive e atua nesses territórios, buscamos tirar da invisibilidade as dinâmicas cotidianas que envolvem o adoecimento, o cuidado e a luta por direitos, evidenciando a urgência de políticas públicas que considerem as múltiplas dimensões das desigualdades que estruturam o acesso à saúde no país1.
Metodologia
Esta pesquisa se inscreve no campo das abordagens qualitativas, tendo como objetivo compreender os sentidos atribuídos ao acesso à saúde e às práticas de cuidado por parte de gestoras(es), usuárias(os) e acompanhantes em contextos rurais e interioranos. A escolha por uma metodologia qualitativa se justifica pela necessidade de produzir, para além dos dados estatísticos e estruturais, as experiências, percepções e significações que atravessam os itinerários terapêuticos e de cuidado vividos e narrados pelas pessoas em seus cotidianos6. Aqui, itinerário é compreendido como “um conjunto de planos, estratégias e projetos voltados para um objeto preconcebido: o tratamento da aflição”7.
Ao adotarmos a perspectiva qualitativa, nossa atenção se voltou às narrativas sobre itinerários de cuidado e, além disso, às condições materiais e sociais que estruturam o cotidiano das interlocutoras. Realizar entrevistas no domicílio das mulheres, por exemplo, nos permitiu observar a sobreposição entre o espaço doméstico e o espaço do cuidado em saúde, evidenciando como a “cozinha’, o “quarto” ou a “varanda” se transformam em lugares terapêuticos. Essa opção metodológica revelou o quanto os arranjos familiares, as redes de vizinhança e as crenças religiosas se articulam às estratégias de enfrentamento da doença, permitindo compreender a saúde como processo vivido em meio a restrições econômicas, precariedade de infraestrutura e sobrecarga de trabalho feminino.
Os grupos aqui pesquisados foram divididos em três segmentos: i) gestão, ii)usuárias(os) e iii) acompanhantes - permitindo observar as práticas institucionais, os afetos mobilizados e as estratégias informais que sustentam o cuidado no SUS no âmbito da assistência especializada. A análise, estruturada em categorias temáticas, se articula com referenciais da Saúde Coletiva e da Psicologia Social Comunitária - suas práticas e a produção em saúde -, consolidando um campo multifacetado e plural.
Ao nos voltarmos para os sentidos produzidos e mobilizados por gestores(as), usuárias(os) e acompanhantes, buscamos compreender os itinerários de saúde e cuidado como processos marcados por dimensões sociais, políticas, simbólicas e institucionais. Nessa direção, a interlocução com as Ciências Humanas e Sociais nos oferece uma lente analítica sensível às complexidades desses processos, permitindo uma aproximação que valoriza tanto os contextos socioterritoriais em que as práticas são engendradas quanto os sentidos que são constituídos e produzidos pelos sujeitos e coletivos envolvidos8,1.
A perspectiva hermenêutica constituiu um eixo central na condução e na análise da pesquisa qualitativa. Inspirados na abordagem interpretativa de Clifford Geertz9, partimos do princípio de que compreender uma prática social exige mais do que descrevê-la: exige interpretá-la a partir dos significados que ela carrega para aqueles que a vivem. Como propõe Geertz9, ao compreender a cultura como uma teia de significados, o trabalho do pesquisador(a) nas Ciências Sociais é o de realizar uma análise que não se limite à ação em si, mas que busque interpretar os significados culturalmente construídos que conferem sentido a essa ação.
Assim, mais do que saber o que as pessoas fazem cotidianamente em seus itinerários de cuidado e saúde, buscamos compreender como elas significam o que fazem, que sentidos produzem, quais narrativas constroem sobre suas experiências e como essas narrativas se entrelaçam com as estruturas mais complexas e amplas de desigualdade, pertencimento, exclusão e resistência. A escuta atenta e o compromisso ético com as(os) interlocutoras(es) constituíram os fundamentos para a produção de um conhecimento capaz de revelar as desigualdades no acesso à saúde e, ao mesmo tempo, reconhecer as estratégias cotidianas de enfrentamento e cuidado elaboradas pelas populações rurais.
Considerando que este estudo envolve a escuta sensível em contextos de vulnerabilidade e desigualdade social, adotamos uma postura ética atenta às singularidades e à experiência10. Há o compromisso com o respeito à dignidade, à autonomia e à confidencialidade das informações compartilhadas e produzidas durante as entrevistas e observações de campo. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), sob o Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) n.º 81217624.9.0000.9547 e Parecer n.º 7.114.113, em conformidade com os procedimentos éticos estabelecidos pela Resolução n.º 510/2016, do Conselho Nacional de Saúde, que regula a ética em pesquisa nas Ciências Humanas e Sociais.
Contextualizando o campo
A pesquisa foi no período de 5 de setembro a 16 de dezembro de 2024. A escolha desses contextos partiu da relevância social e territorial dessas localidades na constituição de Redes de Atenção à Saúde, especialmente no que se refere aos itinerários terapêuticos e cuidado de mulheres e suas interações com gestores(as) e acompanhantes no cotidiano dos serviços de saúde.
Dourados, com população estimada em aproximadamente 243.367 habitantes11 é o município mais populoso do interior do estado e configura-se como um importante polo regional de serviços e educação, abrigando instituições como a Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) e o Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) e desempenha papel estratégico na economia do estado, especialmente nos setores agropecuário, comercial e educacional.
O município apresenta crescimento demográfico expressivo - aumento de mais de 1.200% entre 1940 e 2010 - e se destaca pelo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), considerado alto (0,747 em 2010)11.
No município de Dourados, embora haja maior disponibilidade de serviços especializados, as mulheres residentes em áreas rurais enfrentam distâncias significativas até área urbana e dependem quase exclusivamente do transporte público ou de apoio de familiares para chegar às consultas. Muitas vezes, a ausência de transporte regular compromete a adesão ao tratamento, especialmente quando este envolve quimioterapia ou radioterapia, exigindo deslocamentos frequentes a Campo Grande ou mesmo a outros municípios dentro e fora de Mato Grosso do Sul. Além disso, o cuidado com a casa, filhos e idosos, isto é, com outro permanece sob sua responsabilidade, de modo que a ausência prolongada para o tratamento provoca rupturas nas rotinas cotidianas.
O município de Rio Brilhante, situado a cerca de 67 km de Dourados, apresenta características socioculturais e econômicas distintas. Possui uma população estimada em 40.419 habitantes em 2022 (IBGE12). Seu Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) é considerado alto (0,715 em 2010)12. Seu desenvolvimento econômico foi impulsionado, sobretudo, pela agricultura e, mais recentemente, pela instalação de usinas sucroalcooleiras que ampliaram significativamente sua arrecadação e a consolidaram como a maior produtora de cana-de-açúcar do estado.
Sua história envolve forte presença de imigrantes das regiões Sul, Sudeste e Nordeste do país, o que contribui para sua configuração social heterogênea. Em Rio Brilhante, a realidade das mulheres rurais se articula às dificuldades de acesso à saúde com os efeitos das transformações socioeconômicas locais. A expansão das usinas sucroalcooleiras e o predomínio da agricultura intensiva moldaram um território de contrastes, em que o crescimento econômico convive com desigualdades persistentes. Esse cenário evidencia que o acesso à saúde não pode ser analisado de forma isolada, mas precisa ser compreendido em articulação com os determinantes sociais da saúde, especialmente as condições de moradia, trabalho e mobilidade que afetam diretamente suas vidas e cuidados.
A presença simultânea de contextos urbano-industriais e rurais em ambos os municípios permite explorar diferentes dimensões dos itinerários de saúde, dos arranjos institucionais e das relações entre sujeitos e territórios. A diversidade sociocultural das populações pesquisadas oferece importantes elementos para refletir como os sentidos do cuidado são produzidos e mobilizados cotidianamente nos serviços de saúde.
Resultados e discussão: acesso à saúde e os sentidos do cuidado no espaço rural
O acesso à saúde constitui um campo de reflexão denso e multifacetado cuja complexidade se acentua quando analisado a partir de populações historicamente marginalizadas, como aquelas que habitam zonas rurais e periféricas. A literatura especializada1,13 tem apontado que o acesso aos serviços de saúde deve ser compreendido para além de uma dimensão meramente estrutural ou geográfica, envolvendo aspectos políticos, organizacionais, culturais, simbólicos e éticos. É fundamental refletir sobre as formas de acesso da população rural aos cuidados em saúde, o que requer reconhecimento da existência, singularidade e complexidade dos distintos territórios e suas territorialidades presentes no contexto das ruralidades.
Assis e Jesus14 propõem um modelo de análise que reconhece o caráter multidimensional do acesso, incluindo os DSS, condições de oferta, práticas institucionais, relações entre profissionais e usuários e o papel das políticas públicas. Segundo os autores, embora haja avanços no SUS em relação a ampliação da cobertura e diminuição de iniquidades - especialmente na Atenção Básica ou com foco em sua dimensão Primária em Saúde -, persistem limites relacionados à acessibilidade, à fragmentação e à regionalização dos serviços, além de assimetrias regionais que afetam diretamente populações específicas, como as rurais e tradicionais. Isso revela a necessidade de um modelo de atenção pautado na integralidade, na equidade e na responsabilização, especialmente nos territórios onde o cuidado é atravessado por outras lógicas, como as comunitárias e as tradicionais.
Complementarmente, Vieira15 insere o debate do acesso à saúde no campo da bioética, enfatizando o direito humano à saúde como uma questão de justiça social. Ao discutir o caso das comunidades quilombolas, a autora evidencia como fatores históricos e culturais moldam os sentidos do cuidado e produzem barreiras específicas ao acesso equitativo. Nessa perspectiva, a bioética emerge como ferramenta para a construção de políticas sensíveis às particularidades dos grupos vulnerabilizados, abrindo espaço para escutas plurais, sensíveis e que valorizem saberes locais. Esse enfoque é particularmente relevante para a análise do cuidado em áreas rurais como Mato Grosso do Sul, onde diversas comunidades - incluindo populações indígenas, ribeirinhas e camponesas - desenvolvem compreensões próprias sobre saúde, adoecimento e cura, frequentemente invisibilizadas nas lógicas hegemônicas de atenção.
Já Travassos e Castro16 aprofundam a discussão sobre os DSS das desigualdades no acesso e na utilização de serviços, destacando a importância da equidade como princípio estruturante das políticas públicas. O acesso universal, previsto na Constituição Brasileira17, ainda se vê desafiado por desigualdades marcantes que afetam principalmente os grupos com menor poder socioeconômico, residentes em áreas distantes dos centros urbanos. O acesso, segundo as autoras, deve ser entendido não apenas como possibilidade de entrada nos serviços, mas como um processo contínuo que envolve a qualidade do cuidado recebido, a capacidade resolutiva dos serviços e a adequação cultural das práticas de saúde. Para tanto, é necessário produzir pesquisas que revelem como essas desigualdades se expressam nos diferentes territórios e contextos, subsidiando políticas que contemplem as especificidades locais.
Portanto, pensar o acesso à saúde da população rural em Mato Grosso do Sul exige a articulação entre diferentes dimensões analíticas: a estrutura organizativa do SUS e sua capilaridade nos territórios rurais; os DSS que influenciam o cuidado; e os sentidos atribuídos à saúde e à atenção pelos sujeitos locais. Considerar essas múltiplas camadas permite compreender o cuidado não apenas como uma oferta institucional, mas como uma experiência vivida, relacional e situada, atravessada por sentidos culturais, memórias coletivas e práticas comunitárias1. Trata-se, assim, de ampliar os horizontes analíticos para uma escuta atenta das populações rurais, reconhecendo-as como produtoras de saberes e como agentes legítimos na construção de alternativas para um sistema de saúde mais equânime e integral.
Ao longo do trabalho de campo, realizamos entrevistas com 17 interlocutoras(es), entre gestoras(es), usuárias(os) e acompanhantes, distribuídas(os) nos diferentes territórios pesquisados. No caso das usuárias, as entrevistas foram realizadas com mulheres que vivenciaram o tratamento do câncer. Por razões éticas e em conformidade com a escolha das interlocutoras, optou-se por realizá-las no domicílio das participantes, buscando garantir um ambiente de maior conforto e privacidade. Diante da diversidade de perfis e da quantidade de participantes, optamos por apresentar de forma sistematizada as informações sociodemográficas por meio de uma planilha. A seguir estão organizados dados relevantes, com o intuito de oferecer uma visão panorâmica e acessível do conjunto de entrevistadas(os):
Quadro 1
É importante destacar que, em um dos casos, a acompanhante de 55 anos, não esteve presente fisicamente durante os atendimentos, mas exerceu papel fundamental na rede de apoio ao assumir o cuidado dos netos. Essa atuação, ainda que indireta, foi decisiva para que a paciente pudesse se dedicar ao tratamento. Logo adiante, apresentamos os sentidos de cuidado mobilizados nos diferentes segmentos.
Sentidos de cuidado entre gestores(as)
No eixo gestão, emergiram três categorias principais: medo, estrutura e acesso. Esses sentidos revelam tensões entre os princípios instituídos e normativos do SUS e as realidades concretas das pacientes. Os discursos das(os) gestoras(es) mostram como o cuidado precisa ser mediado entre o que é prescrito institucionalmente e o que é possível, diante das distintas barreiras que envolvem o acesso e os DSS logísticos, emocionais e culturais vividos pelas pacientes.
O medo surge como barreira subjetiva à mobilização do cuidado. As gestoras relatam que muitas pacientes se recusam a seguir com os tratamentos fora de seus municípios ou estados por receio de se afastarem dos seus vínculos, por desinformação ou insegurança: “Elas fazem essa opção de não sair do estado. Muitas não querem… Ah, têm medo, insegurança. Falta de conhecimento mesmo”. Esse medo não é apenas individual, mas uma construção coletiva, associada à vivência da doença como sinônimo de sofrimento e morte. Como aponta Merhy5, o cuidado em saúde só pode ser produzido no encontro entre sujeitos e deslocar uma paciente do seu território sem acolhimento integral pode significar romper com esse processo de cuidado vivo.
No entanto, é preciso realizar um deslocamento a essa análise a partir de uma abordagem feminista e interseccional. De acordo com Collins e Bilge18, “o uso da interseccionalidade como ferramenta analítica aponta para várias dimensões importantes do crescimento da desigualdade global. Primeiro, a desigualdade social não se aplica igualmente a mulheres, crianças, pessoas de cor, pessoas com capacidades diferentes, pessoas trans, populações sem documento e grupos indígenas. Em vez de ver as pessoas como uma massa homogênea e diferenciada de indivíduos, a interseccionalidade fornece estrutura para explicar como categorias de raça, classe, gênero, idade, estatuto de cidadania e outras posicionam as pessoas de maneira diferente no mundo”.
Ademais, essas pacientes não são apenas usuárias do SUS, mas mulheres - em sua maioria pobres e residentes em territórios periféricos e rurais - cujas vidas são atravessadas por uma tríade de opressões: gênero, classe e território. O receio de deixar o lar não se reduz somente ao medo do desconhecido, mas a imposições socialmente atribuídas às mulheres no espaço doméstico: o cuidado com filhos, netos e idosos, a manutenção da casa, da alimentação, dos afetos e das rotinas familiares. São elas que sustentam o cotidiano da reprodução da vida e, ao se ausentarem, todo esse sistema desmorona ou recai sobre outras mulheres19.
Assim, o medo expresso para além de ser um “sentimento” é um efeito concreto da precarização das vidas femininas, da divisão sexual do trabalho e da ausência de políticas públicas que reconheçam e sustentem os deslocamentos necessários ao cuidado em saúde. Trata-se, portanto, de um medo político, que denuncia uma rede de desigualdades invisibilizadas nos protocolos técnicos de saúde. Como defende a autora feminista Angela Davis20, o trabalho doméstico e de cuidado é central para o funcionamento da sociedade, mas permanece não remunerado e desvalorizado, especialmente quando realizado por mulheres negras, pobres e periféricas.
A categoria estrutura evidencia a precariedade de recursos institucionais. A gestão reconhece os limites da rede de apoio e, por vezes, opta por estratégias improvisadas para “amenizar” a situação: “A gente tem até uma casa de apoio lá, mas é desumana. Então eu nem encaminho os pacientes pra lá”. Essa escolha ilustra como as decisões em saúde são atravessadas por dados e também por valores, ética e senso de dignidade. Como alerta Cecílio21, a integralidade só se realiza quando o sistema é capaz de responder às necessidades reais e não apenas às previstas nos protocolos.
Por fim, a categoria acesso mostra um campo de disputas e tensões conceituais. Ao mesmo tempo que gestores(as) reafirmam a Atenção Primária como porta de entrada do SUS, também revelam que, na prática, o transporte, a distância e a ausência de recursos dificultam o cumprimento do princípio de universalidade. A fala de um gestor – “Atenção primária é a porta aberta. Eu não tenho que dar transporte, tenho que dar a porta” – explicita com nitidez essa contradição. Aqui, cabe uma digressão sobre os desafios de implementação do Tratamento Fora do Domicílio (TFD), política que busca justamente viabilizar o acesso ao cuidado especializado quando este não está disponível no município de origem ou residência.
Instituído pela Portaria SAS/MS n.º 55/1999 e consolidado na Portaria de Consolidação SAES/MS n.º 1/2022, o TFD consiste em uma ajuda de custo para pacientes que necessitem realizar tratamento fora de seu domicílio, desde que haja garantia de atendimento no município de referência. No entanto, apesar de sua importância estratégica, a operacionalização do TFD encontra inúmeros entraves, sobretudo nos estados com vastos territórios, baixa densidade de serviços especializados e fragilidades logísticas e financeiras nas redes municipais.
Portanto, a análise do excerto evidencia que não se trata de uma falha isolada, mas de um conjunto de fragilidades que atravessam diferentes dimensões do sistema. Por um lado, observa-se um déficit na regulação, expresso na dificuldade de articulação entre municípios de origem e de destino para garantir o atendimento na referência; por outro, a insuficiência ou irregularidade do repasse de recursos federais e a sobrecarga das secretarias municipais diante dos custos de deslocamentos longos e precários revelam limitações tanto na capacidade de assistência quanto no acompanhamento da política. Assim, o quadro descrito aponta para a interdependência entre regulação, assistência e acompanhamento, cujas falhas, ao se somarem, comprometem a efetividade do TFD e geram impactos diretos na garantia do direito à saúde.
Tais obstáculos revelam como a política, embora desenhada para ampliar o acesso, esbarra em uma lógica de responsabilização individual ou municipal, distanciando-se do ideal de rede solidária e articulada de cuidado. A ausência de transporte regular e a exigência de garantias formais para a autorização do TFD colocam as populações mais vulnerabilizadas em posição ainda mais precária, contribuindo para a perpetuação das iniquidades em saúde. Diante disso, urge repensar os modos de implementação do TFD, buscando maior integração entre os entes federativos, melhor planejamento territorial e um compromisso efetivo com a equidade no acesso ao cuidado em saúde.
Sentidos de cuidado entre usuárias
No eixo das usuárias, três sentidos foram predominantes: vínculo, espiritualidade e rede de cuidado. Aqui, o cuidado é vivenciado como experiência sensível, marcada por relações familiares, práticas simbólicas e reconhecimento ao atendimento recebido.
A categoria vínculo aparece nas relações entre mães e filhas, entre pacientes casadas e seus esposos, entre sujeitos e seus entornos. “Minha filha faz a comida pra mim”, relata uma usuária. Esses gestos, embora simples e relacionado ao trabalho doméstico, são, na verdade, expressões profundas de cuidado ético, como propõe Ayres22, que entende o cuidado como encontro entre sujeitos em vulnerabilidade, em que a responsabilização é compartilhada e o afeto sustenta a continuidade da vida.
A espiritualidade emerge com densidade simbólica. “Sou espírita, também frequento terreiro […] banhinho de sal grosso com arruda”. A saúde, aqui, se expande para além dos parâmetros biomédicos e incorpora saberes ancestrais, espiritualidades, ritos e práticas de purificação. Essas experiências ampliam o campo terapêutico e demonstram que a produção de saúde passa também pelos campos do simbólico, do ético e do coletivo de acolhimento1,7.
A categoria rede de cuidado, por fim, reafirma o cuidado como experiência compartilhada. “Duas amigas me ajudaram. Uma ficou de dia, outra de noite”. Esses vínculos não são apenas técnicas ou mecanicistas, pois são relações que organizam o sentido da vida, sustentam o tratamento e tornam o processo menos solitário. Dimenstein et al.23 reforçam que a psicologia social comunitária deve reconhecer essas práticas como campo legítimo de cuidado, fortalecendo políticas e intervenções baseadas na escuta, na coletividade e na solidariedade. Deste modo, as falas revelam sofrimento, e ainda gratidão, presença e fortalecimento dos laços afetivos durante o processo de tratamento.
Sentidos de cuidado entre acompanhantes
No eixo das(os) acompanhantes, emergiram quatro categorias centrais: sobrecarga, fé, ausência e rede de afeto. Esses sentidos evidenciam a intensidade do cuidado informal realizado sobretudo por mulheres e a tensão entre a dedicação afetiva e o abandono institucional. O cuidado, aqui, é vivido no corpo, no tempo e na alma das cuidadoras, revelando sofrimento, resiliência e criatividade diante das lacunas deixadas pelo Estado.
A categoria sobrecarga emerge como central. A maioria das acompanhantes abandonou rotinas, trabalho e autocuidado para se dedicar integralmente ao cuidado de um familiar. “Hoje a minha vida virou cuidar da minha mãe”, relata uma delas. Em outro excerto afirma: “Tratei com psicólogo, agora tô com psiquiatra”. A saúde mental dessas mulheres se deteriora enquanto sustentam o cuidado de outrem. Fleury24 analisa esse fenômeno como expressão de uma política pública que delega responsabilidades sem garantir suporte, aprofundando desigualdades de gênero e produzindo adoecimentos invisíveis.
Ao lado disso, a fé emerge como recurso fundamental para seguir cuidando. “Entreguei na mão de Deus e, graças a Deus, deu tudo certo”, narra uma acompanhante. A espiritualidade, nesse contexto, não funciona como um consolo passivo, mas como tecnologia de enfrentamento, que reorganiza o sentido da experiência, sustenta a esperança e legitima o esforço cotidiano. Foucault 25,26 chamaria isso de prática de “cuidado de si”, em que o sujeito cria modos de existência em meio à dor e à escassez de apoio institucional.
A ausência do Estado obriga ainda essas mulheres a assumirem tarefas técnicas para as quais não foram preparadas. “Apliquei medicamentos em casa […] se fosse ela sozinha, não tinha como”. Esse tipo de improvo escancara as limitações do SUS em garantir a integralidade do cuidado, conforme proposto por Cecílio21, ao transferir responsabilidades especializadas a terceiros – sem apoio, sem capacitação, sem reconhecimento.
É nesse cenário majoritariamente feminino que se destaca, ainda que timidamente, a presença de um homem em um trabalho de cuidado. Pela idade e vínculos mencionados, é possível inferir que se trata do companheiro da pessoa cuidada, provavelmente o marido. Sua inserção, mesmo que pontual, tensiona os papéis de gênero naturalizados no campo do cuidado, historicamente associado às mulheres. A presença masculina nesse lugar provoca estranhamentos e deslocamentos simbólicos, pois desafia as expectativas sociais que desresponsabilizam os homens de tarefas de cuidado cotidiano. Sua participação pode sinalizar tanto um gesto de afeto quanto a emergência de novos arranjos familiares diante da insuficiência de políticas públicas, abrindo espaço para pensar masculinidades que cuidam, ainda que sob silêncio e invisibilidade.
A categoria rede de afeto encerra esse eixo com potência: “A gente é amiga mesmo, mas como se fosse irmã”. Essa expressão simples, mas carregada de significado, revela a densidade das relações que se estabelecem entre acompanhantes e usuárias no cotidiano do trabalho do cuidado. Trata-se de uma rede afetiva e política que transborda os limites da família consanguínea, articulando outras formas de parentesco, proximidade e pertencimento que emergem da experiência compartilhada da dor, da luta e da resistência.
Esse tipo de relação é particularmente relevante quando pensamos em populações vulnerabilizadas, frequentemente marcadas por contextos de desproteção institucional, ausência do Estado e rompimentos familiares. Nesses cenários, o cuidado é mais que uma tarefa delegada a profissionais, sendo uma prática relacional que se funda na confiança, na escuta e na presença. A proximidade entre cuidadoras e usuárias dá forma a um tecido comunitário que se sustenta não pela obrigação formal, mas pela solidariedade vivida e pela empatia responsiva – aquilo que Vilma Piedade27 nomeia como “dororidade”, ou seja, uma aliança entre mulheres mediada pela dor compartilhada e também pela possibilidade de reconstrução e potência.
Essa rede, portanto, não substitui a família tradicional, mas a reinventa a partir de outros critérios: os do afeto, do reconhecimento mútuo e da disponibilidade cotidiana. Acompanhantes tornam-se figuras de referência e apoio para as usuárias, tecendo laços que são, ao mesmo tempo, terapêuticos e políticos. Tais relações configuram-se como dispositivos de cuidado informal, muitas vezes mais eficazes do que os arranjos institucionais e burocráticos, justamente por operarem no plano do cotidiano, da reciprocidade e da escuta ativa.
Além disso, ao extrapolar os vínculos de sangue, essas redes desestabilizam concepções normativas de família, ampliando a noção de comunidade e pertencimento. Elas apontam para outras formas possíveis de estar junto, de cuidar e de resistir, especialmente em contextos em que o cuidado estatal é insuficiente. Assim, reconhecer e valorizar essas redes de cuidado e de afeto é também um ato político de legitimação dos saberes e práticas que emergem dos próprios territórios e que sustentam a vida nas suas formas mais singelas - e, por isso mesmo, mais potentes.
Considerações finais
Neste artigo, produzodo no projeto de pesquisa “Acesso da população rural à saúde: uma análise das desigualdades socioterritoriais, étnico-racial e de gênero”, buscamos compreender os sentidos atribuídos ao trabalho do cuidado em saúde no contexto sul-matogrossense, mais especificamente nos municípios de Dourados e Rio Brilhante. Com base em uma abordagem qualitativa fundamentada na pesquisa social em saúde5, organizamos as experiências narradas por gestoras(es), usuárias(os) e acompanhantes do SUS em três eixos temáticos e analíticos. Por meio da escuta atenta de quem vive e atua nos territórios, foi possível evidenciar as dimensões relacionais, afetivas e estruturais que atravessam a produção do cuidado1.
A análise realizada corrobora o referencial teórico-metodológico da saúde coletiva, especialmente no que diz respeito à compreensão do cuidado como prática viva, relacional e situada e não somente como prestação de serviços ou cumprimento de protocolos clínicos. Essa dimensão também é destacada por Ayres22, ao propor o cuidado como compromisso ético de responsabilização mútua, que só pode se efetivar quando há reconhecimento do outro como sujeito de direitos e desejos.
A partir das falas das(os) entrevistadas(os), torna-se evidente que o cuidado é sustentado por redes invisibilizadas, muitas vezes informais, construídas nos interstícios deixados pelo Estado. Como defendido por Cecílio21, responder às necessidades de saúde não é apenas oferecer serviços, mas reconhecer as necessidades vividas e isso exige escuta sensível, vínculo e sensibilidade institucional.
Essa análise também revela o entrelaçamento entre cuidado e os DSS, regidos pelas desigualdades sociais. As mulheres são protagonistas do cuidado não por escolha individual, mas por uma divisão social e sexual do trabalho que naturaliza sua função de cuidadora de modo compulsório nas sociedades capitalistas e nos modos de produção neoliberal.
É nesse ponto que a interseccionalidade se torna uma ferramenta imprescindível para análise. As experiências analisadas não podem ser compreendidas sem articular gênero, raça, classe e território19. Como nos ensina Angela Davis20, as desigualdades são históricas e estruturais e exigem respostas igualmente profundas. No campo do cuidado, isso implica políticas públicas que reconheçam as múltiplas camadas da exclusão e que valorizem os saberes locais, populares e afetivos.
Como nos lembra Vilma Piedade27 com o conceito de dororidade, o cuidado é também compartilhamento de dor, afeto e resistência entre mulheres que vivem as mesmas opressões. São redes insurgentes que criam saúde onde o Estado falha. E, como propõe bell hooks28, o amor entendido como compromisso ético com o outro é um gesto político de ruptura com a lógica do abandono, da indiferença e da dominação capitalista de apropriação e descarte.
Ao tornar visíveis os sentidos do cuidado nas vozes de quem cuida, sofre e resiste, este artigo reafirma que o cuidado não é um privilégio, mas um direito e uma prática política coletiva. Reconhecer o cuidado como produção viva, afetiva e situada, como propõe a Saúde Coletiva, é o primeiro passo para construirmos políticas públicas mais sensíveis, inclusivas e comprometidas com a justiça social. Trata-se de reconhecer, conforme aponta Araujo19, que não se pode “trivializar o que há de mais fundamental para a compreensão do cuidado, a saber, as desigualdades sociais e as relações de poder”. O cuidado, portanto, é tanto prática cotidiana quanto horizonte ético e político.
As condições de vida das mulheres rurais dos municípios em tela revelam que o cuidado em saúde é atravessado por múltiplas desigualdades, que vão além da falta de serviços e incluem sobrecarga doméstica, precariedade econômica e ausência de políticas de apoio aos deslocamentos para tratamento. Ao naturalizar a responsabilidade feminina pelo cuidado, o sistema de saúde reforça desigualdades de gênero, produz adoecimento e evidencia que essas mulheres, mais que usuárias do SUS, são sujeitos cujas vidas expõem concretamente as iniquidades do Brasil rural.
Suas narrativas de medo, fé, solidariedade e sobrecarga mostram que o cuidado é sustentado por redes informais e afetivas, frequentemente mais presentes do que as políticas institucionais. Tornar visíveis essas condições de vida constitui um passo ético e político indispensável para a construção de políticas públicas sensíveis às especificidades dos territórios rurais.
Por fim, refletir sobre o acesso da população rural à saúde exige reconhecer as iniquidades que atravessam os territórios e os sujeitos, especialmente quando se trata das comunidades que compõem o chamado “Brasil profundo”2. As experiências narradas por gestoras(es), usuárias(os) e acompanhantes nos municípios aqui apresentados, evidenciam que as práticas de cuidado são construídas em meio a adversidades, mas também carregam resistências, afetos e saberes que desafiam modelos hegemônicos e desumanizantes. Ao trazer à tona essas vozes, tensionamos a produção de conhecimento sobre saúde, ainda fortemente ancorada nos grandes centros urbanos do Sul e Sudeste, ao passo que visibilizamos realidades que clamam por políticas públicas territorializadas, interseccionais e sensíveis às desigualdades sociais. Pensar o cuidado a partir dos itinerários dos/nos territórios rurais é, portanto, um exercício ético, político e epistemológico fundamental para a construção de um SUS mais equânime, universal e integral13.
Colaboradores: LL Moraes, EA Oliveira, I Janczeski e GLP Nolasco participaram da concepção e planejamento da pesquisa. EA Oliveira, I Janczeski e GLP Nolasco contribuíram diretamente com a coleta de dados. LL Moraes, EA Oliveira, I Janczeski, GLP Nolasco e MAF Nascimento contribuíram com a análise dos dados. LL Moraes, EA Oliveira, I Janczeski, GLP Nolasco e MAF Nascimento participaram da interpretação dos dados, elaboração, revisão e aprovação final do manuscrito.
Agradecimento: O presente trabalho foi realizado com o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Ministério da Saúde (MS), apoio sem o qual a pesquisa não seria possível.
Declaração de disponibilidade de dados: As fontes de dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.
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