0255/2026 - Heatwave and Alert Systems: Scoping Review to Support the Adaptation of Brazil’s Unified Health System to Climate Change
Sistemas de alerta para ondas de calor: revisão de escopo como subsídio à adaptação do SUS à mudança do clima
Author:
• Eliane Lima e Silva - Silva, EL - <elianelima26@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4608-5946
Co-author(s):
• Helen Gurgel - Gurgel, H - <helengurgel@unb.br>ORCID: http://orcid.org/0000-0002-4250-6742
• Amarílis Bahia Bezerra - Bezerra, AB - <amarilis.bezerra@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9491-0336
• Eucilene Alves Santana - Santana, EA - <eucilene.alvessantana@gmail.com>
ORCID: http://orcid.org/0000-0002-8745-6216
• Caio Martins Leal - Leal, CM - <caiomleal10@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0002-1222-5525
• Bruno Lofrano Porto - Porto, BL - <brunolofranoporto@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3279-0401
• Peter Zeilhofer - Zeilhofer, P - <zeilhoferpeter@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7579-6408
Abstract:
Climate change has intensified extreme events, making heatwaves more frequent and severe, with significant impacts on morbidity, mortality, and healthcare demand. Adapting to this new climate context requires the implementation of heatwave and health warning systems as a strategy for protection and preparedness. This study aims to map global scientific evidence on these systems and identify their main characteristics to support the development of a protocol for Brazil’s Unified Health System. A scoping review was conducted following the Joanna Briggs Institute guidelines, with searches performed in five international databases. Studies were selected based on eligibility criteria, resulting in 22 articles included in the final analysis. Findings reveal a concentration of experiences in Europe, North America, and Asia, and an absence of studies in South America and Africa. Five analytical categories were identified: climate change and future projections, system modeling, criteria for alert definitions, system effectiveness, and integration with public policies. Locally adapted systems with tailored communication strategies proved to be more effective.Keywords:
Heatwaves; Natural Disasters; Climate Change; Early Warning Systems; Public HealthContent:
As mudanças climáticas vêm intensificando os eventos extremos, entre eles o aumento das temperaturas e a maior incidência de ondas de calor. A exposição prolongada ao calor representa um risco crescente à saúde, agravando doenças preexistentes e provocando desfechos severos, sobretudo em grupos vulneráveis, além de elevar a demanda por serviços de urgência e emergência1–3.
Embora qualquer pessoa possa ser afetada, grupos sociais, ambientais ou fisiologicamente vulneráveis exigem abordagens específicas de prevenção??. Torna-se fundamental fortalecer a capacidade do sistema de saúde para antecipar e responder aos efeitos do calor extremo.
A implementação de sistemas de alerta precoce em saúde é reconhecida internacionalmente como estratégia eficaz frente aos riscos das ondas de calor, pois fornece informações oportunas que subsidiam ações antecipatórias e reduzem impactos adversos. Em diversos países, tais sistemas combinam dados meteorológicos, epidemiológicos e socioambientais, incorporando critérios locais de vulnerabilidade e capacidade de resposta3.
No Brasil, apesar do crescente reconhecimento dos efeitos das ondas de calor sobre a saúde, ainda não há um sistema nacional integrado de alerta, o que limita a resposta do setor e a adoção de medidas preventivas oportunas. Diante disso, urge desenvolver estratégias baseadas em evidências científicas, adaptadas ao contexto brasileiro e às escalas regionais e municipais.
Assim, este estudo tem como objetivo mapear as evidências científicas sobre sistemas de alerta para ondas de calor e saúde implementados no mundo e identificar suas principais características, a fim de subsidiar a elaboração de um protocolo para o Sistema Único de Saúde.
2. MÉTODO
Trata-se de uma revisão de escopo conduzida segundo o protocolo metodológico do Joanna Briggs Institute (JBI), conforme Peters et al.6. O estudo buscou mapear e sintetizar o conhecimento existente sobre sistemas de alerta para ondas de calor e saúde, identificando experiências, modelos e critérios adotados internacionalmente7.
A pesquisa foi estruturada a partir da definição da pergunta norteadora e do recorte temático, seguida da elaboração do protocolo de revisão. A busca foi realizada nas bases Web of Science, PubMed, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Science Direct e Scopus, abrangendo publicações até dezembro de 2023. Utilizaram-se os termos em inglês: heatwave OR heat wave AND heat warning systems OR heat health warning system OR heatwave early warning systems, selecionados com base em vocabulários controlados e literatura científica.
Foram incluídos artigos revisados por pares, com texto completo em inglês, espanhol ou português, que abordassem sistemas de alerta voltados à saúde. Excluíram-se estudos sem foco específico em ondas de calor e saúde pública.
As publicações foram organizadas no software Mendeley (v2.130.2), com eliminação de duplicidades. Dois revisores independentes realizaram a triagem dos títulos e resumos conforme os critérios de elegibilidade. Os artigos potencialmente incluídos foram analisados integralmente quanto à conformidade metodológica e relevância temática. A extração dos dados foi feita com apoio da ferramenta SciSpace e formulário eletrônico estruturado.
A análise buscou responder: (i) quais países, regiões ou cidades adotam sistemas de alerta para ondas de calor e saúde; (ii) quais variáveis ou parâmetros os compõem; e (iii) quais estratégias de comunicação são utilizadas. Os dados foram sistematizados em planilha eletrônica e analisados de forma descritiva e qualitativa, organizando-se os resultados em categorias temáticas apresentadas a seguir.
3. RESULTADOS
A busca resultou em 302 estudos. Após a exclusão de 179 duplicidades, 123 artigos foram analisados por título e resumo, sendo 69 lidos integralmente. Desses, 47 não atenderam aos critérios de inclusão, totalizando 22 artigos na revisão (Figura 1).
Fig.1
A análise revelou ampla distribuição geográfica, com predominância de experiências na Europa, América do Norte e Ásia. Na Ásia, os estudos concentram-se na Ásia Oriental (China8,9 e Taiwan10), voltados a sistemas piloto para contextos subtropicais, com uso da Temperatura de Globo de Bulbo Úmido (WBGT) como indicador. Não foram identificadas experiências provenientes do Oriente Médio, Sul ou Sudeste Asiático, regiões altamente vulneráveis ao calor extremo.
Na Europa, os sistemas de alerta são mais consolidados, com registros na Alemanha, Itália, Portugal, Suécia, Suíça, Reino Unido e em iniciativas multinacionais11–13. A diversidade de indicadores e estratégias evidencia esforços de adaptação aos distintos contextos climáticos e populacionais.
Na América do Norte, predominam estudos dos Estados Unidos, que avaliam a eficácia e a sensibilidade espacial dos sistemas14–16, com foco em populações vulneráveis e variações intraurbanas de temperatura.
Na Oceania, destacam-se investigações em Brisbane e Adelaide, na Austrália, sobre métricas baseadas em risco17 e avaliação econômica dos sistemas18.
Não foram identificados estudos voltados à América do Sul ou à África, o que evidencia lacuna crítica na literatura, especialmente diante do aumento das ondas de calor e da vulnerabilidade social e institucional dessas regiões.
Os estudos concentram-se predominantemente em regiões de clima temperado (C) e continental (D), segundo a classificação de Köppen-Geiger, com menor representação de áreas subtropicais úmidas (Cfa/Cwa) e ausência de evidências em climas tropicais úmidos (Af/Am) e tropicais sazonais (Aw), predominantes em extensas áreas da América do Sul, África e parte da Ásia2.
A síntese da distribuição dos estudos encontra-se no Quadro 1.
Quadro 1
A representação cartográfica (Figura 2) evidencia a concentração dos estudos na Europa, América do Norte e Ásia Oriental, sem registros provenientes do Oriente Médio, Sul e Sudeste Asiático, com além da ausência de publicações na América do Sul e na África. Essa distribuição evidencia importantes lacunas geográficas da produção científica sobre sistemas de alerta para ondas de calor.
Fig.2
Com base na análise dos 22 artigos, foram identificadas cinco categorias temáticas: (1) mudanças climáticas e projeções futuras; (2) modelos operacionais dos sistemas de alerta; (3) critérios e métodos para definição dos alertas; (4) eficácia e impactos dos sistemas; e (5) integração com políticas públicas e sistemas de saúde. Essas categorias orientaram a organização dos achados apresentados a seguir.
3.1. Principais abordagens e evidências científicas
A intensificação das ondas de calor em decorrência das mudanças climáticas tem ampliado os riscos à saúde pública e sobrecarregado os sistemas de saúde. Em resposta, diversos países vêm adotando sistemas de alerta como medida de adaptação e mitigação desses impactos.
A análise dos 22 estudos incluídos evidenciou abordagens variadas quanto à concepção, modelagem e eficácia desses sistemas, abrangendo diferentes contextos geográficos, metodológicos e institucionais. Essa diversidade reflete a complexidade do tema e a heterogeneidade das experiências internacionais. O agrupamento dos estudos por categoria é detalhado no quadro 2.
Quadro 2
3.1.1. Mudanças climáticas e projeções futuras
Dois estudos analisaram diretamente os impactos das mudanças climáticas na frequência e intensidade das ondas de calor e suas implicações para a saúde pública. Casanueva et al.11 revisaram sistemas europeus de alerta e destacaram projeções de aumento na frequência, duração e intensidade das ondas de calor ao longo do século XXI, com maior recorrência de eventos extremos na Europa Central e Meridional. Os autores recomendam a atualização periódica dos limiares térmicos com base em cenários regionais e a incorporação de métricas que considerem temperaturas máximas, mínimas noturnas e índices compostos de estresse térmico. Descrevem ainda o projeto Heat-Shield como iniciativa europeia voltada à proteção de trabalhadores expostos ao calor, integrando previsões meteorológicas por conjuntos a modelos de risco ocupacional com limiares personalizados.
White-Newsome et al.14, analisaram o calor extremo sob a perspectiva da justiça ambiental em áreas urbanas dos Estados Unidos, evidenciando desigualdades intraurbanas na exposição térmica associadas à impermeabilização do solo, menor cobertura vegetal e intensidade de ilhas de calor, frequentemente sobrepostas a setores censitários com maior proporção de população de baixa renda e grupos racializados. Demonstraram ainda que a capacidade de resposta também é socialmente distribuída, variando conforme acesso a climatização, qualidade da moradia e redes de apoio social.
Em conjunto, os estudos indicam que a incorporação de projeções climáticas aos sistemas de alerta deve envolver tanto a revisão dinâmica de limiares quanto o direcionamento territorial das estratégias de comunicação e resposta, priorizando áreas e populações com maior vulnerabilidade socioambiental.
3.1.2. Modelos operacionais dos sistemas de alerta
Dez estudos descreveram diferentes modelos de sistemas de alerta para ondas de calor e saúde, evidenciando diversidade quanto à escala, variáveis e sofisticação técnica. Na Europa, Lowe, Ebi e Forsberg23 mapearam sistemas em 12 países, destacando a adaptação local e a comunicação de risco. Pongrácz, Bartholy e Bartha20, na Hungria, utilizaram o PRECIS (Providing REgional Climates for Impacts Studies), modelo climático regional de alta resolução, desenvolvido pelo Hadley Centre, para simular cenários regionais de mudança do clima, projetando o aumento da frequência e duração das ondas de calor até o final do século XXI. Na Suécia, Åström et al.24 avaliaram abordagens epidemiológicas para apoiar a implementação nacional de alertas.
Na Alemanha, Matzarakis, Laschewski e Muthers12 descreveram o sistema HHWS, baseado em previsões meteorológicas e classificação de massas de ar. Em Portugal, Morais, Lopes e Nogueira25 compararam os indicadores EHF (Excess Heat Factor), , que define ondas de calor como o produto entre a anomalia da média móvel de três dias da temperatura média diária em relação ao percentil 95 histórico e um componente de aclimatação baseado nos 30 dias anteriores; e GATO IV (Generalized Accumulated Thermal Overload – limiar IV), que estima a sobrecarga térmica acumulada a partir do excesso da temperatura máxima acima de um limiar sazonal dinâmico, ponderado pela persistência de dias consecutivos. Ambos aplicados à previsão de mortalidade por calor em Lisboa. Na Ásia, Tan et al.9 apresentaram o modelo operacional de Xangai, que associa massas de ar à mortalidade, enquanto, Lung, Yeh e Hwang19 e Lung et al.10 , em Taiwan, desenvolveram modelos baseados no WBGT (Wet Bulb Globe Temperature), índice de estresse térmico que combina temperatura, umidade, vento e radiação para estimar a carga de calor sobre o corpo humano; e em métodos de co-design, envolve coprodução em que pesquisadores e gestores desenvolvem conjuntamente soluções baseadas em evidências para aplicação prática.
Na Oceania, Williams et al.18 avaliaram o custo-benefício do sistema implantado em Adelaide, Austrália, demonstrando ganhos econômicos significativos. Os modelos analisados refletem a importância de integrar dados meteorológicos, epidemiológicos e socioambientais para apoiar decisões em saúde pública.
3.1.3. Critérios e métodos para definição dos alertas
Quatro estudos analisaram os critérios e métodos para definir limiares e acionar alertas. Zhang et al.16 compararam métricas de exposição ao calor, como temperaturas mínimas e máximas, indicando que o percentil 99 da temperatura mínima é o mais preditivo para mortalidade excessiva. Tong et al.17,, em Brisbane, propuseram sistema com três níveis de alerta — amarelo, laranja e vermelho — baseados em percentis climatológicos da temperatura média. Na Suíça, Burgstall et al.21 avaliaram o desempenho de diferentes índices de estresse térmico, sugerindo a revisão do Combined Heat Index, do indicador oficialmente adotado pelo sistema nacional de alerta. Vargo, Xiao e Liu15 examinaram o desempenho dos alertas em Atlanta e Chicago, integrando dados do Serviço Nacional de Meteorologia e imagens de satélite, e demonstraram variações espaciais intraurbanas significativas, evidenciando discrepâncias entre os avisos emitidos com base nos limites administrativos dos condados e as condições térmicas observadas localmente.
Esses estudos indicam que a definição de alertas deve equilibrar a precisão meteorológica e a sensibilidade dos indicadores aos efeitos na saúde, garantindo limiares adequados à realidade local.
3.1.4. Avaliação da eficácia e impactos dos sistemas
Cinco estudos avaliaram a efetividade dos sistemas de alerta na redução da morbimortalidade por calor extremo. Morabito et al.13, ao compararem dados de mortalidade antes e após a implantação do sistema em Florença, identificaram redução significativa de óbitos entre idosos com 75 anos ou mais.
Toloo et al.28;29, em revisão sistemática, demonstraram que os alertas reduzem mortes e chamadas de emergência, embora apresentem limitações de alcance comportamental, sobretudo entre populações de baixa renda.
Nitschke et al.27, na Austrália, observaram diminuição nos atendimentos de emergência durante evento de calor em 2014, atribuída à atuação do sistema de alerta. Wu et al.8, em Xangai, reforçaram a necessidade de revisar periodicamente os limiares de temperatura com base em dados locais de morbidade relacionada ao calor.
Em conjunto, os estudos evidenciam que a eficácia dos sistemas depende tanto da calibragem dos limiares quanto da comunicação e adesão das populações-alvo.
3.1.5. Integração com políticas públicas e sistemas de saúde
A integração entre sistemas de alerta e políticas públicas de saúde foi abordada diretamente em apenas um estudo. Yi, Peng e Robinson26 propuseram modelagem do estresse térmico em residências urbanas para aprimorar gatilhos de ação em contextos vulneráveis.
Embora os demais estudos apontem implicitamente a importância da articulação intersetorial, as evidências indicam que a incorporação dos sistemas de alerta às estratégias de gestão do risco em saúde ainda é incipiente. Essa lacuna compromete a efetividade e a sustentabilidade das iniciativas, sobretudo em contextos de maior vulnerabilidade social e institucional.
3.2. Composição e características dos sistemas de alerta
Os estudos analisados mostram que os sistemas de alerta para ondas de calor e saúde apresentam composições diversas, determinadas por fatores como contexto geográfico, definição de onda de calor, objetivos institucionais e capacidades técnicas. Essas diferenças abrangem desde a conceituação do evento até as variáveis empregadas, critérios de acionamento, desenho operacional e estratégias de comunicação.
Constata-se, portanto, heterogeneidade significativa entre os modelos desenvolvidos e avaliados, refletindo a adaptação às especificidades locais e a complexidade de integrar dimensões meteorológicas, epidemiológicas e sociais.
3.2.1. Definição de ondas de calor
A definição de onda de calor variou amplamente entre os estudos, agrupando-se conforme as variáveis empregadas: temperatura máxima, média diária, percentis climatológicos, índices compostos e indicadores fisiológicos.
A temperatura máxima foi o critério predominante em quatro estudos. Tan et al.9 , em Xangai, utilizaram a massa de ar “tropical úmida plus” (MT+) associada à maior mortalidade. Pongrácz, Bartholy e Bartha20 definiram ondas de calor como períodos em que a temperatura máxima excede em 5°C a média histórica por mais de cinco dias. Em Atlanta e Chicago, Vargo, Xiao e Liu15 adotaram o Índice de Calor acima de 40,6°C por duas horas, e, Nitschke et al.27 consideraram três dias consecutivos ?35°C. Na Alemanha, Matzarakis, Laschewski e Muthers12 usaram três dias acima de 28°C (percentil 98 local).
A temperatura média diária e percentis climatológicos foram utilizados por Tong et al.17, que definiram ondas de calor em Brisbane como dois ou mais dias acima dos percentis 90º–98º, e por White-Newsome et al.14, que adotaram acréscimo ?10°C sobre a média histórica.
Índices compostos, como o Fator de Excesso de Calor (EHF) e o GATO IV, foram aplicados por Morais, Lopes e Nogueira25 em Lisboa, e por Williams et al.18 em Adelaide, considerando a superação dos limiares de curto e longo prazo por três dias.
Indicadores fisiológicos, como a Temperatura de Globo de Bulbo Úmido (WBGT), foram utilizados em Taiwan10,19 , integrando temperatura, umidade, radiação e vento.
Sete estudos não apresentaram definição meteorológica formal (Åström et al.24, Burgstall et al.21, Casanueva et al.11, Lowe et al.23, Ragettli et al.22, Toloo et al.28 e Zhang et al.16), priorizando critérios de risco à saúde.
Essa diversidade conceitual evidencia desafios na padronização dos critérios de alerta e a necessidade de métricas adaptadas às condições locais, que considerem simultaneamente exposição e vulnerabilidade populacional. O Quadro 3 sintetiza os critérios utilizados nos estudos.
Quadro 3
3.2.2. Metodologias e parâmetros dos sistemas de alertas
Diversos estudos utilizaram modelos estatísticos e epidemiológicos para definir limiares de alerta, avaliar impactos das ondas de calor na saúde e estruturar sistemas. Foram aplicados modelos aditivos generalizados (GAM), splines de regressão, análises de risco relativo ajustado e técnicas de clusterização híbrida, que identificaram correlações entre variáveis climáticas e desfechos como mortalidade e internações.
Åström et al.24, na Suécia, empregaram splines de regressão para estimar risco de mortalidade com base em temperaturas observadas e previstas, mostrando alta concordância entre modelos. Zhang et al.16 compararam diferentes métricas de exposição ao calor e destacaram o percentil 99 da temperatura mínima, limiar que representa as noites mais quentes da série histórica, excedido em apenas 1% dos dias, como melhor preditor de excesso de mortalidade, enquanto Tong et al.17 propuseram métricas baseadas em risco. Lung, Yeh e Hwang19 aplicaram a razão de risco ajustada (rARR) para definir limiares térmicos em Taiwan.
Análises espaciais também foram utilizadas, como o emprego de imagens orbitais térmicas para avaliar variabilidade intraurbana de temperatura e coerência dos alertas emitidos 15.
Modelos numéricos de previsão do tempo fundamentam os sistemas nacionais: na Alemanha, o Serviço Meteorológico utiliza previsões com 48 horas de antecedência 12. ; e na Hungria, o modelo PRECIS projeta cenários futuros de calor extremo aplicáveis a sistemas de alerta20.
3.2.3. Escalas e níveis de alerta
O tempo de antecedência dos alertas variou entre os sistemas analisados. Em Xangai e na Alemanha, os alertas são emitidos com 48 horas de antecedência9,12. Em Brisbane, Tong et al.17 relataram previsão de até sete dias, e em Adelaide, ativação com três dias18.
A escala geográfica também apresentou variações: sistemas locais, como os de Xangai, Taipei e Brisbane, oferecem maior sensibilidade às condições térmicas e populacionais, enquanto sistemas nacionais tendem a reduzir a especificidade das recomendações.
Quanto aos níveis de alerta, observou-se heterogeneidade nos critérios adotados. Tan et al.9 adotaram faixas de mortalidade esperada (nível I: 40–59; nível II: 60–79 mortes); Tong et al.17 utilizaram percentis de temperatura média (amarelo ?90º, laranja ?95º, vermelho ?98º); e Ragettli et al.22, na Suíça, seguiram abordagem semelhante.
Vários estudos destacaram a integração entre variáveis meteorológicas e indicadores de saúde — como mortalidade e internações — para definir limiares adaptativos, ampliando a sensibilidade dos sistemas e aprimorando a resposta em saúde pública 19,23.
3.3. Estratégias de Comunicação
As estratégias de comunicação são componentes centrais dos sistemas de alerta para ondas de calor, pois traduzem informações técnicas em mensagens compreensíveis e acionáveis para a população e os serviços de saúde. Embora haja consenso sobre sua importância, os estudos mostram grande variação nas formas de divulgação, segmentação do público e participação social.
As abordagens identificadas incluem meios de comunicação de massa, mensagens segmentadas, sistemas visuais por cores, canais digitais, educação em saúde e orientações a grupos vulneráveis. Em Taipei, Lung et al.10 descreveram sistema desenvolvido por co-design, com participação comunitária na formulação das mensagens e escolha dos canais de divulgação. White-Newsome et al.14 relataram campanhas de justiça ambiental voltadas a comunidades vulneráveis, enquanto Nitschke et al.27 destacaram ações educativas em Adelaide, integradas a anúncios públicos.
Tong et al.17, Williams et al.18 e Wu et al.8 descreveram sistemas visuais baseados em cores (amarelo, laranja, vermelho), que facilitam a compreensão dos diferentes níveis de risco. Na Suíça, Na Suíça, Ragettli et al.22 enfatizaram a cooperação entre autoridades meteorológicas e serviços de saúde na definição de limites e recomendações, combinando dados de mortalidade e temperatura.
Apesar dos avanços, persistem barreiras de acesso e compreensão, sobretudo entre populações com baixa literacia em saúde ou restrito acesso tecnológico 8,29. As evidências apontam que estratégias mais eficazes combinam linguagem acessível, segmentação por público-alvo (idosos, crianças, trabalhadores expostos) e articulação intersetorial, assegurando que os alertas se convertam em ações de proteção efetivas.
4. DISCUSSÃO
A relação entre ambiente e saúde está na base da saúde pública. Desde as epidemias de cólera do século XIX, associadas à água contaminada30, até os desafios contemporâneos das mudanças climáticas, observa-se forte influência ambiental sobre o bem-estar populacional. Essa perspectiva ampliou-se na saúde coletiva com a incorporação da sustentabilidade às políticas públicas — princípio previsto na Constituição Federal de 198831. Patz et al.32 já alertavam para os riscos sanitários decorrentes das mudanças climáticas, em especial das ondas de calor.
Relatórios recentes do IPCC2, do Lancet Countdown 33,34 e estudos brasileiros 35,36, confirmam o aumento das temperaturas como fator de ampliação da carga de doenças e de pressão sobre os sistemas de saúde. Essa pauta vem sendo incorporada a políticas globais e nacionais, como demonstram Confalonieri e Marinho37 e as recentes iniciativas voltadas ao SUS.
Nesse cenário, os sistemas de alerta para ondas de calor emergem como instrumentos estratégicos de antecipação de riscos e resposta oportuna. Os resultados desta revisão evidenciam predominância de experiências na Europa, América do Norte, Ásia e Oceania. Essa concentração relaciona-se a eventos extremos de grande impacto, maior capacidade instalada e inserção do tema nas agendas de saúde e clima. A escassez de estudos na América do Sul e na África revela lacunas críticas de produção científica e implementação de estratégias adaptativas 2,38,39 preocupantes diante da vulnerabilidade social e institucional dessas regiões.
Os modelos operacionais analisados apresentaram heterogeneidade quanto a critérios de ativação, variáveis e indicadores de saúde. Sistemas locais, como os de Xangai 9 e Taipei 10 , mostraram-se mais ajustados às especificidades regionais, enquanto os nacionais, como o da Alemanha 12, priorizam padronização, podendo reduzir a precisão. A definição de ondas de calor variou amplamente — de parâmetros meteorológicos a fisiológicos — indicando a necessidade de abordagens adaptadas ao contexto epidemiológico e social.
A definição de onda de calor variou significativamente entre os estudos — envolvendo temperatura máxima, média, percentis climatológicos, índices compostos (EHF, WBGT) ou critérios fisiológicos. Parte dos estudos não apresenta definição explícita do evento, optando por parâmetros baseados em impactos à saúde. Tal diversidade metodológica, embora desafiadora, aponta para a necessidade de abordagens sensíveis ao contexto epidemiológico e social.
Os alertas variaram entre 48 horas e sete dias, com níveis baseados em percentis ou mortalidade, sendo mais eficazes os modelos articulados a protocolos de resposta e comunicação. A comunicação mostrou-se elemento decisivo: sistemas com codificação por cores (Brisbane, Adelaide, Xangai), mensagens segmentadas e linguagem acessível apresentaram melhores resultados, sobretudo entre populações vulneráveis8,17,18. Experiências participativas, como a de Taipei, reforçam que clareza, acessibilidade e engajamento social favorecem adesão.
Apesar dos avanços, persistem barreiras como baixa literacia em saúde, limitações tecnológicas e fragmentação institucional. Toloo et al.29 ressaltam que os alertas, por si só, não garantem mudança comportamental, exigindo ações complementares de comunicação de risco e educação em saúde.
A integração com os serviços de saúde permanece incipiente. Apenas Yi, Peng e Robinson26 abordaram a articulação entre modelagens de estresse térmico e planos de ação urbanos, evidenciando a necessidade de protocolos intersetoriais que incorporem os alertas à gestão de riscos. No Brasil, a ausência de um sistema nacional limita a capacidade do SUS frente à intensificação dos eventos de calor. Estudos recentes demonstram os impactos combinados do calor extremo, estiagens, queimadas e poluição atmosférica 40–42. A criação de sistemas de alerta adaptados ao contexto brasileiro, integrando dados climáticos e epidemiológicos e alinhados às políticas de adaptação, é essencial para fortalecer a resiliência do SUS diante das mudanças climáticas.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta revisão evidenciou que as ondas de calor produzem impactos diretos e indiretos sobre a saúde humana, com repercussões significativas para os serviços de saúde, especialmente em áreas urbanas e entre populações vulneráveis. A relação entre exposição ao calor extremo e desfechos adversos é multifatorial, mediada por fatores climáticos, sociais e institucionais, exigindo respostas integradas de vigilância, prevenção e gestão do risco.
Os sistemas de alerta para ondas de calor e saúde configuram-se como estratégias centrais de adaptação dos sistemas de saúde às mudanças climáticas. Quando estruturados com critérios técnicos claros, integração de dados meteorológicos e epidemiológicos e protocolos intersetoriais, demonstram efetividade na redução da morbimortalidade. A literatura aponta maior êxito nos sistemas que incorporam comunicação acessível e estratégias específicas para grupos vulneráveis.
Entre os principais elementos críticos, destacam-se: a necessidade de parâmetros térmicos ajustados ao contexto local, limiares de alerta baseados em evidências epidemiológicas, níveis de resposta acionáveis e inclusão de indicadores de saúde nos gatilhos. A participação comunitária, a clareza das mensagens e a articulação entre meteorologia, saúde e proteção social são fatores determinantes da efetividade.
Persistem lacunas relevantes: a escassez de estudos na América Latina e África — regiões mais vulneráveis às mudanças climáticas — e a limitada integração dos sistemas de alerta com os serviços de saúde, indicando a urgência de avanços estruturais e políticos para consolidar essas estratégias.
No Brasil, onde eventos de calor extremo se intensificam, a implementação de um sistema nacional de alerta, articulado ao SUS e adaptado à diversidade climática e social, é medida prioritária. Protocolos baseados em evidências e práticas intersetoriais podem fortalecer a capacidade de resposta e proteção da saúde frente à crise climática.
Para pesquisas futuras, recomenda-se aprofundar a avaliação da efetividade dos sistemas em contextos sub-representados e desenvolver métodos que integrem previsões climáticas de médio e longo prazo, ampliando a capacidade de antecipação e resiliência dos sistemas de saúde.
Por fim, reconhece-se que a revisão foi limitada a três idiomas e a heterogeneidade dos critérios e a falta de dados sistematizados dificultaram a comparação direta dos resultados. Ainda assim, achados oferecem base consistente para orientar políticas e protocolos voltados à gestão do risco térmico no setor saúde.
6. AGRADECIMENTOS
Esta pesquisa contou com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio da Chamada nº 18/2023 (Processo 444938/2023-0), e do Instituto Francês de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD) (ID: 15AYCA622286).
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