0150/2026 - Escolas paulistas da AIDS: estilos, disputas e políticas de vida – 1980/1990. Uma entrevista com Paulo Teixeira e Lindinalva Teodorescu.
São Paulo Schools of AIDS: Styles, Disputes, and Politics of Life – 1980s/1990s. An interview with Paulo Teixeira and Lindinalva Teodorescu.
Autor:
• João Paulo Gugliotti - Gugliotti, JP - <joaopaulogugliotti@outlook.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0115-9032
Resumo:
A entrevista com Paulo Teixeira, em diálogo com Lindinalva Teodorescu, reconstrói momentoscentrais da resposta paulista à epidemia de HIV/AIDS nas décadas de 1980 e 1990, situando a
emergência da AIDS no cruzamento entre reforma sanitária, produção científica, militância
política e disputas institucionais no campo da saúde. A trajetória de Teixeira é apresentada como
expressão de uma “escola paulista” de enfrentamento da epidemia, marcada pela centralidade da
saúde pública, pela articulação com movimentos sociais e pela defesa de uma abordagem
orientada por direitos humanos. O relato aborda a criação de serviços de referência em AIDS no
âmbito da Secretaria de Estado da Saúde, os embates com setores biomédicos conservadores, as
controvérsias em torno da testagem e dos bancos de sangue, e a construção de alianças com o
movimento homossexual (Somos, GAPA). Discute-se ainda o papel de São Paulo como
laboratório para a posterior conformação do Programa Nacional de AIDS, bem como as tensões
entre prevenção, assistência e acesso a medicamentos. A entrevista evidencia como a resposta
institucional foi atravessada por disputas morais, técnicas e políticas, com efeitos duradouros
sobre as políticas brasileiras de HIV/AIDS.
Palavras-chave:
HIV/AIDS. Saúde Pública. Paulo Teixeira. Lindinalva Teodorescu. Medicina.Abstract:
The interview with Paulo Teixeira, in dialogue with Lindinalva Teodorescu, reconstructs keymoments in São Paulo’s response to the HIV/AIDS epidemic during the 1980s and 1990s,
situating the emergence of AIDS at the intersection of health sector reform, scientific
production, political activism, and institutional disputes within the field of health. Teixeira’s
trajectory is presented as an expression of a “São Paulo school” of responses to the epidemic,
marked by the centrality of public health, close articulation with social movements, and the
defense of a human rights–oriented approach. The account addresses the creation of AIDS
reference services within the State Department of Health, conflicts with conservative biomedical
sectors, controversies surrounding testing and blood banks, and the building of alliances with the
homosexual movement (Somos, GAPA). It also discusses the role of São Paulo as a laboratory
for the subsequent configuration of the National AIDS Program, as well as the tensions between
prevention, care, and access to medications. The interview highlights how the institutional
response was shaped by moral, technical, and political disputes, with lasting effects on Brazilian
HIV/AIDS policies.
Keywords:
HIV/AIDS. Public Health. Paulo Teixeira. Lindinalva Teodorescu. Medicine.Conteúdo:
João Paulo Gugliotti: Paulo, a primeira pergunta é sobre formação, sanitarismo e política. Sua
trajetória se constrói na interseção entre militância política, movimento da reforma sanitária e
formação médica em Botucatu e na Escola Paulista de Medicina. Com esse caldo institucional e
político dos anos setenta e oitenta em São Paulo, como esse contexto moldou a forma específica
pela qual a epidemia de AIDS passou a ser pensada como um problema de saúde pública e
direitos no estado de São Paulo?
Paulo Teixeira: No momento em que levantei a hipótese de expandir o que era nosso
ambulatório para diagnóstico de hanseníase e ampliar para doenças sexualmente transmissíveis,
por sugestão de uma amiga nossa, Miriam Vontobel, uma gaúcha, ela disse: “por que não amplia
essa proposta de doenças sexualmente transmissíveis para já iniciar um ambulatório de referência para AIDS?”
Achei muito oportuna a sugestão e nós, a equipe, abrimos então o primeiro ambulatório de
referência para AIDS.
Lindinalva Teodorescu: Na verdade, Miriam Vontobel comentou que o secretário João Yunes
concordara em criar um serviço para atender casos de AIDS na Escola Paulista de Medicina
(EPM). Paulo Teixeira reagiu dizendo que o serviço de Doenças Sexualmente Transmissíveis da
Seção de Elucidação diagnóstica da divisão de Dermatologia Sanitária, dispunha de estrutura e
recursos humanos para atender casos de AIDS. Levou a proposta para João Yunes. Argumentou
que criar o serviço na EPM seria transferir para a academia a responsabilidade de intervenção
que era da Saúde Pública. Outro argumento técnico de peso: o grupo social mais atingido era o
dos homossexuais que apresentavam altas taxas de infecções sexualmente transmissíveis (IST), o
quer os tornava usuário natural do serviço do Instituto de Saúde. O secretário concordou e foi
criado o Programa de AIDS em agosto de 1983.
Paulo Teixeira: Acontece o seguinte: quando surgiu a epidemia de AIDS, os homossexuais
eram os mais atingidos. Sendo um meio que eu conhecia muito bem, que eu tinha amigos, que
sabia das práticas, eu me lembrei de um fato que conhecia: muitos homossexuais com status
econômico mais elevado costumavam viajar sexta-feira à noite para Nova York. Lá se
hospedavam numa sauna onde o sexo era liberado e era o objetivo. Passavam o dia de sábado, a
noite de sábado, o dia de domingo, e domingo à noite tomavam o avião de volta para São Paulo.
Levando em conta a descrição dos casos que estavam ocorrendo em Nova York, antevi que nós
tínhamos um elo com as pessoas atingidas em Nova York e que muito cedo estaríamos sofrendo
da mesma forma.
Quando criamos o ambulatório de AIDS, eu tinha como antecedente o fato de que participei da
criação do primeiro grupo homossexual de São Paulo, que foi o Grupo Somos. Então convidei
um grupo de pessoas que estavam sendo atingidas pelo HIV, pessoas que eu tinha conhecido no
Somos e também num outro grupo chamado Outra Coisa. Convidei essas pessoas para contar
qual era a proposta que nós tínhamos e ver que tipo de participação eles poderiam ter. Cheguei a
propor que se organizasse um núcleo dentro do programa de AIDS formado só por pessoas
desses dois grupos. Eles acharam que não era o caso, porque isso poderia limitar o poder de
crítica que queriam exercer. De qualquer maneira, foi muito importante esse contato, porque nós
bolamos uma outra coisa. As terças-feiras à noite fazíamos no anfiteatro do Instituto de Saúde
uma palestra sobre AIDS. Essas pessoas que eu conhecia melhor, do grupo Outra Coisa etc., se
encarregavam de panfletar nos locais de reunião ou de frequência dos homossexuais e dos gays.
Normalmente eu fazia a palestra. Depois, com o tempo, outras pessoas da minha equipe
começaram a assumir, até para dar diferentes enfoques na discussão.
É daí que nasce o GAPA (Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS). Numa dessas reuniões,
alguém, acho que Paulo Bonfim e uma advogada, Áurea Celeste Abade, constituíram o grupo, e
eu sou inclusive um dos fundadores do GAPA, que logo ganha um destaque bastante grande,
tanto na mídia como na representação dos homossexuais atingidos, lutando contra o estigma,
contra o preconceito, e até atuando do ponto de vista legal em situações de constrangimento ou
discriminação que os homossexuais estavam vivendo. Eu tinha já estabelecido com a Brenda, a
travesti, um contrato de prestação de serviço para abrigar inicialmente travestis portadores de
AIDS que não tinham moradia ou vinham de outros estados, como Rio de Janeiro, procurando
abrigo na casa da Brenda. Quando apresentei a proposta de um serviço de AIDS, foi um
tumulto, tanto na imprensa como dentro da Secretaria. Numa reunião convocada pelo secretário
com seus principais assistentes, fiz uma apresentação muito mais baseada na questão dos
direitos, do acesso universal ao que viria a ser o SUS e dos direitos de cidadania. Eram pessoas
que contribuíam para a construção desse país como qualquer outro.
Quanto à minha formação sanitarista, participava da construção do SUS. Um dos iniciadores,
junto com Minas Gerais e a Santa Casa do movimento para criação do SUS, era a Cecília
Magaldi. A Cecília detectou, ainda no meu primeiro ano da faculdade, que eu tinha uma liderança
sobre a minha turma e passou a me convidar como representante dos estudantes no grupo que
se reunia em São Paulo com pessoas da Fiocruz, de Minas. Participei desse processo. Fiz o curso
de saúde pública, prestei exame para a carreira de sanitarista, fui aprovado, mas eu tinha um
consultório que dividia com um amigo meu da Escola Paulista de Medicina. Por uma questão
ética, porque a dedicação teria que ser integral do médico sanitarista, não me senti à vontade e
não entrei para a carreira de sanitarista. Mas continuei participando do movimento sanitarista.
É claro que ganhei um destaque público na mídia, nos meios acadêmicos, científicos etc. Mas
isso não eliminava a postura discriminatória por parte do Amato e do Veronesi. Veronesi era
irresponsável. No ápice, ele chamou a imprensa para anunciar que duas funcionárias de limpeza
do HC tinham adquirido AIDS manipulando resíduos hospitalar, sendo que elas não
trabalhavam no setor de atendimento de AIDS. Ele era uma pessoa detestável. Participei de
debates com ele promovidos por jornalistas da Bandeirantes, que se destacaram na divulgação da
AIDS, mas que não perdiam oportunidade de transmitir um conflito.
Com o Amato já era diferente. Ele era mais subterrâneo. Falava com os amigos, com outros
infectologistas, sempre afirmando que o meu serviço, na verdade, era por interesses pessoais. Ele
chegou a fazer uma piada que foi bastante divulgada: que a AIDS podia se transmitir pela
picadura do mosquito. As minhas discussões com o Amato e com a “costela de Adão” do
Amato, que era o David Uip, se tornaram midiáticas também, principalmente por Uip ter sido
indicado pelo Amato para ser o infectologista do Tancredo Neves.
O David Uip fez uma entrevista nas páginas amarelas da Veja onde afirmava que o homem não
adquiria o HIV nas relações com mulher, só as mulheres é que adquiriam a infecção transmitida
pelos homens. Eu estava no Ministério nessa época, nós respondemos. Logo que voltei para São
Paulo, para a coordenação do programa novamente, o David Uip me convidou para um
encontro e eu dei uma aula. A minha mensagem era: a mulher transmite, sim, para o homem.
Primeiro porque na penetração, o homem entra em contato com secreções, com doenças
sexualmente transmissíveis etc., que tornam o pênis permeável às infecções. No final, ele falou:
“É, mas nunca falaram disso para mim.” O David Uip foi objeto de vários processos de homens que
adquiriram HIV/AIDS de mulheres, em razão da entrevista dele.
Lindinalva Teodorescu: Verdade, David Uip comenta essa entrevista na página 182 do nosso
livro [Teodorescu, Teixeira, 2015, p. 182, vol. 1].
Paulo Teixeira: Outra questão que era nosso motivo de discussão eram os leitos. Nós já não
tínhamos mais onde colocar, no pronto-socorro do Emílio Ribas, as macas. Os oito andares
estavam lotados, e as macas de um lado e de outro da parede praticamente impediam que você
transitasse. Enquanto isso, o Amato tinha criado seis leitos de UTI no Hospital das Clínicas. Um
dia, a diretora do Pronto-Socorro do HC e o David foram me visitar com a seguinte postura:
“Nossa decisão é a seguinte: nós vamos transferir os pacientes do Pronto-Socorro para o Emílio Ribas.”
Perguntei: “Vocês conhecem o Emílio Ribas? Vocês já visitaram o Emílio Ribas para ver a situação que
está?” E provoquei os dois, principalmente o David, quando disse: “É interessante que um hospital
com dois mil e duzentos leitos, com a maior verba para uma faculdade de medicina aqui no estado de São Paulo,
reserve somente seis leitos de UTI e queira transferir tudo para o Emílio Ribas.” Tive uma conversa com o
diretor do Emílio Ribas, que era o Paulo Ayrosa Galvão, e lembrei para ele qual era a missão do
Emílio Ribas: uma instituição centenária criada para fazer frente a epidemias que afetavam o país
ou o estado. Foi assim que, sem discussão, começamos a mandar pacientes para lá.
Lindinalva Teodorescu: Rosana Del Bianco fazia o terceiro ano de Residência no Emílio Ribas
quando atende o primeiro paciente suspeito de AIDS. Ela precisou de uma endoscopia e foi
procurar o Paulo Teixeira para ajudá-la. A partir daí passou a colaborar com a equipe do
Programa de AIDS. E a internação de pacientes de AIDS passou a ser feita no hospital Emílio
Ribas. O preceptor do serviço que aconselhou Rosana era Vasco Carvalho Pedroso de Lima. Em
1987, Orestes Quércia assume o governo de São Paulo. José Aristodemo Pinotti substituiu João
Yunes como Secretário da Saúde, Vasco Carvalho Pedroso Lima é afastado e Paulo Ayrosa
Galvão assume a direção do hospital Emílio Ribas e afasta Paulo Teixeira da Coordenação de
AIDS [Teodorescu, Teixeira, 2015, p. 60 e 187, vol. 1].
Paulo Teixeira: Com o Veronesi, participava de discussões, mas eram coisas horríveis, porque
ele não tinha compostura, não tinha qualquer atuação como chefe. O HC, como o Veronesi
brigou com o Amato, cada um criou o seu departamento de infectologia. Era a coisa mais
absurda. O Amato era mais sutil e subterrâneo. Mas ele mudou mais tarde. Ele mudou
completamente. A Valquíria, médica infectologista do ambulatório da equipe que montei, teve
uma discussão com ele e falou: “Amato, você não pode mudar as coisas por decreto. Você não vai mudar o
comportamento de uma pessoa por decreto. Não é assim que se faz.” Mais tarde, ele me contou que mudou
porque uma pessoa próxima dele, da família dele, adquiriu AIDS.
Quem teve muito papel nisso também foi a Maria Clara Gianna, e eles se tornaram amigos,
sobretudo depois dos anos 2000. Ele começou a fazer eventos onde eram premiados os
destaques relacionados com a epidemia de AIDS.
2. Escolas Paulistas e Estilos de Resposta à Epidemia
João Paulo Gugliotti: Sobre as escolas paulistas e estilos de resposta à epidemia. Ao escrever
sobre as escolas paulistas de enfrentamento da AIDS, emerge a ideia de estilos distintos de
produzir respostas institucionais, científicas e políticas, como no seu caso e no caso de Ricardo
Veronesi. Quais as diferenças e continuidades você destacaria entre essas abordagens em termos
de concepção do risco, clínica, prevenção, relação com o Estado e os movimentos sociais?
Paulo Teixeira: Nosso serviço tornou-se uma referência e também uma liderança em tudo que
se fazia no estado de São Paulo, com reflexos em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, como a
instância mais legítima para todos interessados em ter algum contato com a epidemia, com o
trabalho.
Havia uma rivalidade entre o programa da Secretaria da Saúde e o da Valéria Petri, que era da
Escola Paulista de Medicina. A Valéria não tinha um serviço estruturado. Houve uma disputa
para montar o programa. Achávamos que era melhor criar dentro da Secretaria de Saúde porque
assim ia ser um problema de saúde pública. Na faculdade ia ser sempre aquela coisa de atender
menos pessoas. Foi uma disputa.
A Valéria, na verdade, não construiu nada. Ela se tornou midiática por ter diagnosticado os dois
primeiros casos, descritos pela jornalista Letânia Menezes na revista Isto É. A Valéria não deu
continuidade a nada. Ela começou a atender os pacientes no consultório. Ela virou um fantasma
para mim e para o Jamal, porque quando acabava o dinheiro dos seus clientes, ela me ligava ou
ligava para o Jamal. Então ela nunca fez escola nem constituiu um programa que tivesse
continuidade. Ela foi da mídia para o consultório. Isso existe até hoje.
A diferença de abordagem era radical. Nós, baseados nos compromissos com a saúde pública,
com os direitos humanos, contra a discriminação, contra o estigma, e a distribuição gratuita de
medicamento era uma batalha grande. O Amato era aquele que eu já contei. Então, a minha
relação com o Amato foi nesses termos. Só que o Amato me respeitava. Em encontros onde eu
fazia apresentação e ele estava na plateia, ele participava dos debates, elogiava a qualidade da
apresentação. Ele tinha esse mérito. Ele me respeitava, assim como respeitava outros que
estavam em volta. A abordagem dos dois serviços era muito radical. O Instituto de Saúde tinha
uma abordagem multidisciplinar. Logo de cara tinha psicólogos, as pessoas eram quase
voluntárias, tinha até astrólogo. Era uma coisa muito aberta. Virou um ambiente onde todo
mundo ia. Não tinha resposta, mas oferecíamos apoio.
3. São Paulo como Laboratório e o Programa Nacional
João Paulo Gugliotti: São Paulo funcionou como um laboratório para o programa nacional?
Lindinalva Teodorescu: O Programa Nacional de AIDS foi criado em 1986. Paulo foi
trabalhar com a Lair Guerra em 1992, quando de novo é afastado da coordenação do programa
pelo governo Fleury. Na primeira fase da gestão de Lair (1986 -1990) ela teve postura bastante
autoritária e conservadora. Hesitava em promover o uso do preservativo porque a igreja era
contra. Só passou a promover o uso de preservativo a partir de 1989. Em relação aos programas
de redução de danos, a mesma se mostrou reticente durante toda a primeira gestão. Seguia o
modelo americano. Não apoiou o Programa de Redução de Danos de Santos quando foi
brutalmente interrompido pelas autoridades locais, nem o de Salvador, no do CETAD da UFBA.
Só passou a criar Programas de Redução de Danos 1995. Embora campanhas veiculadas desde
1992 com peças publicitárias na TV alertando para a contaminação por uso de drogas injetáveis.
Lair deixa a coordenação em 1990 no governo de Fernando Collor sob críticas severas das
ONGs, principalmente a Abia. Volta em 1992 com nova postura. Monta uma equipe de peso e
convida Paulo Teixeira para criar um setor de articulação com as ONGs.
Paulo Teixeira: A Lair foi para Brasília e transferiu seu título de doutora. Como tinha
articulações políticas com deputados do estado dela e de estados do Nordeste, foi designada
coordenadora do Programa de Saúde da Mulher. Até o dia em que a equipe, toda ela de
especialistas em saúde da mulher, simplesmente expulsou a Lair do programa. Quando ela foi
liberada do programa de saúde da mulher, fez o mesmo jogo. Articulou, inclusive com o irmão
dela, para ocupar o programa de AIDS.
Lindinalva Teodorescu: O irmão Carlyle Guerra de Macedo, trabalhou na coordenação do
grupo de preparação estratégica de Pessoal de Saúde OPAS foi importante para sua designação,
porque facilitaria a arrecadação de fundos para o Programa.
Paulo Teixeira: Foi uma coisa contrária na AIDS: primeiro criam-se os programas nos estados,
bem depois é que cria um programa federal. São Paulo foi um laboratório. As pessoas iam para
lá, faziam visitas. A diferença da abordagem daquele programa que se criou dentro da Secretaria
da Saúde com aquele que estava dentro das clínicas, dentro da Escola Paulista, era radical.
4. Testagem e Bancos de Sangue
João Paulo Gugliotti: Havia discussões sobre a confiabilidade dos testes naquela época?
Paulo Teixeira: O problema era o seguinte: um serviço da França, um profissional cujo nome
não me recordo, defendeu uma tese que foi aceita por muitos bancos de sangue, que era fazer o
teste em pool. Pegar cinco soros e fazer um teste só. Essa onda veio para cá. Esse cara foi preso,
foi condenado pela justiça, eram dois anos de prisão. Muita gente daqui entrou nessa onda.
Rapidamente reunimos a equipe e com a participação da Mirtes Ueda, principalmente, uma
pesquisadora, ela foi assertiva: vai dar falso negativo e vai passar sangue infectado. Então
decidimos ali que não adotaríamos o pool, mas muitos bancos de sangue, ouvindo a história do
francês, começaram a adotar nos bancos de sangue aqui. Nos juntamos com a Vigilância
Sanitária da Secretaria da Saúde, responsável pela fiscalização do sangue. Quem era responsável
dentro da minha equipe era a Maria Clara Gianna. Maria Clara e Artur Kalichman tinham
acabado a residência de Saúde Pública na Santa Casa e se candidataram a ser parte da equipe do
Centro de Referência de AIDS e os contratei.
Lindinalva Teodorescu: Maria Clara verificava o número de doadores e o número de testes
adquiridos pelos bancos de sangue, se tivesse menos testes do que doadores era porque faziam o
teste em pool. Nesse caso, a Vigilância Sanitária acionava polícia. Maria Clara ia junto com polícia
no camburão e lacrava os bancos de sangue
Paulo Teixeira: Essa equipe, junto com a Vigilância Sanitária, e com o apoio da polícia,
começou a visitar os bancos de sangue que se espalhavam pela cidade de São Paulo. Quando
encontravam evidências de que aquele banco estava usando pool, lacravam imediatamente o
banco, independente de outras punições que pudessem receber. E assim fechamos um monte de
bancos de sangue. Fomos criando referências em AIDS no interior de São Paulo e esse serviço
dispunha dos medicamentos e do teste. O teste passou a ser liberado para todo mundo.
Lindinalva Teodorescu: A lei tornando obrigatória a realização do teste anti-HIV foi aprovada
em junho de 1986, entretanto a regulação da lei para que entrasse em vigor, a cargo da Secretaria
da Saúde só foi concluída em janeiro de 1988.
5. Direitos Humanos, Estigmas e Alianças
João Paulo Gugliotti: Desde o início, a resposta paulista à AIDS se articulou com movimentos
da sociedade civil, especialmente o movimento homossexual, como o Somos e o GAPA. Em um
cenário marcado por forte estigmatização moral, como você avalia hoje o papel dessas alianças
na construção de uma política de AIDS baseada em direitos humanos? E quais foram os
principais conflitos, inclusive dentro da própria saúde pública, para sustentar esse modelo de
diálogo com a sociedade civil?
Paulo Teixeira: Um exemplo é um dos projetos que criamos e lançamos: o projeto de troca de
seringas e agulhas. Para execução deste projeto, dependíamos de localizar na área mais provável
do uso de droga injetável em grupo e localizar um bar ou um estabelecimento que criava uma
caixinha dupla com dois compartimentos. Começamos a fazer divulgação. Os usuários de droga,
em geral à noite, jogavam as seringas usadas na caixinha e retiravam seringas estéreis e agulhas no
número que desejassem. O grupo é de quatro pessoas? Leva quatro. Cada um usa a sua. Tivemos
de novo a participação da sociedade civil nesse trabalho de campo, que provocou tanta celeuma,
tanto debate. Cheguei a ser indiciado pela polícia para explicar, porque era considerada uma
medida ilegal. O embate com Amato e com Veronezi se dava através da legitimidade que nós
tínhamos. Eles tinham que engolir. Podia ter preconceito, mas tinham que engolir. Como
cientistas, tinham que engolir. Coordenei o Programa Nacional de AIDS no Ministério da Saúde
em 2000. Haviam questões internas, apesar disso. Por exemplo, Lair era contrária à distribuição
de medicamentos, tanto pela sua opção evangélica. Ela era protestante e dirigia o programa. Por
isso foi expulsa da Saúde da Mulher, como evangélica. Só entendia, e.g., que se investisse algum
dinheiro nos afetados inocentes da epidemia: crianças e pessoas infectadas por transfusão
sanguínea. Ou seja, era uma leitura moralizante da ação em saúde.
Lindinalva Teodorescu: É verdade. No início, Lair era contra a distribuição de AZT [cf. p. 170
e 171, vol 1]. Depois mudou de opinião e, no início dos anos 1996, liderou uma passeata pelo
acesso aos medicamentos, juntos com as ONGs. [p. 198 vol. 1]. Lair Guerra é considera uma
desbravadora que levou o Programa de Nacional de AIDS nos rincões do Brasil, principalmente
nos estados do Nordeste e Norte.
Paulo Teixeira: Tinha uma outra discussão, bem no início, antes de aparecer os medicamentos,
que era melhor investir em prevenção do que em medicamentos que não curavam de qualquer
jeito. Na verdade, a história de investir em prevenção era a escola americana, norte-americana,
que era contrária à distribuição de medicamentos e sempre foi. Como maior contribuidora
financeira da Organização Mundial de Saúde, era meu ponto de embate quando assumi a
coordenação de AIDS.
6. Entre a Política da Diferença e a Política da Saúde Pública
João Paulo Gugliotti: Você menciona os conflitos com Néstor Perlongher, que criticava a
ênfase biomédica na AIDS a partir do sexo como uma forma de reinscrever a homossexualidade
no registro do desvio e da doença. Como foi viver, na prática, essa tensão entre a necessidade de
uma resposta pública urgente e o risco de reforçar processos de estigmatização?
Paulo Teixeira: Hoje parece ter sido muito simples, mas não foi. Era simplesmente bater na
tecla: este grupo, que nós não estamos estigmatizando, pelo contrário, estamos abrindo uma
porta, será afetado e varrido.
O Néstor era contra a prevenção. Não era que era contra a prevenção, é que achava que era um
controle do desejo, era o papo dele. Ele via os médicos com muita desconfiança, todos eles. Eles
vão colaborar inclusive porque achavam, por causa da história de achar que a homossexualidade
era doença, que a medicina classificava. Foi em 1985 só que saiu aqui no Brasil a desclassificação.
Foi o movimento que levou isso à frente, com atuação principal de Luiz Mott do GGB, Grupo
Gay da Bahia.
João Paulo Gugliotti: Até a década de setenta, a homossexualidade era descrita como distúrbio
mental. O epicentro da discussão de patologia vinha da psiquiatria. Se esperou depois da
despsiquiatrização da homossexualidade que as discussões seriam mais propositivas, se falaria em
bem-estar, em saúde, em exposição a estresse. E não, nos anos oitenta o debate envereda para a
epidemiologia. Então sai da psiquiatria e entra na epidemiologia. O Néstor tem essa discussão
que é bem interessante de como as ciências médicas operacionalizam a homossexualidade, mas
nunca a retiram da inscrição de uma doença.
Paulo Teixeira: Era um debate interessante. Era a história do desejo. Tinha muitos
homossexuais que não queriam saber dessa história de controlar, de prevenção, de parceiro
único. Era a discussão do parceiro único também. Nos Estados Unidos, por exemplo, a AIDS
criou um movimento de expiação do desejo. Ronald Reagan, que era o presidente de 1981 a
1989, começou uma política para fechar saunas. As polícias entravam nas saunas para fechar, e
eram espaços de sociabilidade. Os homens iam para se encontrar, paquerar. O Darcy Penteado,
que era uma figura forte do movimento gay naquela época, pintor, artista plástico, era o oposto
do Perlongher. Ele achava que os homossexuais tinham ido longe demais, que não sabiam, que
aquilo que buscavam já não era mais desejo. Ele contava que na sauna nos Estados Unidos você
entrava e tinha um buraco e você colocava o pênis lá e não sabia quem era que estava te
penetrando, não interessava isso. Ele falou que tinha se perdido já a afetividade. Ele fazia uma
crítica da sede do desejo sem afeto.
Paulo Roberto Teixeira, à esquerda, e Lindinalva Teodorescu, à direita.
Congresso Internacional de AIDS e Redução de Danos por uso Abusivo de Drogas.
São Paulo, 1998.
Acervo Pessoal de Lindinalva Teodorescu.
Referências:
Teodorescu LL, Teixeira PR. Histórias da AIDS no Brasil: as respostas governamentais à epidemia de
AIDS. Brasília: Ministério da Saúde; 2015, vol 1.











