0104/2026 - EFEITO DA PANDEMIA DO COVID-19 NA INGESTÃO E COMPORTAMENTO ALIMENTAR DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES:UMA REVISÃO INTEGRATIVA
EFFECT OF THE COVID-19 PANDEMIC ON THE DIETARY INTAKE AND EATING BEHAVIOR OF CHILDREN AND ADOLESCENTS: AN INTEGRATIVE REVIEW
Autor:
• Tamara Kely dos Santos Silva - Silva, TKS - <tamarakely85@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0009-0009-6965-5906
Coautor(es):
• Catarina Paiva Verona Lima - Lima, CPV - <medicinacatarina@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0646-4450
• Desirrê Morais Dias - Dias, DM - <desirremorais@hotmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0006-3774-4099
Resumo:
A infância e a adolescência são fases cruciais para a formação de hábitos alimentares, os quais impactam diretamente a saúde. Durante a pandemia de Covid-19, o isolamento social influenciou significativamente o comportamento alimentar de crianças e adolescentes. Esta revisão integrativa analisou artigos publicados entre 2020 e 2025 nas bases BVS e PubMed. Os dados revelaram aumento no consumo de frutas, legumes e vegetais por 19% dos participantes, com redução de margarina, manteiga e óleos. Crianças acompanhadas pelos pais durante o preparo das refeições apresentaram melhores hábitos alimentares. Em contrapartida, 41,8% relataram maior ingestão de hambúrguer, pizza e salgadinhos, e 32,2% aumentaram o consumo de refrigerantes e sucos. O cenário pandêmico evidenciou tanto melhorias quanto prejuízos alimentares, influenciados pela presença familiar, emoções e acesso aos alimentos. Conclui-se que é fundamental promover uma alimentação saudável e a prática de atividade física para fortalecer o sistema imunológico e prevenir doenças crônicas entre crianças e adolescentes.Palavras-chave:
Criança; Adolescente; Hábitos Alimentares; Alimentos Ultraprocessados; Isolamento SocialAbstract:
Childhood and adolescence are critical stages for the development of eating habits, which directly affect health. During the Covid-19 pandemic, social isolation significantly influenced the eating behavior of children and adolescents. This integrative review analyzed articles published between 2020 and 2025 in the BVS and PubMed databases. Results showed that 19% increased consumption of fruits, vegetables, and legumes, while reducing margarine, butter, and oils. Children accompanied by their parents during meal preparation exhibited healthier eating patterns. Conversely, 41.8% increased intake of hamburgers, pizza, and snacks, and 32.2% consumed more soft drinks and juices. The pandemic scenario revealed both improvements and setbacks in dietary habits, influenced by family presence, emotions, and food availability. It is concluded that promoting healthy eating and physical activity is essential to strengthen the immune system and prevent chronic diseases among children and adolescents.Keywords:
Child; Adolescent; Eating Habits; Ultra-Processed Foods; Social IsolationConteúdo:
A infância é uma fase crítica para o desenvolvimento de comportamentos alimentares, sendo considerada crucial na prevenção de desvios nutricionais e na promoção de saúde. Dentro desse contexto, a alimentação infantil deve fornecer tanto quantidade suficiente de nutrientes como qualidade alimentar, a fim de assegurar um bom desenvolvimento e crescimento. Os hábitos alimentares adequados adotados desde a infância auxiliam no fortalecimento do sistema imunológico e no estado de saúde do indivíduo até a fase adulta. Assim, as crianças que não apresentam uma alimentação saudável e balanceada têm maior chance de apresentar desvios nutricionais, como o baixo peso, sobrepeso e obesidade. Esses dois últimos são considerados fatores de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis como hipertensão, doenças cardiovasculares, câncer e diabetes mellitus1.
Assim, uma vez que, os hábitos alimentares e preferências alimentares são formados na infância, é importante que a criança receba alimentos fontes de vitaminas, minerais, fibras e calorias. Para que isso ocorra é necessário um cardápio balanceado que contenha os nutrientes essenciais para um crescimento e desenvolvimento saudável 2.
Depois do período da infância, a adolescência é o segundo período crucial para a formação do comportamento e hábitos alimentares. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS)3, são considerados adolescentes os indivíduos entre 10 e 19 anos, enquanto no Estatuto da Criança e Adolescente, essa faixa etária está classificada entre 12 e 18 anos de idade. Durante a puberdade, período que se inicia entre os 10 e 14 anos de idade, é exigido uma demanda maior do consumo de alimentos altamente nutritivos, pois a alimentação adequada e balanceada na adolescência auxilia no desenvolvimento dessa fase4.
A adolescência também é uma fase de intensas mudanças, dos quais os hábitos alimentares inadequados e conhecimento assimilado tem relevância sobre as particularidades da vida adulta, correlacionadas à alimentação, saúde, aversões, preferências e desenvolvimentos psicossocial. O consumo alimentar dos adolescentes tem sido caracterizado pelo elevado consumo de alimentos processados e ultraprocessados, os quais são ricos em gorduras, açúcares e sódio e em contrapartida os mesmos fazem baixo consumo de alimentos in natura como frutas e hortaliças5.
Os hábitos alimentares inadequados associados a inatividade física representam um importante fator de risco para o surgimento de obesidade e outras doenças crônicas não transmissíveis. É notório que o comportamento alimentar inapropriado na adolescência tende a se estender para a vida adulta, elevando os riscos de comorbidades nesses indivíduos5.
Em dezembro de 2019 o mundo foi assolado por uma pandemia causada pelo vírus (SARS-COV-2), que causou a doença do Covid -19, originada da cidade de Wuhan (China), sendo considerada uma síndrome respiratória aguda grave. No dia 11 de Março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou pandemia mundial e impôs medidas de prevenção para reduzir a transmissão do vírus, como o isolamento social, fechamento de escolas, universidades, comércios, e o uso de máscaras descartáveis e álcool em gel2.
As estratégias para evitar o espalhamento do vírus COVID-19 impactaram diretamente na alimentação, já que a restrição da locomobilidade dificulta na compra de alimentos. A consequência que pode ser observada diante deste cenário é o aumento do consumo de alimentos processados e enlatados que são mais fáceis de ser armazenados e preparados e por terem maior durabilidade. Esses alimentos possuem baixo valor nutricional e alto valor calórico, contribuindo dessa forma para o surgimento de sobrepeso e obesidade em crianças e adolescentes6.
Estudos com crianças e adolescentes durante a pandemia observaram que o isolamento social levou a mudanças comportamentais nesse grupo, aumento do uso de telas, inatividade física, alimentação inadequada, ganho de peso e alterações emocionais como estresse e ansiedade2. Essas alterações na alimentação podem gerar um impacto negativo na saúde de crianças e adolescentes, como prejuízo na função imunológica e no desenvolvimento infantil 7,8.
Dessa forma, a presente revisão descreveu os efeitos da pandemia do COVID-19 sobre a ingestão e comportamento alimentar de crianças e adolescentes. Diferentemente de outras revisões, que se limitaram ao primeiro ano da pandemia, este trabalho contemplou estudos publicados entre 2020 e 2025, o que permitiu incorporar dados recentes e pós-pandêmicos, ampliando a compreensão dos efeitos prolongados do confinamento sobre a alimentação de crianças e adolescentes. Além disso, esta revisão relacionou aspectos nutricionais, socioeconômicos e comportamentais da alimentação das crianças e adolescentes desde o início da pandemia. A análise discutiu como fatores como escolaridade materna, insegurança alimentar, tempo de tela, convívio familiar e nível de atividade física interagem complexamente com o comportamento alimentar durante o confinamento.
2. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão bibliográfica integrativa, cuja pesquisa foi realizada entre os meses de dezembro de 2022 a abril de 2025, nas bases de dados da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e PUBMED. A estratégia de busca foi formada pelos seguintes termos, de acordo com os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): “comportamento alimentar”/ “eating behavior”, “adolescentes”/ “adolescents”, “covid-19” OR “covid-19 pandemic”, “pandemia/ pandemic” interligados pelo operador booleano AND, formando os seguintes termos de busca: “comportamento alimentar” AND “adolescentes” AND “covid-19 OR pandemia covid-19”, com suas respectivas terminologias em inglês. Foram incluídos nesta revisão artigos originais publicados entre os anos de 2020 a 2025, em inglês e português, cuja amostra era composta de crianças (idade entre 2 a 9 anos) e adolescentes (idade entre 10 e 19 anos). Para exclusão de trabalhos, foram avaliados a duplicidade de artigos, amostra fora da idade requerida (2 a 19 anos) e estudos do tipo relato de caso, revisões bibliográficas narrativas e sistemáticas.
Com a busca, de acordo com os critérios descritos, foram encontrados 21.027 artigos, sendo 20.607 na plataforma BVS e 420 na plataforma PUBMED. A partir disso, foi realizada a revisão de títulos e resumos com base nos critérios de elegibilidade. Os artigos relevantes seguiram para a leitura do texto completo. Os seguintes dados foram extraídos dos estudos: 1) informações sobre o artigo (autores, ano de publicação, delineamento do estudo); 2) população estudada (idade, características, como o gênero); 3) objetivos; 4) resultados (Comportamento alimentar de crianças/adolescentes pré e pós pandemia da Covid-19).
3. RESULTADOS
A partir da busca e seleção, foram encontrados 21.027 artigos. Desse total, 82 artigos foram pré-selecionados com base no título, sendo que, 30 artigos foram selecionados pelo resumo, seguindo para a leitura na íntegra: 2 foram excluídos por serem artigos de revisão, 6 artigos foram excluídos devido a amostra, 4 artigos excluídos pelo tema e 1 artigo excluído pelo ano, totalizando no final 17 artigos que compuseram esta revisão (Figura 1).
Desses 17 artigos, 3 trabalhos avaliaram o impacto da pandemia sobre os hábitos alimentares e alterações de peso de crianças e adolescentes; 2 artigos avaliaram os hábitos alimentares de crianças e adolescentes durante o confinamento e o impacto causado pela desigualdade social; 4 artigos avaliaram os hábitos alimentares dos adolescentes durante o confinamento; 6 estudos avaliaram o comportamento alimentar e prática de atividade física; e 1 trabalho comparou o comportamento alimentar antes e durante a pandemia. Além disso, 2 artigos de mesma autoria avaliaram em um estudo as mudanças dos hábitos alimentares durante o isolamento social na América Latina (Brasil, Chile e Colômbia) e na Europa (Itália e Espanha) e outro estudo avaliou o consumo de alimentos ultraprocessados e as mudanças na atividade física durante a pandemia nos país supracitados. De forma interessante, 1 trabalho avaliou o impacto do primeiro ano de pandemia nas dificuldades alimentares de crianças com transtorno do espectro autista (TEA) (Tabela 1 do Material Suplementar).
4. DISCUSSÃO
A pandemia de COVID-19 impactou significativamente os padrões de ingestão e comportamento alimentar de crianças e adolescentes, revelando e aprofundando desigualdades pré-existentes. O fechamento de escolas, a interrupção de programas de alimentação escolar e o aumento da insegurança econômica contribuíram para alterações substanciais na qualidade e na regularidade das refeições. Esses efeitos não ocorreram de forma homogênea: populações socialmente vulneráveis foram desproporcionalmente afetadas, que destacaram o crescimento da insegurança alimentar em lares com crianças durante o período pandêmico. A pandemia afetou a oferta e demanda de alimentos, reduziu o poder de compra e a capacidade de produzir e distribuir alimentos, afetando especialmente os mais vulneráveis9,10. Para além disso, houveram diversas mudanças nos padrões alimentares entre as crianças e adolescentes.
Os 17 estudos revisados (Tabela 1 do Material Suplementar) apontaram uma tendência ao aumento do consumo de alimentos ultraprocessados e comfort foods, especialmente entre adolescentes11–13. No entanto, melhoras pontuais também foram observadas, particularmente entre grupos com maior suporte familiar ou pertencentes a classes sociais mais favorecidas14–16.
No estudo de Giannini et al.2 foi observado que os adolescentes aumentaram o consumo de alimentos ultraprocessados como hambúrgueres, pizza, salgadinhos, refrigerantes e suco, sendo mais frequente o consumo desses alimentos no grupo de meninas. O autor ainda destaca que o aumento do consumo desses alimentos está relacionado com fatores psicológicos como ansiedade, tédio, tristeza e estresse ocasionado pela pandemia. Em concordância a isso, Pettersen et al.17 observaram que os problemas alimentares relacionados com qualidade da dieta e satisfação corporal estavam restritos ao grupo feminino participante do estudo.
Os estudos avaliados nesta revisão corroboram os achados de Carvalho et al.18 que analisou mais de 674 mil registros de adolescentes acompanhados na Atenção Primária à Saúde (APS) entre 2015 e 2019. O estudo revelou que, apesar de certa melhora no consumo combinado de alimentos saudáveis como feijão, frutas, legumes e verduras, a prevalência de consumo de alimentos ultraprocessados (como hambúrgueres, bebidas adoçadas e guloseimas) manteve-se elevada, com tendência crescente nacionalmente. Esses dados revelam que o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados já vinha apresentando um aumento antes mesmo da pandemia do Covid-19.
Esse aumento na prevalência de consumo de alimentos ultraprocessados entre adolescentes tem sido observado em outros inquéritos nacionais19,20. A ingestão elevada dos alimentos ultraprocessados como refrigerantes, salgadinhos e guloseimas em geral está associado o aumento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT’s) como obesidade, diabetes, hipertensão, câncer, e problemas cardiovasculares e essas comorbidades ocorre devido esses alimentos serem ricos em açúcares, sódios e gorduras21. Além disso, os hábitos ruins, com comidas altamente palatáveis e de fácil digestão, desequilibram o controle de fome-saciedade13.
De forma contrária, o estudo de Radwan et al.22 mostrou redução do consumo de fast food e aumento do consumo de refeições feitas em casa, o que pode estar relacionado ao fechamento dos comércios, medo de contaminar através dos alimentos e das entregas feitas. Essas mudanças estiveram relacionadas com um padrão alimentar mais saudável, uma vez que, houve aumento do consumo de frutas e redução do consumo de alimentos ricos em açúcares e gordura22.
Um estudo realizado em diferentes países da Europa (Itália e Espanha) e da América Latina (Brasil, Chile e Colômbia) observou que os adolescentes brasileiros se destacaram no consumo de leguminosas em relação aos outros países. Também houve um aumento no consumo de vegetais durante o isolamento na Espanha, Brasil e Chile. Além disso, o estudo apontou que 49,3% dos adolescentes espanhóis aumentaram o consumo de frutas, resultado semelhante aos adolescentes italianos16. Esses resultados são importantes uma vez que os vegetais e leguminosas são fontes de micronutrientes e compostos bioativos, importantes ao bom funcionamento do organismo7.
Dessa forma, apesar de diversos estudos apontarem um aumento no consumo de frituras e doces12,23,24, de forma interessante também foi observado um aumento no consumo de frutas, verduras e leguminosas16,12,24,25. As crianças e adolescentes que apresentaram uma alimentação saudável durante o confinamento se deu devido à mudança do comportamento alimentar de suas famílias, visto que, seus familiares passaram a maior parte do tempo dentro de suas casas, trabalhando home office, podendo, assim, passar a maior parte do tempo com os seus filhos e preparando as refeições26.
Vale ressaltar, que a qualidade da alimentação durante o isolamento social de crianças e adolescentes está, muitas vezes, relacionada a fatores socioeconômicos e níveis de escolaridade materna e/ou paterna27. Assim, alguns estudos mostraram que durante a pandemia as famílias de baixa renda se viram com seus recursos financeiros escassos ou desempregados, e sobrecarregados com tarefas domésticas, ocasionando assim, para uma maior busca por alimentos prontos e rápidos de serem preparados14. No entanto, Basdas et al.23 destacam que o índice de massa corporal, o gênero e qualidade de sono também impactam diretamente os hábitos alimentares, além do que se espera quando comparado a fatores financeiros e de escolaridade.
Em relação a escolaridade materna, estudos mostram que uma baixa escolaridade materna está relacionada ao aumento do consumo de produtos industrializados, mais baratos e menos saudáveis28,29. Dessa maneira, a escolaridade dos pais influência nos hábitos alimentares dos seus filhos, pois os pais com maior escolaridade incentivam os seus filhos a terem uma alimentação saudável e balanceada22.
Outro fator importante que impacta o comportamento alimentar é o tempo gasto pelas crianças e adolescentes assistindo televisão. Um estudo realizado na Espanha com crianças e adolescentes durante a pandemia do Covid-19 observou que o aumento do tempo de tela está associado a pioras no comportamento alimentar, levando a um baixo consumo de frutas, vegetais, peixes, leguminosas e uma maior ingestão de fast food e doces25.
Em consonância com esse resultado, foi observado que durante o isolamento social ocorreu a diminuição da atividade física, e que o sedentarismo está relacionado ao aumento do consumo de lanches e doces, acarretando em um aumento do peso corporal de crianças e adolescentes30,31.
O isolamento social e a incapacidade das crianças e adolescentes de praticar qualquer atividade física agravaram a situação, levando esse grupo a desenvolver doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) como obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares correlacionadas a um comportamento alimentar inadequado15. Além disso, a prática de atividades contribui para as relações sociais, que foram reduzidas ao ciclo familiar durante a pandemia, acarretando danos na saúde mental. Terán et al.32 encontraram 47,2% dos adolescentes com sintomas de ansiedade e 34,4% com sintomas depressivos, o que aumentava a chance de comportamentos de risco, como preocupação excessiva com peso e imagem corporal.
Outro ponto interessante a ser discutido foi a mudança do status de atividade física em países com elevadas taxas de excesso de peso como o Brasil e Chile. Foi observado que a maioria dos adolescentes brasileiros e chilenos apresentavam-se sedentários durante o isolamento social. Crianças e adolescentes que passaram por um período mais longo de comportamento sedentário foram mais expostos e induzidos a propagandas de alimentos ultraprocessados. De forma complementar, o estudo de Ruiz-Roso et al.11 mostrou que o comportamento sedentário foi associado ao baixo consumo de frutas e vegetais e em contrapartida um alto consumo de lanches, fast-food e bebidas calóricas11.
De forma interessante, foi observado um aumento significativo no consumo de bebidas açucaradas em diversos estudos13,14,26,33. Esse consumo esteve associado ao comer emocional e ao aumento do peso em alguns estudos26,33.
Por fim, comparando o comportamento alimentar de crianças com transtorno do espectro autista, que por si só já leva a restrições alimentares, 61% dos cuidadores afirmaram que houve piora das restrições, mas em contrapartida, 31% referiram melhora dos hábitos alimentares, devido a maior participação da família34.
A alimentação dos adolescentes brasileiros reflete um cenário complexo, no qual as escolhas alimentares são profundamente influenciadas por determinantes sociais e econômicos. Dessa forma, os padrões alimentares encontrados estão diretamente relacionados aos determinantes socioeconômicos. Famílias com menor escolaridade materna e baixa renda apresentam menor acesso a alimentos saudáveis, o que expõe essas famílias a vivenciarem situações de fome e insegurança alimentar. Além disso, os adolescentes dessas famílias tendem a consumir mais alimentos com baixo valor nutricional, aumentando os riscos de inadequações dietéticas e desenvolvimento de doenças crônicas ao longo da vida35,36.
No Brasil, segundo o II Inquérito Nacional VIGISAN (2022) revelou que a fome dobrou em lares com crianças de 0 a 10 anos após a pandemia do Covid-19, evidenciando a vulnerabilidade desse grupo diante da perda de renda familiar e da interrupção de programas alimentares escolares. Com o fechamento das escolas, a alimentação fornecida pelo PNAE — muitas vezes a principal fonte nutricional diária para milhares de crianças — foi substituída por cestas básicas, nem sempre adequadas em qualidade e variedade. Essa situação levou ao aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares, gorduras e aditivos, e à redução da ingestão de frutas, hortaliças e proteínas, comprometendo a qualidade da dieta infantil e favorecendo distúrbios alimentares como obesidade precoce, deficiências nutricionais e hábitos alimentares inadequados que podem perdurar ao longo da vida37,38.
A combinação desses dados permite observar que o comportamento alimentar de crianças e adolescentes está atrelado à estrutura social em que estão inseridos. A convivência familiar, o capital educacional dos pais e a presença de políticas públicas de alimentação escolar, regulação da publicidade e acesso à alimentação saudável são componentes essenciais para a formação de hábitos alimentares adequados.
5. CONCLUSÃO
A pandemia da COVID-19 provocou alterações profundas nos padrões alimentares de crianças e adolescentes, revelando não apenas uma crise sanitária, mas também um agravamento de desigualdades sociais preexistentes. Do ponto de vista nutricional, observou-se um aumento expressivo no consumo de alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas, paralelamente a uma redução da ingestão de frutas, vegetais e alimentos in natura entre populações vulneráveis. Essas mudanças se associam ao maior risco de doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade e diabetes, além de comprometerem o adequado crescimento e desenvolvimento infantojuvenil.
Em termos comportamentais, foi observado que o confinamento, o estresse emocional, o aumento do tempo de tela e a redução da atividade física contribuíram para padrões alimentares desregulados. Episódios de comer emocional, maior exposição à publicidade alimentar e a ausência de rotina agravaram escolhas alimentares inadequadas, principalmente entre adolescentes e meninas.
Além disso, fatores como renda familiar, escolaridade parental e segurança alimentar foram determinantes para a qualidade da dieta. Famílias de menor renda e baixa escolaridade enfrentaram maior dificuldade de acesso a alimentos saudáveis, o que reforça a necessidade de políticas públicas que garantam equidade nutricional. Por outro lado, lares com maior capital social e envolvimento familiar conseguiram promover hábitos mais saudáveis, evidenciando o papel central da família na formação de comportamentos alimentares.
Diante desse cenário, é essencial fortalecer ações intersetoriais que promovam educação alimentar e nutricional, ampliem o acesso a alimentos saudáveis e incentivem a prática de atividade física. A proteção da saúde infantojuvenil exige, portanto, uma abordagem que considere as dimensões biológicas, emocionais e sociais da alimentação.
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