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0105/2026 - Como decolonizar a obstetrícia? Apontamentos para uma prática antirracista e feminista na perspectiva do SUS
How to decolonize obstetrics? Notes for an anti-racist and feminist practice from the perspective of the SUS

Autor:

• Bianca Alves de Oliveira Zorzam - Zorzam, BAO - <bianca.zorzam@usp.br>
ORCID: https://orcid.org/0009-0006-5645-6746

Coautor(es):

• Carmen Simone Grilo Diniz - Diniz, CSG - <sidiniz@usp.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0069-2532

• Cláudia Malinverni - Malinverni, C - <claudia.malinverni@isaude.sp.gov.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2218-283X

• Glauce Cristine Vieira Ferreira - Ferreira, GCV - <glaucesoares@usp.br.>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3159-3123



Resumo:

A assistência ao parto no Brasil é marcada pelo excesso de intervenções como induções, cesáreas e episiotomias, bem como pela baixa adesão às práticas humanizadas e seguras. Isso resulta em altas taxas de mortalidade materna e queixas de violência obstétrica, atingindo desproporcionalmente as mulheres pobres e negras. Apesar das recomendações das políticas públicas para expansão do trabalho das parteiras, tais práticas encontram resistências. Esta é uma pesquisa qualitativa que entrevistou em profundidade dois grupos de parteiras (as tradicionais no Amazonas e as obstetrizes formadas pela USP) sobre como cada um têm construído suas práticas de cuidado, em contextos de adversidades ao seu trabalho. A análise partiu do marco teórico dos estudos de gênero e das perspectivas decoloniais de conhecimento. Embora muito diferentes em termos culturais e econômicos, na reflexão sobre suas práticas de trabalho, encontramos três eixos temáticos comuns aos dois grupos: práticas como resistência, como afetividade e como subversão. Cada grupo descreve suas práticas como ato político para proteção dos direitos das mulheres e busca sua inserção no SUS ao mesmo tempo em que procura construir novas narrativas antirracistas e antimisóginas sobre seus corpos e o evento do parto.

Palavras-chave:

obstetrícia decolonial, práticas de cuidado, obstetrizes, parteiras tradicionais.

Abstract:

Childbirth care in Brazil is marked by an excess of interventions such as inductions, cesarean sections and episiotomies, as well as low adherence to humanized and safe practices. This results in high rates of maternal mortality and complaints of obstetric violence, disproportionately affecting poor and black women. Despite recommendations from public policies to expand midwives' work, such practices are met with resistance. This is a qualitative research that interviewed in depth two groups of midwives (traditional midwives in Amazonas and midwives trained at USP) about how each has constructed their care practices, in contexts of adversity to their work. The analysis was based on the theoretical framework of gender studies and decolonial perspectives of knowledge. Although very different in cultural and economic terms, when reflecting on their work practices, we found three thematic axes common to both groups: practices such as resistance, such as affection and such as subversion. Each group describes their practices as a political act to protect women's rights and seeks their inclusion in the SUS at the same time as they seek to construct new anti-racist and anti-misogynistic narratives about their bodies and the event of childbirth.

Keywords:

decolonial obstetrics, care practices, midwives, traditional midwives.

Conteúdo:

Introdução

A partir da perspectiva das categorias de gênero e raça, pode-se interpretar a construção das práticas médicas ginecológicas e obstétricas e sua institucionalização como um conjunto que instaura e explicita lugares de subalternidade para mulheres, em especial pretas, pardas e indígenas. Essa construção é tributária do Iluminismo, quando o corpo feminino era interpretado como uma espécie de máquina e o parto, descrito desde um modelo mecanicista1,2. Isso gerou uma série de consequências para o pensamento médico, como a pessimização do nascimento vaginal e das capacidades reprodutivas femininas.
Ainda hoje, a compreensão do corpo parturiente defeituoso e demandante de tutela3, como uma problemática proposta pela crítica de gênero, subjuga as mulheres à inferioridade de seus corpos. Isso se traduz nas inúmeras intervenções desnecessárias no parto, às quais estão associados maiores riscos e danos, como demonstra o último inquérito “Nascer no Brasil”4. Nesse contexto, a assistência obstétrica é frequentemente marcada pela violência, sendo as mulheres invisibilizadas no seu direito à autonomia e autodeterminação nas escolhas sobre seus próprios corpos5.
Se as concepções de gênero definiram a hierarquia dos corpos e dos lugares das mulheres na medicina e na sociedade, as dimensões de raça estão igualmente presentes no conhecimento médico moderno, base de muitos conceitos racistas que permearam e sobrevivem no cotidiano da obstetrícia médica.
No século XIX, mulheres negras estadunidenses foram submetidas a um experimento implacavelmente doloroso, racista e antiético, que daria ao médico Marion Sims o título de “pai da moderna ginecologia”. Sabe-se que três delas foram operadas sem anestesia por até 30 vezes, em um período de quatro anos. Sims enaltecia a “capacidade” das mulheres negras de suportar a dor6. Essa memória discursiva persiste até hoje: pretas e pardas são as que mais sofrem violência no parto e morrem por causas evitáveis no Brasil7.
À dimensão de raça soma-se outro marcador social, o de classe, ambos sustentando uma realidade que se repete em mundo todo: milhares de mortes evitáveis acontecem anualmente por complicações relacionadas à gravidez e ao parto. Na América Latina e no Caribe quase 8.000 pessoas morrem anualmente durante a gravidez, parto e em até 42 dias pós-parto8. Pobres e negras estão, portanto, submetidas a um maior risco de morte e morbidade em consequência do racismo estrutural9 e da desigualdade de gênero. Durante a pandemia de covid-19, com a disseminação massiva de desinformação sobre o vírus, a doença e sua prevenção, foi possível observar como os marcadores de classe e raça se acentuam quando analisamos quem morre mais em função da cor da pele e da estratificação social10,11.
Segundo o Ministério da Saúde, entre 1996 e 2018 foram registrados 38.919 óbitos maternos, 67% decorrentes de causas obstétricas diretas – complicações na gravidez, no parto e no pós-parto ocorridas por omissão, intervenções e tratamentos incorretos ou por uma cadeia resultante de qualquer uma dessas causas. As principais, hipertensão, hemorragia, infecção puerperal e aborto, todas completamente evitáveis. Pretas e pardas representaram 65% dessas mortes12.
No maior inquérito nacional na saúde materna, na comparação com as brancas, mulheres negras apresentaram maior risco de pré-natal inadequado, de não vinculação à maternidade, ausência de acompanhante e peregrinação para o parto, além de menor acesso à anestesia local para episiotomia. Como no caso centenário do doutor Sims, nas Américas, ainda hoje, pretas e pardas continuam sendo cortadas a sangue frio sem anestesia. Ainda, mulheres que se autodeclararam de cor parda também tiveram maior risco de pré-natal inadequado e ausência de acompanhante, quando comparadas às brancas, evidenciando as disparidades raciais na atenção à gestação e ao parto, com pior cuidado recebido entre mulheres pretas e pardas7.
Neste trabalho, fruto de uma pesquisa de doutorado, este artigo relata a convergência entre as parteiras tradicionais e as obstetrizes brasileiras, com experiência no acompanhamento de partos sem a presença de médicos e grandes dificuldades para o reconhecimento e inserção profissional. Mostramos que há caminhos para uma obstetrícia antirracista e antimisógina, que decoloniza os corpos grávidos e os cuidados oferecidos no momento do parto. No contexto de subversão do conhecimento racista, misógino e eurocêntrico, nos propomos a registrar e compreender, sob uma abordagem crítica de gênero e do pensamento decolonial, os conhecimentos e as práticas de cuidado de parteiras tradicionais e obstetrizes brasileiras, como ofícios de resistência diária e de um saber que fortalece as lutas de classe, raça e gênero pelo respeito às mulheres quanto às suas decisões sobre onde e como parir.

Metodologia
O pensamento decolonial, ancorado no conceito de epistemicídio e na ecologia dos saberes13, facilitou a compreensão sobre como os conhecimentos de parteiras tradicionais sobrevivem pela oralidade, promovendo cuidados com justiça e equidade nos lugares onde quase não há médicos. Especificamente quanto ao nascimento e parto, os constructos de gênero e decoloniais possibilitaram o diálogo com autoras(es) que discutem como o processo colonizatório brasileiro contribuiu para a formação de uma obstetrícia estruturalmente racista14 e patriarcal15. Nesse sentido, o conceito da interseccionalidade16 possibilita a compreensão das desigualdades em saúde da mulher, particularmente a sexual e reprodutiva.
Utilizamos o conceito de gênero como categoria que, no social, corresponde ao sexo anatômico e fisiológico das ciências biológicas, logo, é o sexo socialmente construído. Ou, como define Rubin, gênero é o conjunto de disposições pelas quais uma sociedade transforma a sexualidade (e a reprodução) biológica em produtos da atividade humana17.
Na assistência ao parto é comum aquilo que chamamos de “cegueira de gênero”, quando profissionais aceitam crenças da cultura sexual sobre o corpo feminino, esse “sexo socialmente construído”, como se fossem explicações científicas e objetivas sobre o corpo e a sexualidade. O corpo da mulher é tido como de natureza defeituosa, imprevisível e potencialmente perigosa, sendo imprescindíveis, portanto, intervenções corretoras dessas imperfeições. De um lado, tal crença leva à supervalorização dos benefícios da tecnologia e, de outro, à subestimação ou mesmo invisibilidade (cegueira) dos efeitos colaterais dessas intervenções18. O fato das parteiras, formadas ou não, priorizarem a não intervenção, permitindo o desenrolar fisiológico do parto e apoiando as mulheres ao invés de substituí-las, implica necessariamente uma posição contra-hegemônica, de resistência ao modelo centrado no médico, de intervenção de rotina.
Para compreender o processo que orienta as práticas de parteiras tradicionais e obstetrizes, realizamos entrevistas em profundidade – 12 profissionais, 6 parteiras e 6 obstetrizes, entre janeiro e agosto de 2022. Todas as entrevistas foram gravadas, após o consentimento das participantes; o material foi transcrito integralmente.
O corpus foi formado por entrevistas e registros em cadernos de campo. Os achados foram organizados em dois grupos distintos: participantes sem treinamento formal (parteiras tradicionais) e graduadas no curso de obstetrícia da Escola de Artes Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Para conteúdos específicos, a discussão foi organizada de forma a compreender as realidades de cada grupo separadamente. No entanto, para reflexões compartilhadas fizemos um diálogo entre os dois grupos e a literatura.
As parteiras tradicionais foram entrevistadas presencialmente, durante uma viagem de dez dias pela Amazônia, o que possibilitou breve imersão no território de cada uma delas. No caso das obstetrizes, em função da proximidade da pesquisadora com a realidade das entrevistadas, apenas a primeira foi presencial, sendo as demais na modalidade remota.
A leitura exaustiva do material transcrito permitiu sistematizar as falas de cada grupo, segundo a percepção laboral, a relação com as parturientes e instituições de atenção obstétrica. Buscamos compreender as diferenças nas práticas de parteiras tradicionais e obstetrizes, mas sobretudo o que elas tinham em comum. A análise temática de conteúdo foi empregada conforme descrito por Minayo19, emergindo três grandes eixos:
1) Práticas de cuidado como resistência: defesa do SUS, luta antirracista na saúde, luta por existência e valorização.;
2) Práticas de cuidado como afetividade: aprendizagem na perspectiva feminista, aprendizagem com afeto, afeto como dispositivo para o combate à violência e construção de vínculos; e
3) Práticas de cuidado como subversão: trajetórias por autonomia, aprendizagem com o próprio corpo, diálogo com outras epistemes, enfrentamento do poder médico.
Este trabalho é resultado de doutoramento realizado na Faculdade de Saúde Pública da USP, aprovado pelo comitê de ética (CAAE 49869721.2.0000.5421) e segue as normas para pesquisa com seres humanos.

Caracterização das participantes
As seis parteiras tradicionais viviam no Estado do Amazonas: Tefé, Novo Airão e Ariaú. Na cidade de Tefé, estivemos em três comunidades ribeirinhas: Deus é Pai, Ponta da Sova e na reserva indígena Barreira da Missão/Barreira de Cima. O contexto de Novo Airão e Ariaú era urbano. A escolha das comunidades foi mediada pelo Instituto Mamirauá (organização social fomentada e supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que atua principalmente na região do Médio Solimões, Amazonas), pela Associação Algodão Roxo (formada por parteiras tradicionais da região do Amazonas) e pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS). Cada entrevista durou cerca de uma hora e meia. Elas tinham entre 49 e 69 anos; todas autodeclaradas pardas, casadas e evangélicas, com exceção de uma dela que se declarou católica (Quadro I). Cinco delas sem trabalho remunerado, uma empregada em hospital. Todas preferiram manter seus nomes reais.
As entrevistas com as obstetrizes duraram uma hora e meia. A faixa etária variou entre 30 e 44 anos; quatro eram pardas e duas brancas; umbandistas, sendo uma agnóstica e uma espiritualista, vivendo na Grande São Paulo. Todas tinham trabalho remunerado e também preferiram manter seus nomes reais (Quadro II). O grupo de obstetrizes tem predominância de idade mais jovem, quando comparado ao das parteiras tradicionais, provavelmente pelo fato de a graduação em obstetrícia ter apenas 20 anos de existência na Universidade de São Paulo.

Quadro 1

Quadro 2

RESULTADOS
O pensamento decolonial e as dimensões de gênero inspiraram a análise e apoiaram na discussão dos contextos político, social e histórico que elas vivenciavam. Este trabalho propõe formas de romper com a ideia eurocêntrica do mundo e interpretar as práticas de cuidado sob um enfoque transversal entre gênero, classe e raça. Esse olhar implica um desafio: interpretar o conhecimento e a experiência do cuidado como um ato político, cuja construção se dá nas interações entre as diversas possibilidades de cuidar e os contextos socioeconômico e afetivo.
Ancorada no pensamento decolonial e nos constructos de gênero, a análise foi orientada por três grandes temas: afetividade, resistência e subversão. Os resultados desta pesquisa podem nos ajudar a construir um quadro conceitual de obstetrícia decolonial para o enfrentamento das diversas formas de violência no contexto da saúde materna, que tem como agentes da iniquidade o racismo e o patriarcado.

Eixo 1: práticas de cuidado como resistência
São aquelas que se alicerçam na resistência às desigualdades que parteiras e obstetrizes enfrentam ao cuidar de outras mulheres no sistema de saúde, atravessadas pela luta antirracista e de igualdade de gênero.
Na perspectiva decolonial, desigualdades são impactos e consequências de um longo processo de colonização. A matriz da colonialidade é instrumento de manutenção da opressão, que estrutura as posições de subalternização de mulheres, raças, etnias e classes16.

Parteiras tradicionais em resistência
Eu falo por todas as parteiras que não têm a oportunidade que eu estou tendo (...). Fazemos parte do SUS, sim, podemos fazer, sim! Não é porque eu não sei assinar meu nome que não posso fazer. (Tabita)

A reflexão sobre a importância do SUS traz à tona uma dificuldade histórica: as desigualdades, as iniquidades no acesso da população à rede de cuidados e às políticas públicas. Ao mesmo tempo, ouvir as parteiras tradicionais do Amazonas e suas experiências com o SUS foi adentrar esse universo que une a história de colonização do país, ameaças constantes aos povos da floresta e a luta de pessoas marcadas por experiências de privação de direitos sociais e de saúde.
É evidente a participação ativa da parteira Tabita e dona Sebastiana na articulação entre as mulheres de sua comunidade e o SUS local, o que reforça a importância de seus trabalhos e sua interação com a comunidade Deus É Pai e Barreira de missões (uma comunidade indígena ribeirinha):
… todo mês eles têm uma entrega de produção, né? No município. (...) e tem reunião com os responsáveis, com os enfermeiros. (...) eles repassam a situação que tá acontecendo. (...) o que for preciso ser atendido com urgência ou com emergência, eles fazem esse atendimento. (Tabita)

“(..) porque quando estão fazendo pré-natal que às vezes vão me procurar, eu procuro logo saber com elas, vocês vão ter aqui na aldeia ou vocês vão para o hospital. Aí elas já dizem eu vou para o hospital, então tudo bem, quando tá sofrendo manda me chamar, eu vou, chego lá, pego tudinho a barriga, tá tudo direitinho, aí elas dizem assim, eu pergunto vai para Tefé? Vou sim senhora, então pronto. Se você vai para Tefé minha filha, a responsabilidade está com a enfermeira já. E bora pra Tefé.” (Dona Sebastiana)



O vínculo estabelecido entre Tabita e as mulheres da comunidade é um dos principais fatores de interação delas com o SUS, o que fortalece a rede pública de atenção pré-natal:

Que muitas coisas que ela (a gestante) não pode conversar com ele (o profissional de saúde), ela conversa com a gente (...) “Olha, é assim, assim. tem que fazer dessa maneira, tem que pedir isso.” Né?

Nos trechos acima fica evidente a contribuição das parteiras tradicionais na garantia de acesso de suas comunidades ao SUS, embora não sejam reconhecidas nem remuneradas pelo Estado.

Estratégias para o reconhecimento do trabalho
O cadastro oficial como parteira tradicional é motivo de orgulho para dona Joana e revela a importância da valorização da profissional. A Associação das Parteiras Tradicionais do Amazonas (APTAM) tem feito esse trabalho de captação para o cadastramento na região:
E aí foi o que eu fiz, me cadastrei lá (...) ela também, a Tabita, como minha ajudante, né? (dona Joana)

Essa articulação entre parteiras tradicionais, APTAM e os aparelhos governamentais tem sido fomentada pelo engajamento das próprias parteiras, com apoio da Fiocruz de Manaus e do Instituto Mamirauá. Suas principais reivindicação são o reconhecimento do seu trabalho pelos serviços públicos de saúde e a remuneração justa pelas prefeituras. Para Graça:
(...) as parteiras deveriam ter, assim, vamos dizer, ter um salário ou uma coisa assim, né?

Para Tabita, o trabalho de parteira é um ofício como outros que impactam diretamente a qualidade de vida da comunidade. Uma vez que, de certo modo, elas assumem a responsabilidade pelo bem-estar da coletividade. Daí a importância de buscarem o reconhecimento dentro dos serviços de saúde:
(...) se classe policial, militar, Marinha, Exército, Aeronáutica, presidente, deputado, senador, governador, prefeito, vereador, doutor, médico, juiz têm direito de receber pelo seu trabalho, por que nós como parteiras também não temos (...)? Será que somos pior do que eles?

Muitas parteiras tradicionais são alocadas como agentes comunitárias de saúde. É o caso de Joana e Tabita, na comunidade Deus É Pai, que se tornaram ACS e realizam o cadastramento de outras parteiras na região. Essa pode ser uma forma de iniciar a valorização e a reparação histórica dessa profissão. No entanto, como advogam, é importante que sejam reconhecidas formalmente como parteiras tradicionais no SUS.

Rede de material de suporte: transporte pelos rios
Nas comunidades ribeirinhas, o auxílio das instituições governamentais para deslocamentos pelos rios é importante, quando a parteira precisa ir até a casa das mulheres ou mesmo levá-las para o hospital.
A falta de transporte ágil, como a voadeira, torna inviável chegar a tempo e evitar danos a mulheres e bebês.
... a maior coisa que a gente precisa é do apoio deles [do governo], né? (...)muitas das vezes, a gente está aqui na comunidade, a gente precisa (...), assim, de uma canoa, um motorzinho ou uma coisa que seja mais ligeiro (Joana)

O Estado pode reconhecer essa necessidade, inserindo-as na rede pública de saúde e disponibilizando transporte para os casos que exigem a transferência das mulheres para hospitais de referência.

Os saberes das parteiras tradicionais
O monopólio da ciência, majoritariamente masculina e branca, gerou estruturas racistas e sexistas exatamente na desqualificação de outras vozes20,21. Essas estruturas controlam a formação médica e fomentam o privilégio epistêmico da obstetrícia escrita, predominantemente, por homens, desde o século XIX.
Mas a profissão da vida ensinou. E muito bem ensinado. (...) não vejo uma parteira menor do que um doutor. (...) de jeito nenhum. (...) ele tem o conhecimento, (...) a ciência, e ela tem a sabedoria. Ele tem a teoria, e ela tem a prática. (Tabita)

O processo colonizatório brasileiro iniciou o epistemicídio dos saberes populares das parteiras tradicionais. Ao longo da história da medicina obstétrica no país, igualmente um projeto de colonização, privilegiou a ciência médica e o pensamento europeu, dispensando os saberes não hegemônicos – porque fossem mulheres, negras, indígenas ou de camadas muito pobres22.
As parteiras sentem a mãe do corpo através do toque das mãos sobre o abdome. Estudando diferentes grupos indígenas do Brasil, pesquisadoras têm entendido e interpretado a mãe do corpo como o próprio útero e o lugar de uma força vital. Quando ela está fora do lugar, a mulher adoece, sente ansiedade, tristeza e tem desequilíbrios do trato reprodutor23-26. As parteiras tradicionais seguem utilizando esse conhecimento:
Sim, a minha mãe, hoje, ela vê, a gente vê, pelos estudos – (...) que eles dizem cientificamente que não existe a mãe do corpo. Mas, para a gente que nasceu conhecendo, vendo e cuidando da mãe do corpo, quem sou eu para tirar da cabeça dessas pessoas e dizer que não existe (...)?só faço ajudar, mas com os dois conhecimentos. (Tabita)

Olha, a minha avó na época, eu não sabia também o que era a mãe do corpo(…)que às vezes era com dor né, eles diziam que era Mãe do Corpo, a minha avó sempre quando a mulher ganhava neném, ela mandava ela deitar no chão, a minha avó mandava ela deitar no chão, e virar de lado para ela sentar aqui nas cadeiras que era para fechar né as cadeiras, entendeu, e amarrar um pano aqui para o útero não descer (...).Depois do parto, entendeu? Para suspender o útero para não ter queda de útero, então isso ela falava para mim né, muito, falava muito essas coisas assim. (Áurea)


Resiste entre elas a sabedoria sobre plantas e frutos amazônicos guardada na memória de dona Sebastiana e de outras parteiras. Cada elemento da natureza participa da tessitura das histórias que elas continuam a cultivar em seus lugares de cura, na sua ancestralidade. Nas comunidades ribeirinhas, a relação com a terra, as plantas e a comunidade também é proteção à biodiversidade amazônica e uma oportunidade de aprender sobre outros cuidados; aprendermos o “fazer cuidado” a partir das epistemologias do sul13. Dona Sebastiana usufrui de seus conhecimentos ancestrais sobre o cará e o cacau:
(...) nós temos uma tradição, que nós não podemos perder (...). Ela é principal porque o cacau (...) tem tipo um liquidozinho (óleo obtido da maceração da semente) liso, e o cará também. Você quebra o olho dele, (...) tem aquele líquido liso (…) Ele ajuda o parto a ser mais rápido.

O respeito aos conhecimentos tradicionais pode ser uma forma de reparação epistêmica e resgate dos saberes das parteiras amazônicas que cuidam e salvam vidas na floresta.

Obstetrizes em resistência
As obstetrizes também revelam estratégias de resistência como categoria profissional na assistência ao parto. Especificamente no âmbito SUS, esse grupo tem exercido um papel de militância para garantir sua existência, em razão das dificuldades de contratação que enfrentam nos setores públicos, mesmo quando aprovadas em concursos, e privado de saúde. A disputa por espaço e reconhecimento da obstetriz é uma constante desde a formação da primeira turma do curso da EACH-USP, em 2008.
Importante ressaltar que as atuantes no SUS têm trabalhado para transformar os cenários de parto de modo a garantir o cuidado humanizado às mulheres e suas famílias, reconhecendo a autonomia delas e buscando um diálogo interprofissional que possibilite transformações efetivas nas instituições.
(...) ser parteira (obstetriz) é estar nesse lugar de escuta das mulheres, de acolhimento. É nesses momentos que elas estão vivenciando um lugar de muita vulnerabilidade de corpo, né? (...) A gente estar ali, né? Dando essa segurança que elas precisam. (Mayara)

De forma geral, elas ainda não estão atuando nas unidades básicas de saúde, embora várias organizações internacionais apontem a necessidade de expandir a inserção delas na atenção básica.
(...) se a gente não tem obstetriz no atendimento primário, não somente para pré-natal, mas para contracepção também, para educação em saúde (...) fica muito, muito difícil mudar o contexto de saúde pública do Brasil. (Andreza)

O incentivo a mais casas de parto é uma luta das obstetrizes. Para elas, atuar em locais onde a obstetriz tenha autonomia para gerir e promover o cuidado é uma forma de garantir às mulheres o modelo centrado na pessoa e incentivar a mobilização da população para a transformação da assistência ao parto:
(...) a gente tem que se organizar, montar casas de parto, se fortalecer e montar lugares que pensem diferente. E ir para a gerência dos lugares e mudar políticas de lugares ou ter instituições. Ou trabalhar mesmo com parto domiciliar e ir difundindo isso para que a gente tenha o movimento da população, né? Essa foi mais ou menos a trajetória do Quebec. (Lilian)

Aspectos étnico-raciais e gênero
A produção de conhecimento do pensamento feminista negro27 constrói outras narrativas de cuidado, a partir do que nos conta a epistemologia ancestral de mulheres que cuidam de outras mulheres. Apagá-las ou silenciá-las nos mantém no epistemicídio de um imenso conjunto de outros conhecimentos de mulheres negras e outros grupos oprimidos pelo processo colonizatório, racista e misógino.
Mulher negra e ativista, a obstetriz Mayara incorpora práticas que aprendeu com a sua avó no cuidado às mulheres. Como no caso das parteiras tradicionais, são práticas não institucionalizadas pela academia nem presentes nos livros-textos de obstetrícia médica. Mas são presentes em sua ancestralidade, mapeadas na memória das anciãs da família.
Podemos dar voz a um conhecimento de diversas formas a partir de uma perspectiva decolonial. Nessa perspectiva, o escalda-pés, geralmente associado à medicina tradicional chinesa é incorporado pela obstetriz no cuidado a partir da vivência de um conhecimento ancestral afrocentrado, advindo das experiências afetivas com mulheres de sua família.
(...) minha avó sempre falava que o pé tinha que ficar quente, né? Pé de mulher não pode estar frio. (...)às vezes, falava: “Olha, tenta colocar uma água quente num balde, coloca o pé na água. E, assim que você sentir a sensação de calor no pé, você tira, seca o pé, e já coloca uma meia imediatamente”. (...)é a mesma coisa que eu falo para as gestantes (....).é uma prática que vem muito da minha avó, (...) é muito afetivo o escalda-pés.

O reconhecimento dessa prática como legítima é fazer oral e resistência ancestral. Mayara, mulher negra, e dona Joana, indígena, carregam na memória o conhecimento construído no cotidiano do cuidar:
(...) você massageia os pés e, aí, (...) vai conversando... (...) [nesse momento] as pessoas (...) trazem muitas memórias de avó, de família. (...) é onde a gente aprende muito também, que elas falam coisas que você nunca pensou. (Mayara)


A maioria das parteiras tradicionais participantes pariu com suas mães ou avós, que também eram parteiras. Um saber que se manteve com a experiência no próprio corpo, quando elas também aprenderam a cuidar de outras mulheres.
(...)me tornei, assim, parteira ajudando, né? (...) Minha avó, mãe da minha mãe, era parteira-chefe, né? E (...) ela falava (...): “Minha filha, vocês têm que aprender, porque eu não sou de raiz. Um dia eu posso partir e fica vocês, né? (...).Aí me criei vendo as experiências que ela tinha, que ela contava, que ela dizia, né? (Joana)

Nascida na Amazônia, no meio da floresta, ela fala orgulhosa do seu lugar de ancestralidade indígena. Conhecimento e arte se misturam quando as parteiras aprendem a pegar barriga, fazer farinha de tapioca e o caldo de açaí. Para aprender é preciso ver, ouvir, sentir e conviver com as mais velhas.
Elas lambuzam as mãos de óleo, escorregam as palmas e os dedos para sentir a textura embaixo da pele. Uma percepção que exige observação e sentidos aguçados.
Somos uma linhagem que vem desde o nascimento da minha bisavó (...) não temos o Rani [Registro Administrativo de Nascimento de Indígena, documento fornecido pela Funai], não somos cadastradas, mas temos o sangue que corre na veia. Somos brancos por modo de dizer, que não vivemos numa aldeia, que não compartilhamos. Mas só no sangue já (...) diz tudo... as práticas são todas [indígenas]. (Joana)

Eixo 2: práticas de cuidado como afetividade
Nesse eixo, partimos da concepção de que a emoção integra todo conhecimento construído. Apesar de incontáveis tentativas da ciência em separar mente e coração/amor e razão, alguns autores(as) têm postulado que as emoções nos movem na construção do saber, principalmente aqueles que estão do lado oprimido da linha abissal – o sul global, ocupado por sujeitos social e culturalmente subalternizados28. Para essa ciência, eurocêntrica, os subalternos não produzem conhecimentos, apenas crenças, opiniões, magia, entendimentos intuitivos que, “na melhor das hipóteses, podem se tornar objeto ou matéria-prima para a investigação científica”29(p. 25).
Sobre ativismo, amor e conhecimento, a feminista Jaggar30 defende que as emoções são necessárias para a construção do conhecimento e questiona a hegemonia da epistemologia ocidental, que privilegia a razão. A autora nos instiga a refletir sobre como a definição do que são emoções passa sempre por uma invenção histórica.
A apropriação do saber obstétrico sobre nossos corpos pelo patriarcado15,31 e a ideia de submissão às técnicas médicas e aparato tecnológico levou muitas mulheres a serem consideradas incapazes de parir, ou mesmo de decidir sobre seus próprios corpos3,1. Estar ao lado das mulheres nas suas vivências sexuais e reprodutivas, que envolvem os limites e as liberdades do corpo, parece também despertar nas próprias parteiras e obstetrizes o desejo de luta contra as diversas formas de violência. Um movimento de empatia e afeto que transforma a prática em luta por direitos, acolhimento e cuidado com afeto.
Eu acho que suporte é uma palavra boa mesmo, (...) é você dar essa estrutura para elas passarem por essa experiência com o nível de significado que elas quiserem ou precisarem (...) Porque algumas mulheres vão. Isso vai ser super importante, é um ponto de luta ou é um ponto de reconquista do corpo, de contato do corpo. (Thais, obstetriz; grifos nossos)

Aqui é muito melhor. A gente prepara um chá, faz uma massagem nas pernas, nas costas. Tudo com o maior carinho. No hospital, não é assim. Eles te jogam lá e, às vezes não vão nem olhar. Uma das minhas filhas teve o bebê, sozinha, no banheiro do hospital. (Sebastiana, parteira indígena)

Ousadia e afetividade são tecidas nas atuações diárias de parteiras e obstetrizes em práticas de cuidado que defendem os direitos das mulheres e enfrentam os diversos contextos de desigualdade no Brasil.
(...)coloquei na minha coxa e peguei o bebê com esse lado da mão direita [mostra a manobra que fez pra passar o bebê de mão], tá entendendo? Caso de emergência a gente faz, né? O medo faz uma ligeireza, né? (...) O medo faz a gente subir, entrar no meio do matagal (para ajudar). (Joana, parteira tradicional)


Depois de perder uma gestação, uma das mulheres que vivia na comunidade, seguia triste, com aparente apatia, descrita pela parteira. Quando um dia, sua prática de cuidado pôde ajudá-la.Nas palavras da parteira, ela pôde “respirar normal novamente”. O toque e o afeto nesse caso foram estratégias para a conversa, a conexão e o acolhimento. Uma prática de afeto para o cuidado:

“Aí eu saí da minha casa me disponibilizei até lá, aí sentei, entrei, pedi para conversar com ela sozinha, secreto, e ela começou a me dizer o que sentia (...) "tu deixa eu tocar no teu corpo?" Aí eu comecei a fazer a massagem, comecei... Desde o pé, comecei, fiz aquela massagem do pé da pontinha do cabelo, do toco do pescoço, fiz, quando chegou aonde doía, eu fazia bati, ajeitei, arrumei, puxei, e ela começou a respirar... ela começou a respirar normal, ela andava toda enrolada (...) aí eu comecei a fazer, fazer, ela começou a respirar e disse "ah eu estou conseguindo respirar normal", e aí eu fui, fui, fui, até que, está aí ela hoje boazinha, já mãe de três filhos!” (Tabita).


Eixo 3: práticas de cuidado como subversão
Criar narrativas a partir da experiência com o próprio corpo também subverte a proposta do modelo explicativo da medicina sobre a fisiologia das mulheres. Naquele momento, século XIX, as descrições ilustravam corpos femininos permanentemente em função da disputa entre cérebro e útero em todas as dimensões da vida1.
As narrativas ocidentais sobre parir estão, certamente, crivadas por gênero. O poder médico, a misoginia e o patriarcado ainda são elementos de uma sociedade que não valoriza a escolha e a autonomia das mulheres sobre seus próprios corpos.
Se parteiras resistem pela oralidade ancestral, obstetrizes também podem aprender com outras parteiras, com seu próprio corpo e com a vivência do cuidado que desenham na assistência ao parto sempre alinhada com práticas baseadas em evidência. Avaliam as obstetrizes:
(...) ele olhou para mim e sorriu, ele não chorou (...). Coloquei ele para mamar, aí ficou mamando assim. E foi (...)libertador, curativo (...) muito perfeito. (...) maravilhoso! Foi sensacional! E, aí, eu comecei a acompanhar (partos)... (Cleo)

(...) ela tem muita técnica, muito conhecimento, mas uma presença muito carinhosa. (...) sensibilidade no olhar (...). (...) uma parteira boa, ela tem isso assim, né?… ela tem um feeling. (Lilian)
(...)eu busco parte de conhecimento em artigo mesmo, ainda mais sabendo cada vez mais ler artigo e ver quando é bem feito, quando não é bem feito, quando responde o que eu estou perguntando ou não, então isso me ajuda muito, eu busco conhecimento em curso, em atualização(..). (Mariane)

A oralidade dos povos originários é silenciada pela lógica hierárquica que legitima a escrita científica. A ausência de relatos escritos foi uma das razões pelas quais, no processo de colonização, os povos indígenas, cuja história oral tem valor de documento, foram considerados primitivos, sem passado pré-existente.
(...) o maior conhecimento que eu adquiri foi do lado da minha mãe. E (...) desde 2010, quando eu comecei a participar destes encontros de parteiras tradicionais em busca de troca de conhecimento e de saberes. E junto com o município (...) [em] oficinas entre os profissionais de saúde. (Tabita)


As parteiras aprendem ouvindo e vendo. O conhecimento é vivo e dinâmico, construindo-se a cada massagem, cada experiência corporal, cada puxada de barriga e, principalmente, a cada história escutada.

DISCUSSÃO
Este estudo nos mostra o esforço de parteiras tradicionais e obstetrizes para dialogar com o SUS, resistindo às dificuldades impostas pelas desigualdades sociais e iniquidades em saúde. Evidente também é a força das dimensões étnico-raciais e da ancestralidade na construção de conhecimento e prática a favor das mulheres, em um cuidado que envolve as esferas de gênero e classe.
Traz também a emoção como propulsora de vínculos para a superação das desigualdades da hegemonia da ciência moderna, que define o corpo e o tempo das mulheres como inadequados ao evento do parto. A afetividade nas práticas é uma política de enfrentamento à violência obstétrica e ao patriarcado, na perspectiva dos direitos das mulheres.
Por fim, evidencia a capacidade de parteiras tradicionais e obstetrizes de transgredirem a “normalidade” do que é proposto pela ciência. A construção de conhecimentos obstétricos nasce das experiências com o próprio corpo. A subversão das obstetrizes está no diálogo com as práticas baseadas em evidências e com o saber das parteiras tradicionais, ousando propor outras trajetórias de atuação nos diversos espaços do parto e nascimento. Nesse sentido, resistência, afetividade e subversão suportam uma luta comum e permanente por existência, reconhecimento e equidade no sistema de saúde brasileiro.
Para ampliar a compreensão da obstetrícia como área de atuação plural, é preciso estabelecer diálogos de interconhecimentos13. As práticas obstétricas que se apoiam nas recomendações da Organização Mundial de Saúde32 reivindica o início fisiológico do trabalho de parto, a liberdade de posições e a limitação de intervenções ao mínimo necessário, assim como já promovem as parteiras tradicionais em diversos contextos. Esse diálogo entre práticas permite questionar e abolir práticas seculares assentadas em uma visão médica misógina, que ainda hoje sobrevive na assistência, perpetuando a desigualdade de gênero, inclusive na formação médica.
Para as obstetrizes e parteiras tradicionais participantes desta pesquisa, o cuidado como ato político é sempre nucleado pelas lutas em defesa do SUS, antipatriarcais e, sobretudo, antirracistas. Uma saúde de fato equânime e equitativa não pode prescindir do respeito à identidade de gênero e à orientação sexual, tampouco desconsiderar questões de raça/cor, que permeiam o cotidiano dos serviços. Nesse sentido, a originalidade deste trabalho está na construção de um corpus teórico que permite pensar a obstetrícia decolonial no contexto brasileiro a partir das práticas de cuidado de parteiras tradicionais e obstetrizes. Por certo, é necessário entender as influências do capitalismo na construção da medicina e refletir sobre seus impactos nas iniquidades em saúde, reflexão que será abordada em uma próxima publicação.

Agradecimentos:
Às parteiras tradicionais e obstetrizes que resistem às diversas dificuldades impostas pelo sistema e promovem saúde nas comunidades como ato político. Ao instituto Mamirauá e à FAS que possibilitaram o diálogo e a chegada até as parteiras tradicionais. À capes pela bolsa de doutorado concedida.

Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis mediante solicitação ao autor de correspondência.
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Zorzam, BAO, Diniz, CSG, Malinverni, C, Ferreira, GCV. Como decolonizar a obstetrícia? Apontamentos para uma prática antirracista e feminista na perspectiva do SUS. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/mai). [Citado em 09/05/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/como-decolonizar-a-obstetricia-apontamentos-para-uma-pratica-antirracista-e-feminista-na-perspectiva-do-sus/20003?id=20003

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